Rui Pregal da Cunha

Conhecemo-lo como vocalista dos Heróis do Mar no início dos anos 80. Passou depois pelos LX-90 e Kick Out The Jams. É figura de referência da cultura pop portuguesa e tem mantido uma atividade regular como DJ. Através de algumas colaborações tem estabelecido relacionamentos com novas gerações de músicos e novos públicos. Hoje fala-nos dos seus discos.

Foto: Vera Marmelo

Qual foi o primeiro disco que compraste?
Engraçado, não me lembro. Recordo ser pequenino e ter discos fantásticos com contos infantis, esses eu não comprei mas gostava de ainda os ter hoje. Nos meus 57 anos já deixei para trás duas colecções de discos. Tenho de dizer uma coisa: a palavra colecção talvez não seja apropriada, não me considero um colecionador, tenho um amor inacreditável por música e compro música quase todos os dias. Não é um fix, não me vejo como um junkie musical mas mesmo que não queira, como escrevi recentemente numa letra, “deixo mais alto o baixo a soar”.

E o mais recente…
Um grande amigo meu fazia anos e fui buscar à FLUR um 12” do Starry Eyed pelo Philip-Michael Thomas, o Ricardo Tubbs do Miami Vice, super… Claro que aproveitei e trouxe o Abridged Too Far dos People like Us e a cópia laranja do Sextet dos ACR.

O que procuras juntar mais na tua coleção?
Toda a música que tenho é exemplo de que não tenho um género musical preferido. Tenho um ou outro tipo de música que odeio mas isso é outra conversa. Sempre vi com extrema naturalidade acabar de ouvir o Sowiesoso dos Cluster e por a agulha num outra teutónica parte incerta tipo o Trio de Janeiro dos Lisa Carbon, na realidade mais um dos inúmeros “disfarces” do multi-facetado Uwe Schmidt. Enquanto estava a responder a esta pergunta (e um pouco para contextualizar esta minha asserção) abri um saco com vinil que levei outro dia para uma sessão L.O.V.E. (Lisbon Open Vinyl Experiment organizada pelo Karl Hilderbrandt) e lá estavam Xenia da Xenia França, Crazy Life de Gino Vannelli, Perfect Stranger do Richenel e o Movimento Perpétuo do Carlos Paredes. Adoro esses encontros de meia hora com outros 15 DJs, clássicos na profusa qualidade de coisas que o people se lembra de meter os outros a ouvir…

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.
Nenhum na realidade, mas há muitos anos ofereci à Ana Mar o disco Ladies of the Eighties produzido pelo Roy Ayers e fiquei sempre um pouco roído de não ter guardado uma cópia para mim. Há coisa de duas semanas fiquei todo contente quando descobri que a Expansion ia re-editar esse disco. Não me abala nada que seja uma nova edição. Antes de começar a responder a estas perguntas vi o 5º episódio do High Fidelity onde Rob (brilhante papel de Zoë Kravitz) pega no Man Who Sold the World na sua versão original e diz que desde o eight grade que queria ter esse disco. Comigo não funciona bem assim, no entanto já me apanhei por exemplo num leilão no eBay a conseguir comprar um exemplar mint do Tighten Up dos YMO e tenho que admitir que me senti o dono-disto-tudo…



Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.
Mais uma vez, não. Not really. Hoje em dia há muito bom disco que tem uma edição mesmo limitada e por vezes quando ouves qualquer coisa sobre esse disco já ele está esgotado ou está a ser revendido por um preço estapafúrdio. Compro em digital através do Bandcamp do artista e o assunto fica resolvido. O que eu quero é a música de qualquer forma. Há pouco estava a dizer que quase todos os dias compro música e o formato muitas vezes é segundo aquilo que tem de ser.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?
Sim há, mas sem exageros. No Discogs só compro a partir de near mint mas com respeito pelo meio e sem ficar ofuscado pelas exorbitâncias que por vezes encontro. Engraçado como o Mr. G parece querer dar a volta à minha resposta anterior em relação a comprar em formato digital quando o físico está fora do meu alcance: em https://phoenixg.bandcamp.com/album/mr-g-presents-nothings-changed-vinyl-only-pgsm001 podemos ver que a edição em duplo vinil desta compilação custa 27 Euros enquanto a versão digital custa €999, o numero da besta. Hehe, top.

Lojas de eleição em Portugal…
FLUR, há muitos anos. Outras existem que são muito boas mas eu mantenho-me fiel.

Feiras de discos. Frequentas?
Por vezes, mais para ir ver alguém que conheço e que esteja lá a vender ou a passar uns discos. De resto parece-me sempre uma montra de hipsters. No entanto por vezes encontram-se pequenas jóias. E assim o resultado desse 1 x 2 acaba por ser de victória fora de casa.

