Como uma cidade que parecia não ter amanhã sonhou um outro futuro

Há períodos que marcam culturalmente a histórias das cidades. E Sheffield, uma cidade industrial inglesa, viveu na segunda metade dos anos 70 uma movimentação na música que traduzia ecos da sua vida social e, sobretudo, procurava uma saída para o vazio que pairava sobre o futuro… Uma caixa de quatro CD conta agora como a música que ali nasceu partiu desse clima para inventar um outro futuro. Texto: Nuno Galopim

Há uma característica comum a muitas das bandas que, nascidas em Sheffield, sobretudo na segunda metade dos anos 70, acabaram por criar visões com sabor a amanhã numa cidade aparentemente sem futuro: não havia quem não sonhasse com caminhos possíveis de fuga ao que, aparentemente, se desenhava na frente de cada um como um destino inevitável numa cidade essencialmente industrial. Na verdade, esta visão sombria não nasceu nos anos 70, já que, anos antes, George Orwell havia descrito Sheffield como “a cidade mais feia do velho mundo”. Aquele era, como descreve o texto que abre o livro que acompanha a caixa de 4CD Dreams To Fill The Vacuum – The Sound of Sheffield 1977-1988, um lugar “que durante gerações tinha sacrificado a estética em busca de uma visão industrial” e que, “quando as fábricas começaram a fechar, deu por si em busca de uma saída”.

Não é segredo, porque a história os tornou referências, que de Sheffield nasceram, entre finais dos anos 70 e inícios dos 80, bandas como os Human League (e depois os Heaven 17, resultado de uma cisão interna), Cabaret Voltaire, ABC, Clock DVA, In The Nursery ou Danse Society, nomes visionários de uma geração que foi pioneira na assimilação das eletrónicas, algumas mergulhando em imaginários industriais mais intensos (e tensos), todas elas em busca da construção de um futuro (umas vezes mais luminoso, outras mais cético ou desencantado). Um pouco como se da herança dos sons metronómicos das fábricas, do bater do metal sobre o metal, brotasse uma lógica que, com a ajuda de novas ferramentas (e sob a descoberta de novas ideias que, entretanto, borbulhavam na Europa continental e a liberalização do preço dos sintetizadores já perto do fim da década), desenhasse assim um possível caminho de fuga. A tal saída…

É claro que nem todas as bandas nasciam com uma mesma orientação. E da mesma Sheffield que viu brotar estas carreiras surgiram, na mesma altura, nomes como os Pulp (aos quais muitos de nós só dariam atenção longos anos depois) ou Def Leppard (sim, eram um pouco diferentes dos vizinhos)… Long Blondes ou Arctic Monkeys, também de Sheffield, são já de uma outra geração…

Nem toda a música que surgiu em Sheffield traduzia um ADN industrial ou recorreu a ferramentas eletrónicas como voz protagonista da sua música. Mas essas são, mesmo assim, características que passam por algumas das bandas que então ali nasceram, algumas delas não tendo nunca chegado a gravar discos, outras tendo conhecido breves carreiras discográficas. Dreams To Fill The Vacuum – The Sound of Sheffield 1977-1988 é por isso um retrato de Shfeffield que junta ao que já conhecemos uma multidão de bandas e gravações que mostram que, de facto, a música foi espaço de sonho para encher o vácuo daqueles dias (Dreams To Fill The Vacuum é, de resto, o título de uma canção de 1981 dos I’m So Hollow aqui incluída).

O punk foi aqui o primeiro gatilho e a liberdade que sugeriu funcionou como rastilho para ideias, experiências, umas mais consequentes, outras nem por isso (como sempre). As memórias das visões lançadas pelos deuses do glam rock, sobretudo Bowie e Eno, ajudaram a juntar ousadias. E em terreno pós-punk as propostas multiplicaram-se. Havia fanzines atentas às movimentações (e chegaram a cativar atenções do NME). Tal como em Manchester ou Liverpool havia pequenos clubes onde todas as bandas se juntavam para se ver umas às outras. Só não houve em Sheffield uma Factory, pelo que a cada banda cabia o papel de as fazer notar por si… Os Artery (que chegaram a encantar John Peel e eram localmente vistos como os mais promissores de todos), tentaram dar o salto e mudaram-se para Londres por uns tempos, mas a coisa não correu tão bem como desejavam.

