Olhares, memórias e reflexões sobre meio século de música no Porto

Depois da exposição “Musonautas, Visões & Avarias” surge agora um livro que junta imagens dos objetos e documentos ali mostrados com textos que ajudam a fazer um retrato da vida musical portuense entre 1960 e 2010. Texto: Nuno Galopim

Tudo começou numa exposição. E a ideia era a de ali se retratar a história de meio século de música no Porto. Foram definidos critérios e, com eles, caminhos a seguir e espaços a abordar. Musonautas, Visões & Avarias, assim se chamou. E no texto que agora abre o livro em que fixa a memória dessa exposição, Paulo Vinhas explica que foram valorizados “os pioneiros, aqueles que privilegiaram a imaginação em vez da repetição de fórmulas, os que expandiram as experiências musicais e ampliaram a perceção dos seus ouvintes, os que em passo firme ousaram sair da zona de conforto para se envolverem nas lutas pela liberdade e demandas socias, os que criativamente evocaram e homenagearam tradições”. E assim a exposição, que esteve patente na Galeria Municipal do Porto, “traçou os momentos marcantes de cinco notáveis décadas e inventariou uma memória musical diversificada, revelando documentos e objetos raramente exibidos – manuscritos e partituras originais, capas de discos, cartazes, folhetos, publicações, fotografias, correspondência”, acrescenta ainda o curador da exposição no texto de apresentação a que chamou “Das tripas coração”.

         Agora Musonautas, Visões & Avarias / 1960-2010, 5 Décadas de Inquietação Musical no Porto é um livro com mais de 300 páginas que não só fixa a memórias desses objetos e documentos apresentados na exposição – há uma impressionante coleção de capas de discos perto do fim do livro – como às imagens junta uma série de ensaios que servem para construir uma visão (em muitos casos vivida no tempo e no espaço) de todo o quadro de memórias que aqui convergem. Viriato Teles entrevista Avelino Tavares, o criador do Mundo da Canção. Mais adiante José Manuel Lopes Cordeiro faz um retrato do mapa de publicações que fez do Porto o berço de um novo jornalismo musical em Portugal. José Luís Borges Coelho lembra compositores e visionários que levaram a música exploratória a novos desafios. Rui Pereira fala sobre José Mário Branco e Sérgio Godinho. João Carlos Callixto evoca os primeiros paços do rock nascido no Porto (entre 1960 e 1979). Luís Freixo conta, depois, a história da música que ali nasceu nos anos 80. Pedro Quintela e Paula Guerra fazem um retrato do punk, pós-punk e outras expressões de culturas alternativas. Ricardo Alexandre acrescenta o contributo da rádio a esta narrativa e as bandas novas que por ali foram reveladas. Inês Nadais faz percursos por nomes e lugares dos anos 90. Marco Ferreira (Keso) lembra o hip hop. Ainda Castro junta ainda mais nomes e caminha rumo a tempos mais presentes. Regina Guimarães aborda algumas figuras com rara visão na história musical do Porto (de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua a Manel Cruz). Rui Reininho junta ainda memórias pessoais. Anselmo Canha evoca o Centro Comercial Stop. E Rodrigo Affreixo junta ainda uma (bem arrumada) visão sobre os espaços noturnos e o modo como a música do Porto com eles se relacionou.

Há omissões (facto o que os critérios da curadoria explicam e contra isso, neste caso, exposição e livro, nada a apontar). Musonautas, Visões & Avarias / 1960-2010, 5 Décadas de Inquietação Musical no Porto é um belo conjunto de olhares – com um determinado prisma e óticas – sobre uma realidade. É um conjunto de visões sobre a música no Porto. E há aqui muitos retratos, muitas realidades, muitas memórias (escritas e visuais). Mas tudo parte de uma exposição, com um conceito e os seus limites. É um bom ponto de partida que, agora, pode justificar a criação de uma sistematização mais alargada (e completa) das músicas do Porto.

PS. Lisboa, e outras cidades e comunidades: do que estão à espera?

Musonautas, Visões & Avarias / 1960-2010, 5 Décadas de Inquietação Musical no Porto” é uma publicação (a cores) de 336 páginas, numa edição da Galeria Municipal do Porto. O livro é vendido com um CD como extra. E está disponível na Galeria Municipal do Porto.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.