Contar histórias de Madonna através de dez singles

Como todas as listas de preferência esta nasce de uma escolha. E por isso é assinada. Mas pode ser partilhada e comentada. De resto, aceitam-se TOP 10 alternativos nos comentários… Seleção e textos: Nuno Galopim

Começa hoje a residência de oito datas que, até dia 23, Madonna vai apresentar no Coliseu dos Recreios de Lisboa, integrando a digressão Madame X Tour que, aqui, entra na sua etapa europeia. E por isso o GiRA-DiSCOS assinala o momento com o arranque de uma lista de dez singles.

Escolher dez canções de Madonna entre as muitas que já levou ao formato de single desde inícios da década de 80 não é de facto tarefa fácil. E implica, já que uma lista se faz de uma escolha de apenas dez canções, que muitas fiquem de fora. E assim vai ser.

Como todas as listas de preferência esta nasce de uma escolha. É pessoal. Mas transmissível. Esta lista traduz um gosto e vivências. E assim sendo aqui vão surgir, uma a uma dez canções que surgiram em formato de single.

“Holiday” (1983)

O álbum de estreia de Madonna, editado em 1983, nasce de pontes que então a cantora estabelece entre os universos da música de dança que então habitava a cena noturna nova iorquina e sonhos pop que começou a desenhar em nome próprio. A estreia em disco, que chegara ainda em 1982 com Everybody, mostrara bem evidente essas ligações às pistas de dança. E do impacte que ali obteve surgiu a luz verde para avançar com um segundo single (que seria, já em 1983, Burning Up) e a gravação de um álbum de estreia.

Madonna trabalhou então com Reggie Lucas, produtor com o qual surgiram desentendimentos. Entra então em cena John ‘Jellybean’ Benitez que, além de procurar dar outro vigor e cor a algumas das canções já gravadas, remisturando-as (e acrescentando alguns elementos), traz consigo mais um tema assinado pela dupla Curtis Handson e Lisa Stevens (dos Pure Eenergy). Holiday, na visão de produtor de Jellybean e sob uma interpretação de Madonna que ali vincou marcas de identidade do que era aquele momento para si (e o mundo ao seu redor) acabou por ser escolhido como terceiro single na emergente discografia da cantora. E depois de dois êxitos no circuito de dança, coube a Holiday dar-lhe um primeiro sucesso pop mainstream, chegando ao Top 20 nos EUA e com ainda maior visibilidade noutros territórios.

O impacte do sucesso surpreendeu a própria editora, que não tinha previsto um teledisco para acompanhar Holiday (o mesmo não voltaria a acontecer no seguinte Lucky Star, que vai ainda mais longe na aceitação global e institui, através do vídeo, as marcas de identidade da imagem desta etapa na vida de Madonna).  Holiday teria várias vidas. No Reino Unido, por exemplo, onde a capa da edição original não mostrava Madonna na capa, houve reedições em single em 1984 e 1985. Holiday surgiu ainda no alinhamento de várias digressões.

“Material Girl” (1984)

O segundo single extraído do álbum Like a Virgin (1984) ajudou a cimentar o estatuto de Madonna como um ícone, facto de facto invulgar e surpreendente perante uma carreira ainda relativamente curta e em tempo de afirmação. Se a canção que dava título ao seu segundo álbum inscrevia de facto não só um hino no calendário pop dos anos 80, como aprofundava (mais do que qualquer telediscos anteriores) a força de uma imagem, a Material Girl coube, algumas semanas mais adiante, o golpe de misericórdia que acabou com as dúvidas dos ainda eventualmente céticos.

A canção é um manifesto pop sobre o materialismo, apresentada contudo numa forma de provocação e choque que herda ensinamentos da “escola” Bowie que tinha abalado valores instituídos. Apesar da clara evocação da figura icónica de Marilyn Monroe num teledisco que cita uma sequência histórica de Os Homens Preferem as Loiras, de Howard Hawks (1953), a pose de Madonna (e as palavras que a definem) não sugere uma afirmação materialista da mulher-objeto, mas apresenta antes um programa de identidade de género e poder. Aos poucos, um discurso (que teria muitas descendências) começava ali a nascer.

