Uma reedição para recuperar um álbum clássico da história da 4AD

Lançado em fevereiro e 1990, o álbum de estreia dos Pale Saints regressa numa edição especial com som remasterizado, juntando ainda maquetes da época e a sessão que então registaram para John Peel na BBC. Texto: Nuno Galopim

Quantas histórias não começaram com uma maquete enviada para uma editora?… Era assim antes da Internet. E foi assim, com uma maquete, que o som de uma banda formada em 1987 em Leeds chegou aos escritórios da 4AD. Ivo Watts Russel, um dos fundadores da editora, e por esses dias ainda o firme timoneiro dos rumos da música ali lançada em disco, gostou do que ouviu. E gostou tanto que fez questão de ir ver ai vivo a banda responsável pela maquete mal passasse por Londres. Assim foi e, de uma assentada, juntou dois nomes ao catálogo da editora já que, além da banda que o motivara a ir ver o concerto, assinou também a banda que fez a primeira parte. Os primeiros chamavam-se Pale Saints, eram então um trio e pouco depois estreavam-se no catálogo da 4AD com um EP que tinha como faixa de abertura Sight Of You, a canção que mais entusiasmara Ivo Watts Russel. É verdade sim, o editor “tinha bom ouvido”. E além dos Pale Saints juntou também à 4AD os Lush, banda londrina igualmente nascida em 1987 e da qual a vocalista original se juntaria aos Pale Saints em finais de 1990.

Juntas as duas bandas fizeram alinhar a 4AD entre a frente mais ativa e consequente de um grupo de novas bandas (então designadas habitualmente na imprensa musical como ‘shoegazers’ pelo modo como mais facilmente dirigiam o olhar para o chão (e os sapatos) do que para as plateias em sua frente). E ao álbum The Comforts Of Madness, o primeiro dos Pale Saints, cabe mesmo um lugar entre a galeria dos melhores discos que surgiram desse mesmo grupo de bandas (entre as quais estão nomes fundadores como os The Jesus & Mary Chain ou My Bloody Valentine e, depois, uns Ride, Slowdive ou Chapterhouse).

The Comforts Of Madness foi editado em fevereiro de 1990, portanto ainda nos tempos em que os Pale Saints eram um trio. Mas em tudo o disco traduz uma visão que junta o poder visual e narrativo das palavras (e Sight of You, recuperada para o álbum, é disso um bom exemplo) a uma música que cruza heranças indie pop, ecos do psicadelismo e de ocasionais memórias folk, juntando ainda eletricidade a rodos, estabelecendo-se depois um contraste através da voz frágil, de desenho onírico, de Ian Masters, com ele surgindo logo ali uma das marcas da assinatura dos Pale Saints na etapa (até 1992), em que assegurou os lugares de vocalista e baixista na formação da banda, gravando por isso ainda In Ribbons (de 1992), estando já ausente em Slow Buildings (1994).

A assinalar os 30 anos sobre o lançamento do álbum que abriu (da melhor forma) a segunda década de vida da 4AD Records, eis que surge uma edição especial de The Comforts Of Madness que junta ao alinhamento original (devidamente remasterizado, como o título desta edição deixa claro) um segundo disco com a sessão que por aqueles dias gravaram para John Peel na BBC e ainda as maquetes registadas no Woodhouse Studio na etapa de preparação deste disco). Uma boa portunidade para relembrar uma das mais interessantes frentes de trabalho da 4AD nesta etapa da sua atividade, muitas vezes ofuscada pelos feitos das bandas que sugeriram a assinatura de “marca” da editora nos oitentas e a vaga indie rock americana que chegou depois. O departamento da memória entra bem em 2020, portanto.


The Comforts Of Madness – 30th Aniversary Remaster, está disponível em 2LP, 2CD e nas plataformas digitais numa edição da 4AD

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