Miles Davis, “Bitches Brew” (1970)

Lançado a 30 de março de 1970 o álbum “Bitches Brew” representou o episódio de afirmação de uma nova visão para o jazz, nascida da assimilação de ideias e ferramentas usadas nos domínios do rock e do funk. 50 anos depois a visão tem o sabor de um clássico. Texto: Nuno Galopim

Depois de Nefertiti, álbum lançado em inícios de 1968, Miles Davis começou a integrar, progressivamente, instrumentos elétricos na gravação dos seus discos, assinalando igualmente sinais de atenção (e desejo de assimilação) de pistas que entretanto escutara nos universos da música popular, do pop/rock ao funk. Em Miles in The Sky (ainda em 1968) já escutamos Herbie Hancock num piano elétrico e Ron Carter com um baixo elétrico, num alinhamento que conta, em Paraphernalia, com uma contribuição, na guitarra elétrica, de George Benson. O processo continuou em Filles de Kilimanjaro (editado entre finais de 1968 e inícios de 1969 em função da agenda de vários mercados) e, mais ainda, em In a Silent Way (1969). Mas coube a um outro disco, gravado em 1969 e editado a 30 de março de 1970, o estabelecer do momento em que transição está concluída e uma nova música ganhou corpo e vida. Tal como acontecera com Bob Dylan, quando “eletrificara” a sua música perante uma plateia de amantes da folk acústica, a mudança causou reações. Mas a verdade é que a popularidade (medida pelas vendas) de Bitches Brew, não só garantiu um reconhecimento (merecido) a todo este processo de demanda e reinvenção, como acrescentou definitivas marcas de afirmação da cultura afro-americana na iconografia ligada à música, numa capa que ficou igualmente na história.

O mundo tinha mudado. E nos últimos anos a cultura rock’n’roll, assim como a evolução de outras descendências do rhythm’n’blues, da soul ao funk, tinham elevado a fasquia do desafio na criação musical de toda uma nova geração de músicos (e daqueles que escutavam os seus discos). A dimensão maior que esta cultura musical elétrica vivia na reta final dos anos 60, confirmada pelo gigantismo entretanto atingido não apenas no plano das vendas dos discos mas também da dimensão das plateias dos grandes festivais, certamente não terá deixado Miles Davis indiferente. De resto, esta sua atenção para com os universos sempre em mutação da música popular passa por outros episódios da sua carreira, nomeadamente quando, em meados dos anos 80, o escutamos a fazer versões para temas de Michael Jackson, Cindy Lauper ou os Scritti Politti.

A gravação de Bitches Brew começou com primeiras sessões de estúdio para as quais Miles Davis levou uma série de esboços, sobre os quais avisou os músicos que tocassem o que entendessem desde que se mantivessem fieis aos acordes por si definidos. Em estúdio estava uma pequena multidão de músicos, uns da sua banda, outros convidados. Nomes como os de Wayne Shorter, Joe Zawinul, Chick Corea, Larry Young, John McLaughlin, Dave Holland ou Jacl DeJohnette foram parceiros na criação de uma obra-prima que hoje tomamos como peça marcante e revolucionária na história do jazz. Não só são desafiados aqui o pensamento rítmico como a própria presença do estúdio que, mais do que o lugar onde acontece a gravação, se afirma igualmente como um “instrumento” na criação e manipulação do som (afinal algo que a cultura pop/rock já fazia, tendo aprendido aí a lição com pioneiros da música eletrónica). Bitches Brew representou um dos episódios de maior sucesso de Miles Davis, com vendas na casa dos milhões. Não há lista de melhores discos de jazz que não o refira. E hoje faz 50 anos!

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