“Like a Prayer” (1989)

Já havia sinais anteriores, nomeadamente no álbum True Blue (1986), onde canções como Live To Tell ou até mesmo Papa Don’t Preach davam sinais de uma atitude diferente sobre o que, até então, era uma agenda temática essencialmente festiva e juvenil na obra de uma cantora em tempo de afirmação. Mas é em 1989, quando chega o momento de apresentar o seu quarto álbum de estúdio (e o último da década que a apresentara globalmente e fizera uma figura de primeiro plano no panorama da música pop) que Madonna deixa claro que a rapariga dá lugar à mulher. E o que poderia ser uma carreira mais breve e de impacte na época, tinha afinal pernas para ir bem mais longe…

Escolhido como single de avanço para um novo álbum (que nos daria a escutar ainda peças históricas como Express Yourself, Cherish ou um dueto, hoje algo esquecido, com Prince) ao qual dava nome, Like a Prayer é o primeiro single do resto da vida de Madonna.

É uma canção pop. Mas, mais do que qualquer outra das suas composições até então, procura ir a lugares antes não visitados. É claro que tinha já havido um flirt com outras músicas, como por exemplo em La Isla Bonita, em regime latino. Mas a assimilação do gospel numa matriz pop com alma funk na pulsação rítmica não se revelava apenas uma figura de estilo. Era cenário para uma reflexão sobre a religião e os seus valores, tendo o teledisco mostrado depois uma primeira abordagem a iconografias que levantariam frentes de controvérsia (e a boa arte faz sempre isso, certo?).

“Express Yourself” (1989)

Reforçando as sugestões (musicais, mas também políticas) do single com o título do seu álbum de 1989, Express Yourself, que se lhe seguiu, foi outra peça central no programa que apresentou Like A Prayer, disco através do qual deixou evidente que a sua carreira não se esgotaria na relação criada com o público mais jovem que a elevara ao estatuto global nos oitentas.

A canção é um hino identitário (que ainda hoje ressoa pungente), contribuindo sobretudo para uma valorização da mulher, clamando por uma voz e estatuto num plano de igualdade de género. É também ao escutar as palavras que encontramos, na essência do retrato, uma contradição (e atenção que mudar de opinião é também saber evoluir) face ao retrato que anos antes havia proposto em Material Girl.

A canção apresenta, na sua forma original, um diálogo entre a pop e heranças funk. As remisturas explorariam porém uma atenção mais evidente para com a emergente cultura house, abrindo portas a caminhos que Madonna percorreria nos primeiros tempos dos anos 90. O teledisco representou um momento de colaboração histórica com David Fincher, refletindo não só ecos da memória de Metropolis de Fritz Lang, como abrindo sugestões a ideias que seriam exploradas no palco da Blonde Ambition Tour, que se seguiria.

“Vogue” (1990)

Há canções que ganham uma dimensão tal que, muitas vezes, quase esquecemos onde está a sua origem. E no caso de Vogue esse origem está no álbum I’m Breathless, um disco que a memória do tempo foi injustamente esquecendo (apesar dos bons instantes que o alinhamento guarda), nascido como banda sonora, ou antes, um conjunto de temas inspirados pelo filme Dick Tracy, de Warren Beatty, em cujo elenco a presença de Madonna era uma das forças maiores.

Expressão evidente da assimilação dos mais recentes ensinamentos da música house, a canção, assinada por Madonna e Sheep Pettibone, foi pensada como um hino de desafio à dança e traduz uma das mais marcantes expressões com projeção mainstream de um fenómeno nascido nos espaços mais underground da cultura queer de Nova Iorque ainda em finais dos anos 70: o vogueing.

Apesar de explorado pouco antes por Malcolm McLaren no álbum Waltz Darling (1989), foi através desta canção de Madonna e do teledisco (realizado por David Fincher) apresentava coreografias criadas por dois elementos da “casa” Xtravaganza – uma das mais conceituadas no universo do vogueing – que esta forma de dançar ganhou visibilidade global na alvorada dos anos 90.

