Depois da maratona, o que vale a pena da colheita de San Remo é esta banda

São de Turim e têm vindo a trilhar caminho numa abordagem pop a ecos da folk. Chamam-se Eugenio in Via di Gioia, têm já três álbuns editados, e em San Remo apresentaram “Tsunami”, uma canção que vale a pena reter entre a colheita pop global de 2020. Texto: Nuno Galopim

Apesar de um evidente predomínio de linguagens old school, o Festival de San Remo tem procurado chamar a si alguma diversidade, propondo a cada ano alguns (não muitos) exemplos do que vai acontecendo em frentes menos dadas ao mais do mesmo na canção popular italiana. As colheitas mais suculentas não são fartas em quantidade, mas a cada ano passam por ali um ou dois casos que teriam cabimento em circuitos para lá das fronteiras italianas… E num tempo em que outras vozes estão a avisar que a era “blockbuster” da língua inglesa já viveu dias mais impositivos, então vale a pena escutar o que vem de Itália. Até porque há mais e muito melhor) na música pop italiana do que o mais-do-mesmo que carreiras internacionais aborrecidas como as de um Eros Ramazotti, Laura Pausini, Zucchero ou Jovanotti nos mostraram nas últimas décadas. E esses são os nomes em que as grandes editoras investiram para levar a música de Itália além-fronteiras. Pois se queremos saber mais, temos de ir procurar… E, à falta de janelas (ou pelo mero desconhecimento perante as que possam existir) nada como respirar fundo e viver a verdadeira maratona que San Remo nos propõe a cada ano… Porque, no fim das infindáveis horas de emissão, acabamos sempre com mais um ou dois nomes que vale a pena, depois, continuar a descobrir. Há dois anos aconteceu com a irreverência indie pop dos Lo Stato Sociale (que acabaram em segundo lugar e tinham em Una Vita en Vacanza uma canção desconcertante e em tudo mais vibrante do que a que Ermal Meta e Fabrizio Moro depois apresentaram em Lisboa). Há um ano a votação incomodou o (então) ministro Salvini, mas elegeu como justo vencedor Mahmood com Soldi, de quem vale a pena escutar o álbum Giuventù Bruciata, editado em 2019. A colheita de 2020 revelou por um lado em Elodie sinais de uma possível carreira pop (numa canção que envolvia Mahmood na equipa criativa) e colocou duas bandas na lista dos nomes a seguir com atenção. Uma delas, os Pinguini Tattici Nucleari, chegaram ao trio final da competição (ficaram em terceiro lugar) com uma canção que nos fala de alguém que, num mundo feito de John(s) e de Paul(s) se sente como um Ringo Starr… Mas melhor ainda foi a banda que, mesmo eliminada num duelo da secção Nuove Proposte (onde habitualmente sopram mais e melhores ventos de mudança por ali), acabou por vencer aí o Prémio da Crítica. Falemos então dos Eugenio in Via di Gioia.

Surgiram em Turim em 2012 juntando quatro músicos: Eugenio Cesaro, Emanuele Via, Paolo Di Gioia e Lorenzo Federici. Dos três primeiros saiu o nome da banda. Do quarto, o título do álbum de estreia, que editaram em 2014. Por esses dias eram bem evidentes as suas raízes folk, apresentando a música uma inquietude no confronto desses ecos com o tempo presente como os que entre nós, por exemplo, sentimos (com as devidas diferenças) na música de bandas como os Sitiados ou os Virgem Suta. Em 2017 o álbum Tutti Su Per Terra mostrou sinais de evolução num caminho de continuidade, sentindo-se sinais mais evidentes de alargamento de horizontes no mais recente Natura Viva, de 2019, que assinalou, depois de uma etapa entre autoedições e editoras independentes, um “salto” para o catálogo de uma multinacional. Pelas canções passa desde sempre uma atenção pelo mundo ao seu redor que retratam através de frequente recurso ao humor e à sátira. Hábitos da sociedade e a própria vida política italiana, não escapam a este quarteto… Uma atitude sempre bem-humorada é, de resto, uma das características das linguagens musicais e visuais de uma banda que sabe partir de raízes “clássicas” da canção popular para se relacionar com o presente com uma dose quanto baste de irreverência pop.

Tsunami, a canção que levaram a San Remo, surgiu como single em novembro de 2019 e passou pelo concurso de pré-seleção que lhes deu um lugar na secção Nuove Proposte da edição deste ano do festival que inspirou, nos anos 50, a fundação do próprio Festival da Eurovisão. A “embaixada” que os levou de Turin e San Remo foi um exemplo da atitude “verde” que o grupo tem defendido (tanto entre canções como nas entrevistas). O que aconteceu então? É que grupo foi até San Remo (perto da fronteira com a França) de bicicleta, acompanhado por admiradores que a eles se juntaram na viagem.

Tal como o fizeram os Lo Stato Sociale em 2018, os Eugenio in Via di Gioia aproveitaram a passagem por San Remo (que só em Itália costuma ter audiências diárias entre os 12 e 13 milhões de espectadores) para apresentar um “best of” que junta temas dos seus três álbuns, em singles e EP e algumas novidades. Chamaram-lhe Tsunami (Forse vi ricorderete di noi per canzoni come) e é um bom cartão de visita para a descoberta de uma obra que inclui já três álbuns (todos disponíveis em CD, estando o segundo igualmente editado em LP) e alguns singles (estes sobretudo em edições digitais). Mas, seja em que formato, são uma boa proposta de descoberta aquilo a que os italianos chamam nu-folk. E Tsunami mostra que a coisa pode ir bem mais longe…

“Tsunami (Forse vi ricorderete di noi per canzoni come)”, dos Eugenio in Via di Gioia está disponível em CD e nas plataformas digitais, numa edição da Universal Music Italia

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