Uma narrativa política e pessoal mais perto do teatro do que do concerto pop

Com “Madame X” Madonna aceitou o desafio de incomodar o modelo de concerto pop. O manifesto de Madame X sugeriu o caminho. E o espetáculo, agora em residência no Coliseu dos Recreios, acrescenta um dos melhores episódios à sua obra para palco. Muito político. E também muito pessoal. Texto: Nuno Galopim

Foto: STUFISH

“Os artistas estão aqui para perturbar a paz”… A frase, de James Baldwin, foi citada mais do que uma vez durante o espetáculo que Madonna agora apresenta uma residência de oito datas (até dia 23) no Coliseu dos Recreios (em Lisboa, a sua “segunda casa” como ela mesma ontem nos contou). Surge, lida ao som de batidas de uma máquina de escrever logo no início, regressando perto do final. E a meio, numa das várias sequências de conversa que estabelece com uma plateia – que a vê olhos nos olhos, sem ter de olhar para grandes ecrãs – deixa claro que essa perturbação não visa senão lutar pela paz no mundo. A nota, claramente política, sustenta toda uma construção que está mais perto de uma encenação teatral do que do mais clássico concerto pop. De resto, ao optar por salas mais pequenas do que o habitual, Madonna trocou a exuberância pela acutilância. E o modo como o palco se mostra e transforma – com módulos físicos que se movem e readaptam, transformando-se pela ajuda também de projeções vídeo – tem na verdade mais afinidade com o que habitualmente vemos no teatro, ou até mesmo na ópera, do que com os mecanismos cénicos mais frequentemente usados pela música pop. E tal como numa ópera ou numa peça de teatro musical, Madonna usa aqui canções para nos contar histórias.

         E que histórias nos conta Madonna? Primeiro fala de resistência e de luta. Madame X é na verdade um coletivo, uma multiplicação de Madonna em várias personagens. E quando canta Vogue várias figuras idênticas chegam mesmo a caminhar pelo palco, obrigando-nos a procurar qual delas é mesmo a que Madonna veste naquele momento. O manifesto de Madame X serve de base ao espetáculo. E entre as primeiras canções fica claro que a mulher lutadora está ali, de forma talvez mais evidente do que nunca, a batalhar pelas causas em que acredita, de uma clara postura de antagonismo perante a atual administração americana – chega mesmo a dizer que um psicopata está a mandar no seu país – ao levantar da voz pela liberdade e igualdade, vincando o valor do respeito pela identidade de cada um. Do acesso às armas legalmente permitido nos EUA às lutas da comunidade LGBT+, Madonna fez inclusivamente de I Rise (que inclui imagens de manifestações e as palavras de uma ativista que sobreviveu a um tiroteio escolar) uma condensação do Manifesto, abandonando o palco de braço (e punho) no ar. Antes já American Life, uma canção que alerta para o modo como o “sonho americano” parece ter desmoronado, tinha representado outro episódio de evidente manifestação de uma voz política, a mesma que nos alerta em Future para o futuro ameaçado em que todos vivemos.

         Se a dimensão política é uma das forças motrizes tanto do álbum Madame X como do espetáculo que agora o transforma numa realidade física, a história pessoal da própria Madonna é outra das narrativas que habitam as entranhas do que agora ganha forma em palco. Ela mesma começa por nos contar como, pelo filho, veio parar a Lisboa… E daí como, através de uma amiga colombiana que aqui vive (imitou sotaque e tudo), acabou por ser desafiada a sair de casa, começando a descobrir outras realidades. E falou de música. De Dino d’Santiago, que a levou a descobrir casas de fado. De Celeste Rodrigues, com quem chegou a cantar… Chamou à boca de cena o jovem Gaspar Varela, bisneto de Celeste, que uma vez a desafiara a cantar um fado. E desta vez, sublinhando quão bom era não ter de explicar a uma plateia o que era o fado, cantou um perante uma sala que, mesmo carregada de visitantes (muitos espanhóis, italianos, alemães), estava cheia de gente que fala português. Quando o pano voltou a subir o palco tinha-se transformado numa casa de fados, na qual Madonna concentrou algumas das canções em que usa a língua portuguesa – como KIllers Who Are Partying e Crazy, alargando o universo de referências à música latina em geral juntando citações a La Isla Bonita ao tema Welcome To My Fado Club e acabando por cantar ali Medellín, o cartão de visita de Madame X. A aproximação a esta sequência focada em Lisboa – o local que inspirou o, como disse Madonna – já se tinham escutado as batukadeiras de Cabo Verde no brilhante Batuka. E coube ao dueto com Dino d’Santiago – que tal como na primeira noite voltou a palco e foi apresentado como o “rei do funaná” – outro dos episódios mais emotivos, entoando, com a sala a cantar, Sodade, de Cesária Évora. Os sabores portugueses, da amarguinha ao vinho do porto (branco) e ao bacalhau não faltaram… Assim como o único palavrão que sabe em português, que começa com a letra “c” e rima com alho…

