O ‘space disco’ ecologista que habita o ADN de Cerrone

Um dos mais importantes pioneiros do ‘space’ disco, Cerrone apresenta no novo ‘DNA’ o seu álbum mais interessante em muitos anos. Há aqui evidentes heranças das eletrónicas dos anos 70, mas uma agenda ecologista que, no presente, encara o futuro. Texto: Nuno Galopim

 

Talvez não tenha hoje a dimensão de reconhecimento de Giorgio Moroder, mas entre a primeira geração de visionários que levaram as eletrónicas às pistas de dança, a história guarda com boas memórias os feitos de Jean-Marc Cerrone, um francês, filho de emigrantes italianos, que lançou, ainda nos anos 70, uma série de propostas que mudaram os rumos do disco sound e teriam impacte na própria pop eletrónica que começaria a ganhar expressão global pouco depois. Tinha já dado primeiros passos numa banda (Kongas, com quem gravou dois álbuns) e em colaborações quando, em 1976, apresentou Love In C Minor, um tema disco “clássico” que cativava sobretudo atenções pela extensão da canção, que ultrapassava os 16 minutos de duração que, por mero acaso (na verdade um engano de correios) acabou por chegar aos EUA na forma de uma caixa de discos que iriam parar às mãos de vários DJ. Foi, contudo, um ano depois, em Supernature (tema com letra de uma então ainda desconhecida Lene Lovich), que Cerrone juntou eletrónicas à sua visão disco futurista. O disco não só obteve vendas no patamar dos oito milhões como juntou-se a outras propostas daquele temo (algumas outras igualmente nascidas em França) para definir uma visão com sabor a ficção-científica que acabaria conhecida como space disco. Na verdade vale a pena lembrar que 1977, o ano de Supernature, é o mesmo de Star Wars e de Encontros Imediatos de Terceiro Grau.

Entre finais dos anos 70 e os inícios dos 80 o nome de Cerrone surgiu em vários episódios “noturnos” com sucesso. E depois, mesmo sem o mesmo volume de vendas, o seu nome surgiu associado a vozes como as de Laura Braningan, Nile Rodgers ou Jocelyn Brown e, mais tarde, samples da sua música surgiram em discos dos Beastie Boys ou Avalanches e chegou até a chamar La Roux para consigo cantar o clássico Supernature. Os discos, em seu nome nunca deixaram de surgir, assim como atuações com algum impacte como, por exemplo, a que deu em Versalhes em 2005… Mas na verdade há muito que qualquer referência a Cerrone tinha sobretudo uma carga de passado. Aquela com que habitualmente referimos figuras marcantes de outros tempos e das quais há muito não sabemos o que de novo estão a fazer…

E é por isso que DNA, o seu álbum de 2020, tem um sabor especial. Substancialmente mais interessante do que o álbum Dèjá Vu, que em 2015 rompeu um silêncio de 23 anos para Giorgio Moroder, DNA é um disco que expressa marcas de identidade do nosso tempo (sobretudo a agenda ecologista que se nota nas palavras de um discurso da bióloga Jane Goodall que escutamos em The Impact) mas esteticamente estabelece pontes evidentes com os tempos de Supernature (e da aurora do space disco). Há aqui ecos evidentes de velhas afinidades com Jean Michel Jarre (nos discos de finais dos anos 70), Kraftwerk e até John Carpenter, num alinhamento com sabor retro que, contudo, não parece motivado por questões de nostalgia. DNA aborda o ADN de um autor. É fiel ao seu percurso e identidade. E, no fundo, retoma as visões de alguma preocupação que, com Lene Lovich, Cerrone tinha moldado ao jeito de uma ficção científica clássica, interessada em explorar caminhos futuro da política e da sociedade. E tudo isto sem nos impedir de dançar…

“DNA”, de Cerrone, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Because Music

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