Fazes compras ‘online’?
Muitas. Discogs, Beatport, Juno, Amazon. As lojas de certas editoras como a Light in the Attic são de partir o coração ao mesmo tempo que rebentam os “cordões à bolsa”.

Que formatos tens representados na coleção?
Vou fingir que não voltaste a dizer a palavra coleção. Um verdadeiro colecionador é alguém que compra 3 cópias do mesmo disco. Uma para ele e duas como investimento, para poder pagar o seu modo de vida de agarradinho… Tenho vinil. CDs, quase não tenho cassetes, meia dúzia que sobreviveram dos meus tempos de Walkman II. Não compro música em Blu-ray mas compro em MP3 (só a 320) e FLAC. Quase toda a música nova que passo na minha residência no A Capela às primeiras Quartas do mês é comprada em formato “numérico” como diriam os franceses.

Os artistas de quem mais discos tens?
Acho que deve ser o que o David McSherry e o Steve Colby fizeram como Fila Brasilia. Na posição a seguir deve estar o Haruomi Hosono.

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…
Engraçado estares a mencionar isso, outro dia explicava ao meu filho o estranho que era comprar discos no final dos 70s quando tínhamos só umas listagens fotocopiadas e o quão às escuras por vezes estávamos ao ler o que tinha acabado de sair no Reino Unido.

Uma capa preferida
I’m sucker for any outstanding gatefold.

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.
Por vezes acho que não é questão de ninguém gostar e mais o facto de ninguém conhecer, o que me vem à cabeça logo é o Dinamite da Dina.



Como tens arrumados os discos?
Mais ou menos por géneros. Mais ou menos, porque isso é cada vez mais complicado.

Um artista que ainda tenhas por explorar…
Complicado com todo o acesso que temos hoje ao nosso dispor. O Sun Ra tem uma discografia que nunca mais acaba, a do Zappa ainda é mais extensa. No entanto pode parecer-me agora que já tenha feito check a esses artistas. O meu crate digging tem vindo há muitos anos a virar-se para o Oriente, principalmente para o pais do Sol Nascente. É também uma questão de disponibilidade, os japoneses são extensivos nas suas edições, tem um mercado discográfico maravilhoso, a Tower Records de Shibuya é um edifício de 9 andares à pinha de gente, a primeira vez que lá entrei deu-me quase vontade de chorar.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.
Nenhum que me lembre. Mas há discos que se apresentam sem grandes facilidades e que depois acabam por se infiltrar nas nossas obscuras listas preferenciais. O Manafon do David Sylvian ou o Bish Bosch do Scott Walker são mais que bons exemplos disso.

Dos discos que fizeste quais são aquele que guardas com melhores memórias? Tens edições “raras” ou especiais desses teus discos?
Todas as produções musicais em que estive envolvido foram fruto do meu amor pela música, todos eles são diferentes, unidos por um common thread: a minha voz. O primeiro dos Heróis e o 1RPM, pelo frenesim de estar no “agora”, o Vá lá Senhora dos Golpes pelo regresso do herói, no pun intended. Mas todas as outras são entidades pelas quais nutro um carinho especial.
Tenho uma cópia de cada um desses discos e pelo menos uma história para contar sobre cada um deles. Mas isso é para outro dia.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respectiva história?
Em 1977, tinha eu 15 anos, depois de um jantar em Ekeren, perto da fronteira da Bélgica com a Holanda, o Ben Van Gils, irmão mais novo e o mais “americano” da família do segundo marido da minha irmã, chamou-me até ao escritório dele e mostrou-me duas coisas: um computador Apple e o primeiro e homónimo disco dos Dr. Buzzard Original Savannah Band, banda onde descobri pela primeira vez o August Darnell AKA Kid Creole. Recriação de uma banda swing dos anos 30/40 a la Cab Caloway mas com uma batida disco, incorporava o fascínio que na altura parecia varrer a psique mundial com essa época em geral mas juntando-a à estética da Disco. Sobre o Apple nem vou falar mas sobre este disco, que tenho no vinil original e em CD podia estar aqui horas a explicar porque ainda hoje o considero dentro do meu all time top ten.

Um disco menos conhecido que recomendes…
Continuando na senda das “japonesices”: The Show dos Lucky Tapes, disco pop sublime que comprei no Japão quando foi editado, até recebi um bilhete para ir vê-los ao vivo mas ofereci-o à miúda da caixa porque já não ia estar no país na altura do evento. Ela ficou maravilhada.

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