Sister Ray (Londres)

Uma das raras sobreviventes entre as lojas de discos londrinas dos tempos do vinil, a Sister Ray mora ainda hoje na mesma rua (a Berwick Street), embora num outro espaço. A diversidade de oferta mantém-se e o vinil surge entre discos usados (a maioria) e novas edições. Texto: Nuno Galopim

A Sister Ray é uma das minhas mais antigas (e ainda presentes) memórias de muitas idas a Londres… E devo tê-la descoberto ali entre finais dos anos 80 ou início dos 90. E foi precisamente em 1989 que Neil Brown, que costumava ter até aí uma banca de venda de discos em Camden, resolveu concentrar o seu negócio no número 94 da sempre movimentada Berwick Street, que cruza o Soho e que é célebre pelo mercado de rua que acolhe durante o dia e pelos néons das sex shops e peep shows que ali havia de noite (e que ficaram imortalizados na capa do álbum de estreia dos Soft Cell mas que hoje já por ali não se encontram). Chamou-lhe Sister Ray. E basta conhecer a obra dos Velvet Underground para saber de onde veio o nome.

Essa primeira loja ali ficou anos a fio. Era pequena, mas lá dentro estávamos rodeados de discos devidamente arrumados por géneros. E para alguns singles era mesmo preciso pedir lotes e caixas a quem estivesse ao balcão. Muitos escudos (e mais tarde euros) ali deixei… A Berwick Street, de resto, era a “melhor” armadilha que Londres então tinha para quem gostava de discos. Além da Sister Ray (que hoje mora alguns números mais acima, para quem vai a caminho de Oxford Street) e da Rekless Records (também mais acima, no outro lado da rua), havia ali uma pequena multidão de lojas entretanto desaparecidas. Daddy Kool, Shades, Red, Tag, Black Dog, Ambient Soho, Black Market, Kubla, Liberty, Vinyl Junkies… Eram algumas delas. Hoje há ali mais cafés com design, gelatarias, restaurantes…

A loja sobreviveu e prosperou no número 94 até que, em 2003, até que o dono da Selectadisc (no número 34 da mesma rua) resolveu retirar-se. A Sister Ray aliou-se então à Rounder Records, de Brighton, e ficaram com o lugar… Foi uma expansão. A Selectadisc era bem maior e a “nova” Sister Ray passou a ter zonas mais desafogadas para CD (à entrada) e vinil. A “velha” Selectadisc ficou imortalizada na capa de What’s The Story (Morning Glory) dos Oasis. Basta olhar para o lado esquerdo da imagem… E se virarem depois o olhar para a direita encontrarão, mesmo em frente, o número 75, que então (em 1994) não imaginava ainda o que o futuro lhe guardava… Pois é aí que hoje mora a Sister Ray que, juntamente com a vizinha Reckless Records, faz o par de sobreviventes do mundo de lojas de discos nesta rua do Soho.

A expansão da Internet abriu uma crise tremenda entre o circuito das pequenas (e das grandes) lojas de discos na alvorada do milénio. Uma a uma fecharam, desapareceram… A Sister Ray resistiu. E tornou-se uma das vozes mais ativas no desenvolvimento de uma nova ideia: o Record Store Day. Mesmo assim a dimensão da loja no número 34 obrigou a um pensamento de mudança… Daí a mudança para a morada atual no número 75.

A atual Sister Ray é diferente da loja mais “quadrada” (na geometria) original mas consideravelmente mais pequena do que a que ocupou o espaço da antiga Selectadisc. Tem um piso térreo sobretudo dedicado aos CD em segunda mão, com uma seleção de novos lançamentos e reedições junto ao balcão (onde encontramos alguns livros sobre músicas e revistas, como a Mojo). As novas edições em vinil estão também ali e basta pedir ao balcão o que queremos levar para casa… Mas lá em baixo, numa arrumação que lembra os velhos tempos, encontramos o vinil usado que mais cativa os colecionadores que por ali passam.

A seleção continua aberta a várias frentes – salvo a clássica, apesar de abrir espaço a algumas edições de “vanguarda” do século XX – e tem representados os diversos formatos em vinil. Há boa oferta de bandas sonoras, jazz, soul e funk e ainda reggae (e música de origem jamaicana em geral), mas a maior parte das prateleiras dedicadas aos LP são claramente dominadas pelos universos pop/rock, aí tanto visitando os nomes “clássicos” como as frentes mais “indie” da coisa. Os singles de sete polegadas a 45 rotações moram agora numa ilha a meio do andar inferior. O melhor do que ali se encontra a 45 rpm leva-nos a espaços mais focados como punk, o universo da 2-Tone ou a northern soul.

Fruto da dinâmica que a loja desenvolveu nos últimos anos a Sister Ray tem hoje algumas edições exclusivas e um bom site para vendas online. Tem um cunho algo “generalista”, pelo que talvez não seja o destino ideal para buscas de detalhe de coleções mais especializadas. Mas é uma boa loja e capaz de servir muitos gostos e procuras. E, acima de tudo, é uma sobrevivente. Uma rara sobrevivente da multidão de lojas de discos que fizeram as histórias de outros tempos na vida musical de Londres.

Sister Ray, Berwick Street nº 75 (Londres – Soho)

A loja abre de segunda a sábado das 10.00 às 20.00 e, aos domingos, das 12.00 às 18.00.

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