Está na hora de reencontrar a etapa menos conhecida da obra dos Associates

Originalmente editado em 1985, o sucessor do aclamado “Sulk” não repetiu nem o sucesso nem os elogios que o grupo conhecera nos primeiros anos. Concebido quase como um projeto a solo de Billy McKenzie, “Perhaps”, não deixou de explorar novas visões pop para uma voz de grande teatralidade. Texto: Nuno Galopim

Quando, em finais de 1982, o Melody Maker escolhe o álbum Sulk como disco do ano, os Associates atingiam um patamar de reconhecimento que o seu percurso de facto vinha a preparar desde a sua estreia em disco, em 1979, ao som de uma versão de Boys Keep Swinging de David Bowie. Mal imaginaria muita gente que, por essa altura, a tensão interna entre a dupla levaria a uma saída de cena de Alan Rankine, deixando Billy McKenzie com duas possibilidades de futuro: a de passar a gravar a solo ou a de manter viva a banda, sendo que na verdade seria inevitável que, a menos que envolvesse outro espírito criativo maior, a ele caberiam todas as decisões de fundo. Na verdade Billy McKenzie já tinha editado em 1982 o single Ice Cream Factory a solo, embora o tivesse assinado como McKenzie Sings Orbidöig… Convocou outros músicos e gravou material para um álbum que propôs à editora lançar como Associates… Mas o responsável pela condução dos destinos da Warner no Reino Unido, que tinha um projeto de crescimento nas vendas e acabara de assinar Howard Jones como exemplo do tipo de artista e som pop que procurava, recusou as gravações. E esse “não” encetou um período de dois anos de trabalho que envolveu vários produtores – entre os quais Martin Rushent e Martin Ware, figuras ligadas aos Human League e Heaven 17 – e viu um corpo de novas canções a ganhar forma lentamente, somando gastos que atingiram um quarto de milhão de libras… Quando, em 1985, o sucessor de Sulk chega às lojas, carrega um fardo de gastos difícil de suplantar nas vendas, a menos que um êxito maior dali nascesse… Assim não aconteceu, apesar do relativo sucesso – alcançou o número 23 na tabela de vendas, onde se manteve por sete semanas. O percurso posterior dos Associates incluiria ainda o álbum Wild And Lonely em 1990, surgindo apenas em 2002 The Glamour Chase, gravado em 1989 mas então guardado na gaveta. Billy McKenzie gravaria ainda um álbum a solo em 1992, seguindo-se o silêncio, a depressão e uma morte por suicídio em 1997. Tinha apenas 39 anos.

         Os Associates não serão o segredo mais bem guardado da história da pop dos anos 80. Os singles de sucesso lançados entre 1980 e 1982 e o impacte da compilação Forth Drawer Down (1981) e, sobretudo, do álbum Sulk, garantiram ao duo um lugar em qualquer discurso que envolva o pós-punk e a aurora da pop eletrónica no Reino Unido… Mas a verdade é que é quase desconhecido, para além do núcleo de admiradores do grupo, o percurso que Billy McKenzie talhou quando, depois de Sulk, conduziu à sua maneira a visão pop dos Associates. Depois da sua morte surgiram várias incursões pelos arquivos do grupo, desde Double Hipness (2000) a dois volumes de sessões gravadas para a BBC, juntando o lançamento do já acima referido The Glamour Chase. Em 2016 os álbuns The Affectionate Punch (1980), Fourth Drawer Down e Sulk foram reeditados em versões com um CD extra de material de arquivo. Agora a Cherry Red faz o mesmo com Perhaps, o disco de 1985 que abre a etapa menos vezes evocada da carreira dos Associates…

         Talvez…. Bom, talvez não seja má ideia escutar (ou reencontrar) o disco para reconhecer que houve vida (criativa) bem interessante para Billy McKenzie depois de Sulk. E Perhaps mostra uma coleção de canções que, de um modo menos anguloso do que havia experimentado entre 1979 e 1982, continuou a experimentar visões grandiosas e surpreendentes para a canção pop. A abordagem vocal de teatralidade operática, que representou para a pop dos anos 80 a mesma sensação deliciosamente desconcertante que o canto de Russel Mael tinha levado às invenções pop/rock dos Sparks nos anos 70 (e depois) tinha agora em seu redor cenografias não menos grandiosas mas mais polidas, por vezes quase sinfonistas (não confundir aqui a coisa com rock sinfónico). O arranjo mais classicista do dramático e intenso Breakfast abre, de resto, novos caminhos (que Billy McKenzie exploraria a diante quer em canções dos Associates quer a solo).

O alinhamento de Perhaps, no qual surgem os singles Waiting For The Love Boat, Those First Impressions e Breakfast, mas que inclui ainda pérolas como Shampout, Helicopter Helicopter ou The Best of You, acrescenta ao percurso inicial dos Associates uma nova etapa de procura que aqui assimila em várias frentes algumas características, nada de dieta, de opções de produção que estavam à mercê dos músicos em meados dos anos 80.

         A nova edição junta ao alinhamento original do álbum quatro versões instrumentais de canções do LP que então surgiram apenas na edição em cassete, e acrescenta um segundo CD no qual estão arrumadas as versões curtas e longas então editadas nos singles e máxis, não esquecendo os lados B e juntando ainda a esta família de memórias o single Take Me To The Girl, uma espécie de elo perdido entre Perhaps e The Glamour Chase, não incluído no álbum, embora editado ainda em 1985 mas sem o mesmo impacte de Waiting For The Love Boat, Those First Impressions e Breakfast. O booklet inclui um texto que narra a história turbulenta deste álbum (e daqueles dias na vida de Billy McKenzie) e junta ainda uma discografia detalhada dos Associates.

“Perhaps + Bonus Tracks”, dos Associates, está disponível em formato de 2CD numa edição da Cherry Red

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