Elton John, por ele mesmo e sem papas na língua

A autobiografia de Elton John é um saboroso relato confessional, frontal e (muito) bem humorado de uma carreira que aos discos e concertos juntou a fama, muitos amigos de renome, ativismo e um longo historial de excessos. Texto: Nuno Galopim

Tocaram à campainha. Elton John, que estava com John Lennon, com quem tinha acabado de dedicar uns momentos de atenção a umas linhas de coca, foi ver quem era… Era Andy Warhol… Em sussurro, Lennon pergunta a Elton se Warhol vem com a máquina fotográfica? Elton olha novamente e vê que sim… Então não abras, pede o ex-beatle, perguntando ao amigo se quer ser fotografado inesperadamente com provas a sair do nariz? E ficam em silêncio…

Numa outra ocasião a rainha mãe passou pela mansão onde o músico ainda hoje reside. A avó de Elton John morava também ali, mas numa casinha à parte, com espaço independente. Mesmo assim Elton John quis surpreender a avó e disse-lhe que tinha uma visita… Minutos depois a avó dava-lhe uma descompostura. Daquelas de avó… E dizia-lhe para nunca mais a chamar sem avisar do que se trata… Afinal tinha cumprimentado a rainha mãe de galochas e luvas de jardinagem…

Se a estas histórias juntarmos comentários carregados de sarcasmo sobre Bob Dylan (a quem numa festa em sua casa se ofereceu para lhe dar uma roupita menos desarranjada) ou Madonna, a memória da visita a um Freddie Mercury já muito doente, mas com quem discutem, tratando por “ela”, o último disco de Bowie, a histeria em volta da versão de Candle in The Wind que cantou no funeral da Princesa Diana ou a noite em que descobriu o “poder” de um vodka Martini com Simon Le Bon (dos Duran Duran), fica claro que as memórias que Elton John regista em Eu são fieis ao modo como sempre nos mostrou a sua vida… divertidas, sem medo e tudo menos discretas…

O livro, que teve como ghostwriter o jornalista Alex Petridis (do The Guardian) – e nota-se a qualidade de uma escrita de veterano no reino das palavras e narrativas – é um relato franco (por vezes até demasiado franco) e despudorado de uma vida que conheceu cedo o sucesso e, depois, o excesso. A vida pessoal e familiar é exposta com frontalidade confessional, reconhecendo aqui e ali dores e erros cometidos. E se por um lado, tal como Marianne Faithfull fez na sua autobiografia publicada nos anos 90, arruma aqui definitivamente as histórias de sexo, drogas e rock’n’roll, por outro Elton John vinca (justificadamente) a sua faceta ativista, sobretudo numa empenhada luta contra a sida e pelos direitos das pessoas LGBT+.

Apesar das muitas cores que as histórias pessoais e familiares de Elton John juntam a esta autobiografia, é claro que é na música que está a medula da narrativa. Das primeiras manifestações de interesse pela música à criação dos seus vários discos, não esquecendo uma paixão melómana (e de carteira cheia) pela compra de discos, Eu propõe uma caminhada cronologicamente arrumada no tempo que podemos acompanhar recordando álbuns e canções. E aqui o próprio Elton John é tão capaz de reconhecer a excelência (que não resultou em vendas) de um álbum magnífico como foi Songs From The West Coast (2001), assim como os tropeções maiores (como o álbum de 1979 Victim of Love)… Ou até mesmo confessar como se relacionava com o facto de ter criado uma canção sobre um animal que sofria de flatulência (quem não perceber esta última reveja o filme O Rei Leão).

Não é preciso ser admirador da música para saborear um texto tão vivo, cheio de episódios e figuras conhecidas, e capaz de um registo de autocrítica que mais facilmente resvala para a autoironia do que para a terapia exposta de males de alma. De resto, e apesar das memórias de momentos menos felizes e de lágrimas a rodos (como ele mesmo recorda que aconteceu ao ver o filme Billy Eliott e reconhecer demasiadas afinidades com a sua infância ou ao lembrar o desaparecimento de grandes amigos), Eu é a história de um homem feliz. De resto, o tom que há alguns meses observámos no filme Rocketman – sem dúvida o melhor biopic sobre um músico que o cinema nos deu a ver nos últimos anos – tem claras afinidades com o mood deste livro. Afinal o “eu” é o mesmo…

PS. Perante um livro tão interessante é pena que uma edição portuguesa não tenha sabido juntar a uma tradução competente um trabalho de revisão por alguém que saiba da matéria. Nos dias de juventude de Elton John o NME era um jornal e não uma “revista” (página 12). Os “singles de 12 polegadas” (página 173) na verdade chamam-se “máxi-singles” (em inglês lá deveria estar certamente a referência a “12 inch singles”…)… São poucos os tropeções. Muito poucos mesmo. E não são culpa de quem traduz. Não é um erro, é um detalhe técnico. Isto não é ser picuinhas. É ser rigoroso. A ideia de revisão parece não merecer por vezes, por parte dos editores, a devida atenção. Atitude a… rever, portanto.

“Eu”, de Elton John, é um livro de 359 páginas, publicado em Portugal pela Porto Editora.

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