João Pedro Almeida da Rocha

Tem 41 anos e é advogado em Anadia. Paralelamente à sua actividade profissional, desenvolve trabalho ( não remunerado ) de aquisição, pesquisa e catalogação de música popular portuguesa.



Qual foi o primeiro disco que compraste?

Não tenho de memória o primeiro disco que comprei. Mas poderá ter sido em 1996 quando, ainda adolescente comprei um LP do Mark Knopfler, o The Princess Bride, uma banda sonora de um filme que, curiosamente, nunca vi.

E o mais recente…

O último disco que comprei foi um 78 rotações de 1911, num lado interpretado pelo actores Duarte Silva, Isabel Costa, Coelho da Costa e Virgínia Aço e, no outro, interpretado por Isabel Costa, com as seguintes faixas : “ Os adesivos do 5 de Outubro” e “Hora de repetição”, respectivamente.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

Tento juntar o máximo possível de música comercial gravada em Portugal, desde o ano de 1900 até 1980, privilegiando, neste momento, o formato de 78 rotações por minuto.

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

Curiosamente um 33 rpm, o primeiro LP da Luísa Basto, gravado na Rússia, antes do 25 de Abril. De resto, as grandes raridades que me faltam só ainda não as comprei por circularem no mercado a preços especulativos, uma vez que todos esses discos já me passaram pelas mãos. Como continuo a não querer alimentar especulações, centro a minha busca no acaso de cada momento e até acaba por ser mais interessante assim. Por exemplo, dou mais valor a alguns discos de folclore de certas editoras cuja capas nunca vi (mas que sei que existem) do que essas tais raridades que, afinal de contas, toda a gente conhece.

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

No que aos 78 rpm diz respeito, sem dúvida, o disco que adquiri do Reynaldo Varella da primeira sessão de gravação efectuada em Portugal, no ano de 1900. No que aos 45 rpm diz respeito, o único EP da Zurita de Oliveira (pioneira do rock em Portugal). Felizmente tenho tido a sorte de não esperar muitos anos para encontrar os discos que procuro (com excepção destes dois que acabei de mencionar).

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

Há limites, claro. Aprendi que uma colecção não se faz num dia, num mês ou num ano e que temos de ser pacientes. Porém, prefiro não revelar o valor máximo que dei por um disco. Só perdi a cabeça uma vez, e não me arrependo de o ter feito. E foi por um disco que só aparece uma vez em cada 100 anos…

Como surgiu o gosto pelos discos de 78 rpm?

Quando dei por mim a comprar e a catalogar apenas a música gravada nos anos 50 a 70 do século século XX, percebi que só estava a interessar-me por metade da História. Um tremendo erro. Por tal motivo, decidi recuar e comecei a comprar 78 rpm para que o resto da História não fique por contar. E em boa hora o fiz. É um desafio difícil mas gratificante. Coleccionar e investigar os 78 rpm é uma espécie de arqueologia musical que nos faz recuar no tempo, sem dúvida.



Onde se compram discos de 78 rpm?

O mercado dos 78 rpm é um mundo completamente à parte. Comprei os meus melhores discos em sítios e às pessoas mais improváveis. Como não existem muitos coleccionadores que se dediquem a este formato, fui criando uma rede de contactos em feiras de velharias e antiquários e também na internet. Assim (e como já sou conhecido em determinados meios) em regra os discos vêm ter comigo com alguma naturalidade, desde que exista entre mim e os meus “ fornecedores” uma relação mútua de compromisso e seriedade. Aliás, como tudo na vida. Em Portugal não existem lojas de música que percebam o suficiente deste assunto.

Fazes compras online’?

Cada vez menos. No entanto, a internet e as redes sociais são uma ferramenta muito importante para estabelecer contactos com novos vendedores e coleccionadores.

Que formatos mais tens representados na colecção, além dos 78 rpm?

