Um livro para vincar o lugar de “Blue Lines” na história da música popular

Editado em 1991, o álbum de estreia dos Massive Attack é o centro das atenções do volume 140 da série 33 1/3 da Bloomsbury. O texto é assinado por Ian Bourland, um professor de história da arte. Texto: Nuno Galopim

A grande coleção de pequenos livros que a Bloomsbury tem dedicado a álbuns marcantes da história da música popular já nos deu a ler um pouco de tudo, desde ensaios bem documentados sobre os discos, os contextos e as figuras envolvidas até devaneios mais centrados no autor do texto do que na matéria prima sobre a qual se deveriam antes debruçar… Afinal, nada mais senão expressões habituais de caminhos possíveis no próprio jornalismo musical… Felizmente o volume dedicado a Blue Lines, dos Massive Attack, cabe no departamento do primeiro caminho acima citado. Assinado por Ian Bourland, que é professor de História da Arte na Universidade de Georgetown (EUA) o livro procura, em 151 páginas, explicar as muitas rotas de confluência que fizeram deste disco de 1991 não apenas um clássico do seu tempo mas também um dos mais influentes álbuns dos anos 90.

         A história começa (inevitavelmente) em Bristol, procurando entre ecos vivenciais e culturais da cidade encontrar os primeiros lugares e estímulos que moldaram os músicos na raiz dos Massive Attack. Se o bar Dugout é um ponto de partida, na verdade a progressiva soma de experiências e contactos que Ian Bourland vai juntando mostra como, afinal, a história dos Massive Attack, de Blue Lines e da própria música de Bristol entre finais dos anos 80 e início dos anos 90 não será a narrativa tão simplista que tantas vezes foi usada para arrumar esta família de acontecimentos. A própria criação do termo trip hop e uma reflexão sobre a sua real expressão merece inclusivamente todo um capítulo. O ceticismo com que o autor encara a noção de “som de Bristol” (e tem razão para ser cético) concede pouco espaço a uma mais detalhada exploração do impacte que o disco teve no mundo ao seu redor. Já a relação entre os nomes de Del Naja e Banksy (coisa suculenta) merecem um capítulo inteiro.

         A história política e social da cidade, assim como os fluxos de descoberta de novos sons (e aqui vamos desde ecos da cultura caribenha à assimilação do hip hop que chegava dos EUA) são peças determinantes no cenário que assiste, primeiro, à afirmação de ideias através do coletivo Wild Bunch, que desde cedo tinha Grant Marshall como um dos DJ principais, chamando a si o jovem artista de graffiti Robert Del Naja e, logo depois, figuras como Andrew Wolves e Tricky. Os três primeiros formariam os Massive Attack em finais dos anos 80, estando Tricky então na sua órbita, acabando por ser uma das vozes chamadas às suas canções, juntamente com as de Shara Nelson ou o veterano Horace Andy. O livro cruza estes nomes com as histórias da criação das canções e dos ambientes em que foram gravadas. E aqui há outros nomes mais com protagonismo reconhecido, desde Neneh Cherry a Cameron McVey, figuras de proa em volta da criação de Raw Like Sushi, disco de estreia da cantora que nasceu de ambientes partilhados com os que então estavam a desenhar a génese de Blue Lines.

         Para além da narrativa e dos contextos, o livro apresenta ainda Blue Lines como sendo um álbum que ajudou a definir uma noção do que poderia ser o hip hop britânico, somando peças e experiências que ali abriram caminhos para além das referências escutadas em discos que chegavam do outro lado do oceano. Ao mesmo tempo o livro coloca este álbum como um exemplo de uma ideia que, mesmo nascida de caminhos da música de dança, promovia outro tipo de audição. Ou, como o próprio Grant Marshall uma vez explicou: era uma música que punha o cérebro a dançar e não os pés.

“Blue Lines”, de Ian Bourland, é o volume 140 da coleção 33 1/3 da Bloomsbury. A edição é de capa mole, com 151 páginas.

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