“Justify My Love” (1991)

Nem todos os grandes episódios de uma discografia se fazem no formato de álbum. De resto, bem anterior ao advento do LP, a ideia do disco com uma gravação de cada lado há muito que nos habituou à ideia do valor da canção como célula estrutural da música popular. A carreira de Madonna nos singles de Madonna fez-se, como tantas outras nascidas depois da imposição do álbum como espaço de protagonismo maior, de canções extraídas dos LP que rodavam também a 45 rotações. Mas a sua discografia inclui variados exemplos de singles que não nasceram associados a álbuns. E de todos eles este é o melhor.

Corresponde na verdade a um episódio de transição entre as ideias assimiladas na reta final dos anos 80 (com uma nova abordagem a emergentes formas da música de dança) e o trabalho de reflexão sobre as heranças da house e do hip hop que emergiria pouco depois em Erotica (1992). Canção composta por Lenny Kravitz e Ingrid Chavez (que na altura editava o seu primeiro álbum na Paisley Park), Justify My Love traduz esses encontros de ideias na matriz de uma canção que, juntamente com peças contemporâneas de nomes como os Beloved, Pet Shop Boys ou Deee-Lite, ajudou a definir novas formas para a linguagem pop.

A voz era falada e não cantada, servindo a sugestão de um ambiente criado pelas electrónicas e batidas. Pela letra passam ideias e imagens sobre a sexualidade que correspondem a um quadro maior que Madonna começava a desenhar (e que teria expressão maior no álbum Erotica e no livro Sex). O teledisco foi realizado por Jean Baptiste Mondino e é um dos mais cinematográficos da videografia de Madonna.

“Frozen” (1998)

O filme Um Chá no Deserto (no original The Sheltering Sky) de Bernardo Bertolucci, habita entre as memórias mais antigas da canção que, em inícios de 1998, seria chamada a apresentar aquele que é o melhor de todos os álbuns da discografia de Madonna. Interessada em explorar os elementos de exotismo e romantismo que passam por esta narrativa com geografia magrebina, Madonna entregou essas coordenadas a Patrick Leonard, co-autor de Frozen, que ganharia forma através da visão do produtor William Orbit, junto de quem a cantora encontrou o parceiro ideal para definir um regresso aos discos após a pausa de quatro anos que se seguira a Bedtime Stories durante a qual agendara algum tempo para o seu trabalho no cinema (Evita é o episódio mais significativo desse período) mas dedicara sobretudo atenção a espaços da sua vida privada, numa altura em que não só foi mãe pela primeira vez mas encontrou também uma relação diferente com a transcendência. 

Frozen seria a escolha certa para um álbum que traduziria o estado de alma com que chegou ao final dos anos 90, num conjunto de canções que, pelo esforço de William Orbit, definiram também uma outra forma de abordar as electrónicas.

Conciliando uma cenografia orquestral com o apelo rítmico tribal desejado e toda um emolduramento electrónico elegante e contemporâneo, Frozen não podia ter sido melhor cartão para Ray of Light. E deu a Madonna uma dos seus maiores clássicos, magnificamente acompanhado por um teledisco de Chris Cunningham.

“American Life” (2003)

Depois de ter levado a novos horizontes a procura de caminhos para a pop eletrónica em Ray of Light (na companhia de William Orbit), Madonna encetou depois da viragem do século um relacionamento criativo com um músico francês que, desde então, colaborou já em vários discos seus. O início desse entendimento ganhou forma em Music, disco que vincava um desejo em explorar potencialidades de novos sons e técnicas, revelando por isso um fulgor mais experimental. Esse caminho seria aprofundado (assim como o protagonismo de Mirwais Ahmadzaï) no passo seguinte, que ganharia forma em American Life, um disco conceptual que, como o título sugeria desde logo, estava focado na ideia da América do presente (de no estado de saúde do sonho americano).

O álbum foi apresentado por um single com a canção que lhe dava título. No plano instrumental era uma clara evolução da pop eletrónica angulosa e minimalista que Madonna começara a explorar com Mirwais em Music. Mas era no plano das palavras (e depois das imagens) que as maiores farpas se revelavam. Isto, apesar de alguma crítica se ter distraído sobretudo com as qualidades do rap que Madonna faz no final da canção.