Foto: STUFISH

         Apesar do tom sombrio de algumas sequências nas quais o espetáculo traduz o estado do mundo e o modo como Madonna usa a sua voz, a luz não faltou a Madame X. A sequência lisboeta foi disso um exemplo. Todavia, ao contrário de muitas outras digressões de Madonna, o espetáculo Madame X não cede no sentido de combate e identidade que desenha a qualquer apelo para fugas para festa e nostalgia com velhos êxitos. Pelo contrário, não só é curta a presença de temas antigos num alinhamento que valoriza (e ainda bem) a presença do álbum Madame X como muitas vezes – como em American Life, Express Yourself ou Like a Prayer – mostra como os alicerces das ideias que explora neste disco na verdade estavam já lançados por canções de outros tempos. O espetáculo foge assim das lógicas mais habituais de diálogo do novo com uma seleção “best of” de discos anteriores. O passado de Madonna serviu aqui a narrativa, levando a cena outras expressões da multiplicação de si mesma em várias personagens… E basta olhar para a sua história de canções e imagens para notar que, na verdade, esta ideia já a acompanha há muito.

Sem a dinâmica atlética que vimos, por exemplo, na digressão que sucedeu a Confessions on a Dance Floor, o espetáculo procura outros caminhos. Há bailarinos (que vestem também a pele de várias personagens) e os músicos só ocasionalmente estão em palco. Uma vez mais a dimensão teatral das opções da encenação demarca a personalidade desta visão, até mesmo ao diluir sem a nitidez mais compartimentada de digressões anteriores, as transições entre os quadros que desenham a sucessão de momentos (como se dos diversos atos de uma peça, ou ópera se tratasse).

Só não brilha como poderia fazer melhor o momento do leilão da polaroid… Pouca gente vai para um espetáculo com molhos de notas no bolso… E a coisa acaba necessariamente fechada entre fãs já alertados para o que vai acontecer… E talvez na sala houvesse até quem, sem notas na hora mas com contas mais avultadas, tivesse vontade de ajudar (o dinheiro da venda da polaroid reverte para a importante obra Raising Malawi de Madonna).

Uma nota final para o prólogo. Ou primeira parte, se preferirem. Gaspar Varela (guitarra portuguesa), Jéssica Pina (trompete), Miroca Paris (guitarra) e Carlos Mil-Homens (percussão) apresentaram-se na boca de cena, com sala a meia luz, antes mesmo de começar o espetáculo. Era como um Madame X Tour Combo, vincando em tons quentes abordagens a várias canções, entre as quais versões de Secret, Like a Virgin, Don’t Tell Me ou Who’s That Girl perante uma plateia que conhecia as letras e cantou…

Os telemóveis? Sim, grande ideia… Que bom que foi ver uma sala a olhar para o palco sem ecrãs pelo meio e braços esticados pela frente a captar imagens que nunca mais vai ver ou a fazer selfies… Toda a gente estava avisada. E a coisa correu bem. Não era má ideia repetir em mais ocasiões. Nada má.

PS. Discretas equipas de filmagem andam pelo Coliseu… O filme-concerto, que imaginamos editado depois em DVD e Blu-ray, parece estar a nascer aqui…

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