Um retrato de Miles Davis para ver e ouvir em menos de duas horas

Assinado pelo documentarista norte-americano Stanley Nelson Jr, o filme “Miles Davis – Birth of The Cool” dá-nos uma panorâmica sobre a vida do grande músico. O filme é ligeiro, mas para iniciados pode servir de porta de entrada para futuras descobertas. Texto: Nuno Galopim



O filme não é propriamente uma novidade. Estreado em Sundance em janeiro de 2019, há perto de um ano passou no IndieLisboa e chegou a ser nomeado para Melhor Filme nos Grammys (tendo perdido para Homecoming, de Beyoncé). Ao estar agora disponível na plataforma Netflix o documentário Miles Davis – Birth of The Cool, pode ser uma proposta para um breve mergulho pela música e personalidade de uma das maiores figuras da história da música (e não apenas do jazz). Os que o conhecem bem talvez sintam que o filme é coisa leve, que sabe a pouco. Para quem o queria descobrir o documentário abre contudo portas para depois cada um poder ir mais longe. Mesmo estando longe de ser um primor quer na realização ou até mesmo nas opções narrativas, junta uma coleção de figuras marcantes e ilustra (com som e imagens) episódios marcantes da vida e obra de Miles Davis.

O filme é realizado por Stanley Nelson Jr, um documentarista norte-americano já veterano com uma obra que sempre teve incidência maior sobre temas sociais, políticos e culturais ligados à história da comunidade afro-americana. Os percursos da vida e obra de Miles Davis, na verdade, acabam por se cruzar com o quadro deste universo temático, e algumas das sequências mais cativantes do documentário são até as que abordam a relação do músico com a sua identidade, frisando inclusivamente o seu papel na linha da frente de afirmação de orgulho ao colocar o rosto da mulher com quem estava casado, Frances David, na capa de Someday My Prince Will Come (1961) ou de explorar mais ainda heranças de culturas africanas na de Bitches Brew (1970). Outra dos domínios da memória mais bem abordados pelo filme é o que se foca na dimensão pessoal, doméstica mesmo, não deixando se ficar referidas as questões de violência e dependência que atravessaram várias fases da sua carreira.

O filme é arrumado cronologicamente, servindo-se de uma narração (feita em off por Carl Lumbly) que nasce da leitura de excertos da autobiografia de Miles Davis… São palavras na primeira pessoa… Mas numa outra voz. E apesar da quantidade de imagens de arquivo (mais em fotografia que em filme e vídeo) nunca vemos e ouvimos o próprio músico a falar de si ou da sua música. Em contrapartida o leque de figuras que escutamos é arrebatador e passa por Juilette Gréco (com quem Miles viveu um caso em França), companheiros de trabalho de várias etapas como Jimmy Cobb, Herbie Hancock, Ron Carter, Wayne Shorter ou Gil Evans, entre outros mais, juntando ainda amigos e familiares num coro que acrescenta memórias e pontos de vista à história que se conta. O percurso narrativo dá conta dos episódios musicalmente mais marcantes, as descobertas e revoluções, momentos de reação a algo a que Miles foi exposto (como a assimilação do flamenco e a criação consequente de Sketches From Spain), e não esquece os momentos de abismo e silêncio que também habitaram o seu percurso. É pena que o período tardio quase seja contado a correr depois de ser referida a edição de Tutu, ignorando até o visionário Doo Bop, de 1992, no qual Miles Davis escutou e experimentou, antes de muitos outros seus companheiros, as revelações que estavam a chegar nos caminhos do hip hop. Ao mesmo tempo não faltam aqui momentos de arquivo arrepiantes, ora quando nos mostram um jovem Miles ao lado de Charlie Parker ou, já nos anos 80, fragmentos de uma atuação no palco que havia no complexo de Paisley Park, ao lado de Prince.

 

“Miles Davis – The Birth Of Cool”, de Stanley Nelson Jr, está disponível na plataforma Netflix.

Ao mesmo tempo que o filme é disponibilizado eis que surge no mercado uma edição em disco com elementos da respetiva banda sonora (e não só), juntando faixas de discos seus e momentos de comentário pelas vozes de Herbie Hancock, Jimmy Heath, Greg Tate, Carlos Santana ou Wayne Shorter, entre outros.



“Music From and Inspired by Miles Davis – Birth of The Cool”, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Columbia.

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