American Life aborda a derrocada do sonho americano e surge em plena administração de George W. Bush, que aqui Madonna confronta. A canção foi acompanhada por dois telediscos, um deles marcado por referências a iconografia militar. Filmado por Jonas Akerlund, foi retirado pouco depois de lançado pela própria Madonna, que justificou o facto pelo respeito pelas forças armadas e o estado volátil, do mundo depois da eclosão da guerra no Iraque. Em seu lugar surgiu um outro, no qual Madonna canta o tema com várias bandeiras como cenário.

“Hung Up” (2005)

O reencontro de Madonna com ecos da música que fazia a banda sonora das noites de Nova Iorque em inícios de 80, a colaboração com Stuart Price (na produção) e um alinhamento claramente focado numa relação da canção pop com a música de dança foram alguns dos argumentos que levaram Confessions on a Dance Floor a um lugar de destaque maior na discografia da cantora.

Madonna assumia ali um reencontro com as duas premissas fundamentais da sua obra musical: fazer pop e fazer dançar. De certa maneira parte de um reencontro com uma lógica de diálogo entre a pop e DJs e produtores associados à música de dança que definiram o rumo do seu histórico álbum de estreia em 1983, que fora fruto de uma vivência no seio de uma nova música que emergia nas noites de Nova Iorque, com vontade de continuar a dançar, na ressaca do disco sound. Podia nascer ali um disco de nostalgia dançarina early 80’s. Mas na verdade, Confessions On A Dance Floor traduzia o presente. Aceitava as heranças de 70 e 80, mas juntava contemporaneidade via assimilações das linguagens mais recentes.

O álbum teve cartão de visita perfeito em Hung Up. É uma brilhante construção de uma canção com alma própria, que mesmo remetendo-nos para a memória evidente do sample de Gimmie Gimmie Gimmie (A Man After Midnight), dos Abba, que lhe é estrutural, não impede o reconhecimento do que ali é novo como protagonista. O filet mignon de pop sueca é magnificamente enquadrado numa composição que sabe, depois, projetar a vitalidade pop samplada num todo que segue o mesmo caminho, suportando o edifício pelo recurso a uma arquitetura electro (pop). Ninguém resistiu!

“Dark Ballet” (2019)

Muito já se falou sobre o disco “lisboeta” de Madonna… E não faltou já quem bradasse que ali não estava afinal Lisboa nenhuma, possivelmente esperando postalinhos coloridos com sardinhas assadas e pastéis de nata. Felizmente não é essa a Lisboa que Madame X traduz. Aqui está antes uma Lisboa vivida em episódios de descoberta que, mais do que um guia turístico feito de lugares comuns, resultou antes de uma soma de encontros, de vivências e, acima de tudo, de possibilidades lançadas. O disco traduz, afinal, o que é a essência de uma cidade que vive de encontros, de cruzamentos e, uma vez mais, de possibilidades…

O que Madame X fez também foi, de certa forma, o reatar de Madonna com um velho gosto por se lançar em frente ao pelotão. De assumir desafios. Por um lado, eco do que parece uma nova realidade em construção neste final de década, o disco traduz a consciência de que o inglês não é mais a língua universal da canção pop, cabendo precisamente às línguas espanhola e portuguesa a criação de novas vozes nesta comunicação pop(ular)… E por outro à assimilação de várias formas e referências que assimila, que vão desde as batucadeiras de Cabo Verde a universos como o reggaeton e o trap. Na pulsação das palavras define-se depois um momento político que traduz uma voz crítica que não é apenas americana, mas global. 

Depois de um cartão de visita com Medellín (com Maluma), o segundo single extraído de Madame X focou atenções em Dark Ballet, talvez a canção formalmente mais desafiante de toda a discografia de Madonna e em cujas entranhas encontramos um pedaço, transformado, de um momento do “Quebra Nozes” de Tchaikovsky, revisitado ao jeito de uma Wendy Carlos. E aqui encontramos a alma mais rebelde de uma estrela pop que, aos 36 anos de discos, e com um historial de sucesso global, decide que nem tudo deve ser fácil e imediato.

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