O que é um álbum? PJ Harvey dá-nos uma resposta na forma de um belo filme

Poucas vezes o cinema fixou tão bem o que é criar um disco. Das viagens ao Kosovo, Afeganistão e Estados Unidos com Seamus Murphy, PJ Harvey encontrou imagens e histórias de vida que estimularam a criação de canções que, depois, ganharam forma sob o olhar de visitantes, como num museu. Um filme, agora, conta-nos essa história. Texto: Nuno Galopim

O que faz com que um álbum possa ser mais do que uma coleção de canções? Há várias respostas possíveis. Respostas que podem ter em conta uma abordagem estética em particular, um grupo de colaboradores, ou até o mero facto de fixar em disco um intervalo de tempo de um processo criativo. Quaisquer destas razões pode ainda chamar a si uma outra: a exploração de um tema. E em 2011, depois de editado Let England Shake, um disco que era também um conjunto de olhares políticos sobre o Reino Unido, PJ Harvey colocou na sua agenda um conjunto de viagens com o fotógrafo Seamus Murphy. Juntos estiveram no Kosovo, no Afeganistão e nos Estados Unidos (focando sobretudo aí as atenções em Washington DC, embora em zonas da cidade que não são as habitualmente mostradas quando os noticiários falam da vida política do país). Estas viagens desencadearam experiências, contactos, permitiram ver lugares e escutar das narrativas de quem ali vive. Foram estímulos determinantes para criar um corpo de ideias que foi ganhando forma em poemas (que surgiram no livro The Hollow of The Hand) e depois acabaram por habitar as canções de Hope Six Demolition Project, álbum que PJ Harvey editou em 2015. A Dog Called Money, filme de Seamus Murphy que agora estreia entre nós, não é mais senão um documentário sobre este mesmo arco de acontecimentos.

O filme é como um poema. Coloca-nos no tema. Deixa-nos observar. Mas não fecha em nós o modo de nos relacionarmos com as ideias e os acontecimentos em jogo. Por um lado vamos encontrando momentos das viagens de PJ Harvey, e aí encontros com pessoas que foi conhecendo e cujas narrativas de vida escutou. A história de um jovem de Washington DC que viu vários familiares a serem assassinados num mesmo quarteirão (em ocasiões diferentes) ou de uma rapariga que tem um cão chamado Money obrigam-nos a notar que não é apenas em lugares devastadas por conflitos maiores que se notam os sinais de uma sociedade desigual. O tom poético com que Seamus Murphy observa depois, por exemplo, as ruas de Cabul (sob olhares distintos dos que o fotojornalismo documenta) não procura embelezar, mas mostrar com um ponto de vista autoral o mundo que a câmara tem pela frente. Vinca um sentido de realismo. Mas dispensa o cunho miserabilista de algum cinema de realismo social que tanto entusiasma festivais aos quais vão jornalistas e profissionais de cinema frequentemente bem instalados em hotéis bem diferentes dos ambientes que viram nos ecrãs e acabaram de elogiar.

As imagens das viagens de PJ Harvey e Seamus Murphy são cruzadas, na montagem, por sequências captadas mais tarde, durante a gravação do álbum. O disco nasceu no quadro de uma ideia de instalação performativa, levando durante algumas semanas PJ Harvey e os seus músicos e produtores a uma sala no piso inferior da Somerset House, em Londres. Um conjunto de janelas (com visibilidade apenas do lado de fora) permitiu então aos visitantes – a quem eram retirados os telemóveis por uns minutos – presenciar momentos da criação de um álbum. O filme mostra instantes de diálogo, experimentação, tocas de ideias e de gravação, sem, contudo, procurar nunca uma lógica de filme concerto ou até mesmo de filme sobre um ensaio… Nem mesmo sem a vontade de demonstrar concretamente como uma ação nas viagens desencadeou uma reação em estúdio. As canções nascem, as viagens voltam a surgir, num vaivém entre tempos e lugares que, no fim, como sabemos, convergiram no sentido de um álbum. O tal Hope Six Demolition Project.

É um making of de um disco? De certa forma sim, mas sem a lógica promocional mais justificativa que muitas vezes habita esse tipo de documentários. Porque, no fundo, Seamus Murphy nunca nos condiciona. Deixa-nos olhar, sem forçar um caminho narrativo, sem obrigar a juntar os nós… Poderão perguntar se este filme poderia ter chegado antes do disco ou até mesmo em simultâneo com o seu lançamento? Penso que não. Teria condicionado o nosso modo de escutar as canções. E a procura de liberdade que habita todo o projeto deixaria de existir da mesma forma. Agora, quase cinco anos depois de Hope Six Demolition Project o filme, que entre nós estreia com o título PJ Harvey: A Dog Called Money não só se justifica em si mesmo, como nos pode levar a reencontrar esse álbum notável. Poucas vezes o cinema fixou tão bem o que é criar um disco.

“PJ Harvey: A Dog Called Money”, de Seamus Murphy, estreia esta semana nos ecrãs nacionais. Está, para já, em exibição no Espaço Nimas, em Lisboa.

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