O mundo despede-se de Manu Dibango, um dos grandes da música africana

Ainda há poucos dias tinham surgido informações que nos davam conta de que estava doente. Hoje acordámos com a notícia de que, às primeiras horas desta manhã, o saxofonista Manu Dibango, nome maior da história da música africana, morrera num hospital de Paris, vítima da doença que desde o início do ano domina os noticiários. Tinha 86 anos e, apesar do funeral privado e discreto que a família referiu, um tributo “à sua memória será organizado logo que possível”.

Nascido em Douala (nos Camarões) em 1933, fez parte da sua instrução primária numa escola em língua francesa. Já em solo francês continuou os estudos, numa altura em que começou a tocar vários instrumentos, nomeadamente o piano, depois o safoxone e ainda o vibrafone… Nas caves da capital francesa descobriu o jazz e aí encontrou um caminho ao qual acabaria, depois, por acrescentar notas pessoais e marcantes. A sua vida fê-lo passar por Bruxelas e vários palcos internacionais antes de se voltar a fixar em Paris.

Começou a registar discos em nome próprio em finais dos anos 60. Data contudo de 1972, o mesmo ano em que editou Africadelic, o lançamento do álbum que ficaria registado como a sua obra de referência. Com o título Soul Makossa esse disco, essencialmente escrito em duala (um diatelo dos Camarões) galgou fronteiras, cativou atenções e gerou descendências. E entre as heranças mais evidentes desse álbum que cruzava as linguagens do jazz e do funk com outras, com clara origem africana, está o tema Wanna Be Startin Somethin’, de Michael Jackson, que cita inclusivamente a voz que canta “Mama-se, mama-sa, ma-ma-ko-ssa”… Perante uma ação lançada por Manu Dibango, Jackson admitiu a fonte da referência e o facto de não ter solicitado autorização, e um acordo foi alcançado fora dos tribunais. A mesma sorte não sorriu a Manu Dibango quando, já no século XXI, Rihanna recorreu à mesma frase em Please Don’t Stop The Music. Em tribunal o processo começou por ser desfavorável ao músico dos Camarões. Mas quando, um ano depois, um juiz da região de Paris pediu à editora que juntasse o nome de Manu Dibango a futuras reedições da canção de Rihanna, já Manu Dibango tinha retirado o processo…

Originalmente gravado para o lado B de um single com o Hymne de la 8e Coupe d’Afrique des Nations no lado A, Soul Makossa tornou-se o tema-assinatura de referência de Manu Dibango. E ao longo dos anos surgiram citações ou samples em temas tão distintos como Do It Good dos KC & The Sunshine Band, Rhythm (Devoted to the art of moving butts) dos A Tribe Called Quest, Samba Makossa de Chico Science ou You See Me de Childish Gambino.

Sem o repetir necessariamente o mediatismo destes “casos”, a obra de Manu Dibango traduziu caminhos de exploração entre o jazz, o funk e a música africana, e gerou alguns momentos de colaboração com músicos como, entre outros, Fela Kuti, Herbie Hancock, Bill Laswell ou Don Cherry. A abertura de horizontes pela qual conduziu a sua música levou-o a experimentar vários caminhos e terrenos, tendo em 1976 vivido novo episódio de sucesso com uma incursão pelo disco em Big Blow, o magnífico tema de abertura do álbum Afrovision. Já nos anos 90, em pleno momento de concentração de atenções do mercado discográfico em volta da world music, Manu Dibango lançou Wakafrica, outro dos títulos da sua obra a conquistar notoriedade mediática, aqui valorizando ainda mais uma série de instrumentos e linguagens com berço africano. Neste álbum o desfile de convidados é impressionante, envolvendo nomes como os de Bonga, King Sunny Ade, Wally Badarou, Peter Gabriel (numa versão de Biko), Youssou N’dour (para reinventar Soul Makossa), Salif Keita, Sinead O’Connor, Angelique Kidjo, ou Ladysmith Black Mambazo, Papa Wemba, Ray Lema (numa versão de Homeless, do álbum Graceland de Paul Simon), Toure Kunda, Papa Wemba e Geoffrey Oryema. – N.G.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.