Dreams To Fill The Vacuum arruma cronologicamente as memórias que aqui convoca. O CD 1 guarda gravações de 1977 a 1981 (talvez as mais significativas e “diferentes”), incluindo contribuições dos Human League, I’m So Hollow (acima referidos), 2.3 ou Thompson Twins. O CD 2 junta memórias de 1981 e 1982, entre as quais estão canções dos Heaven 17, British Electric Foundation, Artery ou Clock DVA, Depois, há registos de 1982 a 1984 no CD 3 (com Pulp, Dabse Society ou In The Nursery, entre outros) e de 1984 a 1988 no CD 4, este último mostrando já sinais de menos marcas de identidade locais e uma mais clara afinidade com os tons então em voga na cena indie britânica. É um retrato considerável, mesmo assim com algumas ausências (nomeadamente os Comsat Angels ou até mesmo os Def Leppard, apesar de então estarem já numa outra galáxia). Ao todo estão aqui 84 canções, todas elas apresentadas no booklet por um texto, muitas vezes assinado por um elemento da própria banda. A esses textos juntam-se pequenos ensaios de figuras da história musical de Shfeffield de então, que juntam detalhes sobre o contexto social e cultural do qual estas canções nasceram.

Dreams To Fill The Vacuum é uma viagem no tempo, na linha que conduziu já outras caixas semelhantes editadas pela mesma Cherry Red, como Manchester North Of England – A Story Of Independent Music Greater Manchester 1977-1993, Revolutionary Spirit: The Sound of Liverpool 1976-1988 ou Big Gold Dreams: A Story of Scottish Independent Music 1977-1989. O modelo é cativante. E tem pernas para andar (mal a coisa possa continuar)…



“Dreams To Fill The Vacuum – The Sound of Sheffield 1977-1988” é uma caixa de 4CD editada pela Cherry Red.

E agora uma mão-cheia de memórias… Dos Human League, ABC, Heaven 17, In The Nursery, Thompson Twins, Danse Society, Clock DVA ou Pulp certamente já escutaram discos. Caso contrário não há nada como ir espreitar… Mas o maior prazer de caixas como Dreams To Fill The Vacuum – The Sound of Sheffield 1977-1988 é o da descoberta de nomes que ainda não nos tinham passado pela frente… Aqui ficam, por isso mesmo, cinco possíveis propostas de descoberta (ou redescoberta) entre o alinhamento de 84 canções de – The Sound of Sheffield 1977-1988…

Hobbies of Today “Metal Boys” (1979)

Do trio The Electric Set surgiu, em 1976, o quarteto Hobbies of Today, que se estrearam em 1977 com o single R.U.1.2., que chamou atenções pelo modo como criticava a assimilação do punk pela indústria musical. Com nova formação, ainda mais alargada, apresentaram em 1979 o single Metal Boys, um dos primeiros a registar em disco novas visões industriais que então emergiam na música de Sheffield. Ainda estão ativos, embora com o seu nome original.

I’m So Hollow “Dreams To Feel The Vacuum” (1981)

Naceram como um duo punk e juntaram depois um terceiro elemento. Eram conhecidos como a “banda com pior nome” em Sheffield mas, ao que parece, resolveram nunca mudar o nome para irritar quem os criticava. Estrearam-se em 1981 com este single (que dá nome à caixa agora editada pela Cherry Red). No mesmo ano lançaram o álbum Emotion / Sound / Motion, mas por essa altura o grupo já se estava a separar.

 

B Troop “Junior” (1980)

Os B. Troop foram um quinteto formado quando Kevin Donoghue saiu dos 2.3, uma das primeiras bandas destas movimentações pós-punk em Sheffield. O facto de ser teclista e saxofonista determinou caminhos para o som da banda, que se estreou em 1980 com este single e, um ano depois, editou o álbum Europeans. Donoghue formaria depois a editora Native Europe.

 

The Toy Shop “The Maze” (1981)

Os Maze começaram por ser um projeto a solo de Paul Klein e acabaram na forma de duo, com Philp Walsh. Estrearam-se em 1981 com The Maze, primeiro single de uma discografia que se manteve ativa até 1986. Pelo caminho tocaram com nomes como os Dead or Alive, A Flock of Seagulls, Nico ou os Dr. Feelgood.

Artery “The Clown” (1982)

Eram considerados, em Sheffield, como a banda mais promissora da cidade. Chegaram mesmo a cativar a atenção de John Peel, para quem gravaram duas sessões (na BBC). Estearam-se em disco em 1979 com um single numa editora local e, depois, rumaram a Londres para tentar voos maios altos. Lançaram vários álbuns até 1985, mas nunca conseguiram visibilidade maior. Jarvis Cocker reuniu-os quando fez a curadoria do Meltdown Festival.

PS. Quem quiser saber mais sobre esta etapa da história musical de Sheffield pode ver o documentário “Made In Sheffield”, de Eve Wood (editado em DVD pela Plexifilm em 2005) e ler o livro “Beats Working For a Living – Sheffield Popular Music 1973 – 1984”, de Martin Lilleker (Juma, 2005).

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