Yma Sumac: o poder da mitologia ao serviço da criação de uma estrela… exótica

Tal como a própria música que acabou arrumada sob a designação “exotica” também a construção de Yma Sumac, uma das maiores figuras desse universo que fez escola nos anos 50, surgiu acompanhada por uma mitologia. Texto: Nuno Galopim

A construção do espaço musical que conhecemos sob a designação “exotica” (que foi título de um álbum de 1957 de Martin Denny, um dos nomes mais ativos neste universo). Apesar das muitas referências culturais habitualmente em jogo – frequentemente oriundas das orlas e das ilhas do Pacífico – esta música tinha mais de construção “fake” do que de expressão de diálogos entre ecos tradicionais e outras linguagens e geografias, aqui de facto algo que mais tarde seria arrumado no espaço da world music. Exotica não é world music… É antes uma construção de ficção. Uma “fake music” que tinha mais em comum com o modo como os filmes de Hollywood se tinham habituado a retratar outros tempos e outras culturas do que com processos de recolha etnomusicológica. E na verdade as origens da ideia recuam a criações que surgiram uns anos antes de o nome ter sido pelo álbum de Martin Denny. Em 1951 o também norte-americano Les Baxter gravara Ritual of The Savage, disco que cruzava elementos de outras músicas e outras geografias, acrescentando até sonoplastia “exótica” com sons de pássaros e sapos… Afinal sugeria-se uma música para estimular o sentido de exotismo de um novo turismo rumo ao Hawai e outras ilhas do Pacífico. Mas ainda um ano antes, e com Les Baxter a bordo, um outro disco abria horizontes para fazer dos anos 50 um terreno aberto a este tipo de visões. Era protagonizado por uma cantora de invulgar extensão vocal, dotada de um rosto de linhas cinematográficas e apresentada por uma narrativa de alma épica… Chamava-se Yma Sumac.

         A construção da personagem juntava mitologias que ora contavam que era descendente do último grande imperador Inca ora diziam que era uma dona de casa nova-iorquina que resolvera, pela música, dar outro rumo à sua vida. Na verdade Zoila Augusta Emperatriz Chávarri del Castillo (1922-2008), o seu nome real, era uma cantora peruana que começara a cantar na rádio em 1942 e chegou a gravar uma série de canções folk de passagem pela Argentina por esses dias. Com a família mudara-se para nova-iorque em finais dos anos 40, começando ali a fazer carreira a bordo do Inka Taky Trio. E foi então que, através da Capitol Records, recebeu um convite para gravar a solo. 

         A estreia em disco como Yma Sumac fez-se em 1950 com um LP (formato ainda recente, lançado pela primeira vez dois anos antes, em 1948). Voice of the Xtabay apresentava seis composições de Moises Vivanco (com quem estava casada) e duas de Lex Baxter, é revelava um festim de exotismo que conciliava uma interpretação à la Hollywood de um sentido de herança pré-colombiana com a presença da música latina. A invulgar extensão vocal de Yma Sumac (que ultrapassa as quatro oitavas), que lhe permitem não apenas o canto mas também um desenho de vocalizações que se tornariam assinatura sua, os arranjos luxuriantes para orquestra e uma presença variada de instrumentos de percussão, criava um alinhamento tão invulgar quanto sedutor. Diferente. Mas estranhamente intrigante. E desde logo capaz de seduzir atenções, valendo-lhe o cognome de “rouxinol dos Andes”…

         A criação da figura (e da música) de Yma Sumac precede a designação “exótica” mas na verdade define do que afinal se trata aqui. Outros discos seguiram-se a Voice of the Xtabay, ora sublinhando essa carga de construção andina hollywoodesca, ora visitando com maior protagonismo os espaços da música latina, que entretanto, cativara as pistas de dança ocidentais. Os discos eram acompanhados por textos que valorizavam a narrativa mitológica, juntando ao universo musical e plástico de Yma Sumac todo um conjunto de referências de tempo e geografia pré-colombiana.

         A caixa The Quintessence lançada na reta final de 2019 junta, em três CD, os álbuns que Yma Sumac gravou para a Capitol nos anos 50, juntando alguns extras, ora retirados de discos de 78 rotações ora do musical da Broadway Flahooley, de 1951.

         Voice of the Xtabay, de 1950, é claramente o mais interessante dos discos de Yma Sumac. O disco define um programa estético que depois tem continuação em frentes que se manifestam nos álbuns seguintes. Por um lado há discos, todos eles sob a direção musical de Moises Vivanco, que aprofundam a mitologia inca (e mais exótica) que ser manifesta em Legend of The Sun Virgin (1952), Inca Taqui (1953) e Legend Of The Jivaro (1957), neste último à orquestra sendo reunida ainda “acompanhamento nativo”, como se lia nas notas na contracapa. Ao mesmo lado Mambo! (1954), gravado com Billy May e a Rico Mambo Orchestra, procurava levar à pista de dança de travo latino alguns sinais já explorados no disco de 1950. Editado em 1959 o álbum Fuego del Ande, novamente com Moises Vicanco, mas com a presença em estúdio da sua Orchestra Tipoca, ensaia aproximações ao folclore andino, sem perder a dimensão mitológica em volta de uma voz que, nove anos depois de Voice of the Xtabay, estava já longe de representar o travo inesperado e exótico de outrora. Os sabores da surpresa tinham migrado para outros lugares… E a própria obra de Yma Sumac mergulhou, progressivamente, num caminho cada vez mais distante das grandes atenções.

         A caixa da Cherry Red representa a mais bem arrumada coleção de memórias de Yma Sumac… Basta espreitar a sua página no Spotify para notar um caos desordenado de gravações e reedições… Pena, contudo, que salvo o texto de abertura, o booklet reproduza apenas os textos dos discos originais (sem deixar evidente que o faz), perdendo uma oportunidade para registar assim um ensaio biográfico e musical sobre uma das vozes mais invulgares que os discos deram a escutar nos anos 50.

“The Quintessence”, de Yma Sumac, é uma caixa de 3CD disponível em edição pela Cherry Red.

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