O meu formato de eleição começou por ser os 45 rpm (singles e EPs) e continuo a interessar-me em concluir a aquisição de todos os discos nesse formato das principais editoras fonográficas portuguesas surgidas nos anos 50 e 60 em Portugal. Sei que é um desafio bem difícil mas que nunca considerei impossível. Também me interesso por cilindros de música, formato que antecedeu o disco. Não colecciono cassetes nem cartuchos. Já me chegam os discos e CDs que tenho.

Os artistas de quem mais discos tens?

Sem dúvida alguma, os discos de 78 rpm do actor Duarte Silva, que gravou centenas de cançonetas (e outros géneros) entre o ano de 1900 e ano de 1914. Seja a solo, em dueto ou em grupo, devo ter mais de 300 discos dele e outros tantos me faltarão.

Há editoras ou géneros musicais que procures preferencialmente?

Preferencialmente as editoras surgidas antes do início da I Guerra Mundial, como a Gramophone & Typewriter, Beka, Homokord e as portuguesas ChiadoFone, Disco Lisboa (Simplex) Dalia, etc … Tudo coisas com mais de 100 anos.

Os discos de 78 rpm têm grafismo tanto nas etiquetas como nas capas. Há alguns da tua colecção que destaques?

Em regra os 78 rpm eram lançados sem capa personalizada ou então em capas publicitárias meramente genéricas, sem qualquer referência ao interprete. Porém, no que diz respeito às etiquetas, é possível encontrar (mediante os gostos de cada um) algumas muito bonitas e significativas, como a Luzofone, ou os discos da Sociedade Fabricante de Discos – Simplex, entre outras.



Que equipamento usas para os escutar?

Um banal gira discos com um entrada USB para gravar de imediato para o computador. Para preservar os discos (devido à sua antiguidade) oiço apenas quando é estritamente necessário.

Como tens arrumados os discos?

Os 78 rpm estão ordenados em estantes montadas em cubos de madeira e por ordem ascendente de entrada na colecção, em capas duras, cada capa com um número de entrada atribuído. Simultaneamente, uso uma folha excel com os discos ordenados por ordem alfabética e o número de entrada na estante. Assim, torna-se fácil procurar. Os 45 rpm, estão em estantes normais, ordenados por editora e por ordem cronológica de número de catálogo.

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Sinceramente, não sei. Com a “ loucura “ dos 78 rpm, deixei para trás muitos artistas que surgiram e outros mais antigos que andava a descobrir e que deixei de ouvir. Tenho que retomar.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

Em vez de um disco, prefiro indicar o nome de um artista. David Bowie. Não o suportava. Hoje, considero-o um dos melhores artistas de todos os tempos.

Que cuidados se deve ter quando se colecionam discos de 78 rpm?

Em primeiro lugar, não os ouvir em velhos gramofones, com agulhas da época, que são quase pregos e que vão destruindo aos poucos as espiras dos discos. Por outro lado, como são discos muito frágeis, podem partir com o manuseamento, por isso devem estar protegidos em capas duras e evitar grandes quantidades na mesma prateleira. Basicamente, se os deixamos cair ao chão, ficam em cacos.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respectiva história?

Tenho imensas histórias, é muito difícil escolher uma, pois já me aconteceu de tudo, para o bem e para o mal… Mas partilho esta: Um dia vi um anúncio, no OLX, de venda de uma grafonola com um dos discos da primeira sessão de gravação em cima do prato da grafonola. Liguei imediatamente, combinei a entrega, salvaguardando que queria o disco também. Quando cheguei ao local combinado, verifique que o vendedor tinha trocado, sem querer, o disco de 1900 (raríssimo) por um disco do Marco Paulo (!). Nem queria acreditar ! Tivemos que marcar outro dia. Durante dois ou três dias, quase que nem dormi, com medo de perder o negócio. Mas, vá lá, com muitas peripécias pelo meio, o negócio lá se fez passado uns dias….

Um disco menos conhecido que recomendes…

Como um dos entrevistados já indicou o álbum que eu pretendia, recomendo um disco de jazz que gosto muito: Stan Getz with Special Guest Laurindo de Almeida, que foi dos primeiros que ouvi na vida, ainda antes de comprar o meu primeiro vinil e que ouvi recentemente antes de responder a este inquérito.

 

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