Opinião: a "biblioteca" de memórias audiovisuais dos Radiohead é exemplo a seguir

A mudança em curso de paradigmas no mundo da música faz com que a própria maneira de gerir as memórias (e os catálogos) possam ser alvo de um repensar de estratégias. Não é inédita a criação de um arquivo online. Neil Young teve aí um papel relevante e visionário, disponibilizando conteúdos bem para lá do que era conhecido e estava editado, chamando assim a si mesmo o papel de guardião e divulgador da sua música e das suas ideias. Eis que couve agora aos Radiohead fazer algo semelhante, disponibilizando online um arquivo que cobre o arco de tempo da sua carreira, dando-lhe o nome (bem convidativo e cheio de boas referências históricas) de Radiohead Public Library.

Acessível através do site oficial do grupo ou diretamente por aqui, esta “biblioteca” de memórias tanto guarda os álbuns editados (sugerindo ligações às plataformas de streaming onde os podemos escutar) como a eles junta depois uma multidão de complementos que passa pelos singles e EP, telediscos, artwork, gravações ao vivo e algum material documental. Isto sem esquecer T-shirts, que cada um pode depois comprar através de link. Ou seja, há um modelo de negócio associado a esta ideia, e nada contra.

O arquivo é vasto, está segmentado para consulta por “eras” definidas pelo álbum a que as memórias estão associadas. E entre os mergulhos que podemos ali fazer encontramos ora registos de atuações ao vivo (algumas cheias de surpresas, como por exemplo uma versão de Ceremony dos New Order) ora documentos que chegaram até a ter edição comercial mas agora estão aqui reunidos (como o documentário Meeting People Is Easy, que Grant Gee rodou por alturas do impacte global de OK Computer). Há gravações raras, material áudio e visual. E para sugerir caminhos entre o espólio, os próprios elementos dos Radiohead geraram já curadorias que propõem visitas ao material que ali juntaram.

Há algo semelhante ao que Neil Young criou, vincando as diferenças que a identidade dos Radiohead naturalmente implica. E, tal como sucedeu com a “bootleg series” de Bob Dylan, há um chamar a si mesmos da gestão das memórias como que sugerindo ao mundo: querem ver quem somos e o que antes fizemos? Então não andem aí em busca de gravações com qualidade duvidosa… Procurem aqui.

Nada disto impedirá certamente a possível criação de novos objetos físicos capazes de fixar estas (e eventualmente mais) memórias. De resto, em ano que vai assinalar a passagem de 20 anos sobre a edição de Kid A, não seria de espantar a criação de uma edição especial do álbum ao jeito do que fizeram com OK Computer OKNOTOK 1997 2017. Ou até mesmo numa edição em 2LP juntando Amnesiac, assumindo definitivamente num registo dois em um o díptico que abriu caminho a novas possibilidades na história dos Radiohead.

A ideia naturalmente tem sabor a ementa farta para artistas que, como os Radiohead, têm já uma obra com alguma expressão em tempo e volume de trabalho. E por isso mesmo não era má ideia que nomes ainda ativos, como uns U2, Depeche Mode ou Duran Duran, em modo de assinalar quatro décadas de trabalho, pensassem algo neste plano. O mesmo sendo válido para arquivos igualmente apelativos como os de um David Bowie ou Prince. E, entre nós, que tal Amália e José Afonso? – Nuno Galopim

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.