Wim Mertens “Maximizing The Audience” (1984)

Estreou-se em 1980 e editou alguns dos seus primeiros discos com os Soft Veredict. Lançado em 1985 o álbum duplo “Maximizing The Audience” fixou definitivamente os caminhos de uma linguagem própria e deu-lhe confiança para começar a assinar com o seu nome. Texto: Nuno Galopim

O belga Wim Mertens (n. 1953) tinha já alguns anos de experiência a trabalhar na rádio quando, em 1980, apresentou For Amusement Only, um primeiro disco no qual lançava primeiras notas sobre uma demanda pessoal: a de fazer uma música que não se insvcrevesse em nenhuma família ou movimento, que fosse coisa do presente (e não revisitação de formas de outros tempos) e que pudesse falar por si mesma, ou seja, que não implicasse a criação de um discurso intelectual com a necessidade de justificar, localizar ou até mesmo explicar.

Convém notar aqui que a procura desse desafio (ou dos caminhos que pudesse lançar) não nasceu de mera intuição. Além da formação em ciências políticas Wim Mertens tinha estudado música nos anos 70. E para procurar o seu lugar nessa história maior sentiu que tinha de olhar primeiro ao seu redor e entender o que estava a acontecer. E por isso foi aos Estados Unidos. E, ao mesmo tempo que ia apresentando as suas primeiras composições em disco, escreveu um livro que se tornaria referência: American Minimal Music. Da reflexão sobre o minimalismo americano e o pensamento filosófico que associou às suas manifestações tirou certamente conclusões que, se por um lado se refletiram na presença de estruturas repetitivas em alguma da sua música, por outro deixaram claras marcas capazes de o distinguir quer dos compositores americanos a que ali se referia como do próprio olhar que o britânico Michael Nyman então começava igualmente a desenhar em terreno também muito particular.

Se o álbum For Amusement Only, todo ele feito com manipulação de sons de pinball machines, coube a alguns dos discos seguintes, sobretudo Vergessen (1983) e Struggle For Pleasure (1983) não só a afirmação já clara de sinais de identidade como a criação de um público, curiosamente cativando mais atenções junto dos seguidores das músicas “alternativas” do que dos que mais frequentemente escutariam repertório clássico.

Editado em 1985 o álbum (duplo) Maximizing The Audience representaria um episódio determinante na obra de Wim Mertens em várias frentes. Não só é um disco cujas várias peças (quatro delas longas e uma curta) lançam pistas entre si e abrem caminhos a explorações futuras, como representa um momento em que a voz assume um papel de maior protagonismo no quadro da escrita do compositor (nem sempre sendo ele aqui quem canta), isto sem esquecer uma questão de comunicação fulcral. É que até aí a música de Wim Mertens tinha surgido através dos Soft Veredict, um coletivo de formação variável que se moldava para interpretar ao vivo ou gravar em estúdio as várias obras do compositor. Maximizing The Audience correspondeu ao instante em que o nome de Mertens ganhou visibilidade nas capas dos discos, para já como autor, sendo igualmente referido o grupo como intérpretes da sua música. Daí em diante não só seria apenas o nome de Mertens a surgir como futuras prensagens de títulos anteriores trocaram a presença dos Soft Veredict pelo nome do compositor.

A música aqui gravada foi usada numa encenação de uma peça do belga Jan Fabre, tendo duas das peças (Lir e The Fosse) sido editadas num EP diretamente associado a essa produção.  O álbum é claramente marcado pelo interesse de Mertens por estruturas repetitivas, embora explorando manifestações e destinos distintos para as várias ideias, quer nas cores instrumentais usadas quer no modo como, em algumas das peças, a voz abre outra frente de libertação e procura.

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