O álbum sorridente de Cláudia Pascoal é como um bálsamo para estes dias

O primeiro álbum de Cláudia Pascoal não só junta uma equipa incrível de colaboradores como nos apresenta um alinhamento colorido e luminoso capaz de, como sugere o título, causar espanto. O disco apresenta-se com um título simples: um ponto de exclamação. Texto: Nuno Galopim



Depois de uma sucessão, todos eles promissores, eis que chega finalmente o álbum de estreia de Cláudia Pascoal. Tem por título um mero ponto de exclamação e reconheço que a opção não podia ter sido mais acertada. Por um lado traduz um certo sentido afirmativo, como quem diz “é isto!”… Mas ao mesmo tempo faz-nos abrir os olhos (e os ouvidos) perante a exclamação de uma chegada que não só surpreende como se revela uma das mais sorridentes (e coloridas) coleções de canções saborosas. As canções, de alma pop, são ricas em luz e sabores (desde heranças assimiladas da folk até piscadelas de olho ao folclore em Quase Dança). E nos tempos assombrados que vivemos estas canções sabem bem.

Ao contrário do que está a acontecer (sem juízos de valor nesta observação) com outros músicos que decidiram adiar o lançamento de discos previstos, Cláudia Pascoal manteve a data perto do previsto. O álbum, na verdade, só avançou uma semana face ao originalmente previsto. “Era para lançar o álbum dia 20, no qual tinha um concerto marcado na Covilhã”, conta, acrescentando: “tudo isto foi adiado! O concerto “pelas razões óbvias, e o lançamento do álbum”, porque decidiu “dar espaço ao bonito festival #euficoemcasa” no qual participou. Decidiu “lançar na mesma o álbum porque uma das coisas” que diz adorar no ! “é que é leve” e, pelo menos no seu caso, fá-la “rir em algumas músicas”. Achou, por isso, “que toda a gente estava a precisar desta leveza e simplesmente meter uns headphones e deixar-se levar pela estupidez”. Eu diria mais bom humor… E a presença de Nuno Markl, quase em jeito de rábula, no arranque do alinhamento e na primeira canção, deixa logo bem evidente esse tom.

Chegar a este ponto de exclamação levou tempo. E implicou um processo de procura de uma voz criativa própria. “Foram quase dois anos” de trabalho para aqui chegar. “Foi um processo incrível”, onde não só sente que cresceu “musicalmente mas como pessoalmente”. Era fulcral criar encontrar essa “identidade musical”, e chamou Tiago Bettencourt para a “ajudar com esta tarefa distinta”. O processo “foi na base de experimentar e insistir em tomar vários rumos para a mesma música. Pegar em canções” que escreveram para si “e dissecá-las, ou pegar em maquetes fatelas de telemóvel e dar-lhes adubo”. Na verdade, “a gravação em estúdio demorou apenas um mês, o que demorou foi mesmo esse processo” de estar sentada “numa cadeira muito desconfortável com o Bettencourt e construir algo que me fizesse sentido e que no final do processo estivesse completamente apaixonada”. E está, reconhece.

Tiago Bettencourt e Nuno Markl são apenas alguns dos nomes que colaboram no álbum. Samuel Úria compõe e canta em Viver. David Fonseca, Joana Espadinha, Pedro da Silva Martins e o próprio Tiago Bettencourt juntam-se a Cláudia para fazer de ! um retrato de uma família de grandes escritores de canções. Para Música de Um Acorde juntou-se um vasto coro no qual entram ainda vozes como as de Isaura, Jorge Benvinda ou o Rancho Folclórico Flores da Beira. Para Cláudia “é ponto assente que a música só cresce com mais músicos”. Ou seja, “é essencial ter mais personalidades e cores envolvidas”. E deixa a imagem: “Um arco íris é incrível. Mas um arco íris com purpurinas é do caraças”. Por isso sentiu-se “a maior sortuda por ter tantos artistas” que admira a querer compor para si. Não teve “dúvidas” que essas presenças só iam “elevar o disco”, assim como lhe iam “dar bases para estudar novos rumos”. Cláudia acrescenta que teve “vários e bons artistas a oferecer canções, umas ficaram…outras não”. Foi “selecionando quando a visão do álbum estava cada vez mais clara”, vivendo assim “um processo incrível”. E hoje conta que “só” tem “de agradecer toda a cor que todos estes tuga artists trouxeram” ao seu mundo.

Nem todas as colaborações em ! foram estritamente musicais. Wandson Lisboa teve aqui um papel fulcral no processo de criação de uma imagem para dar corpo a toda esta música. Cláudia conta: “O Wandson não só é talentoso como tem uma perceção inacreditável do crescimento criativo que algo possa ter. Quando fizemos a sessão fotográfica já com um caminho estético definido, a única coisa que lhe dei como guia foram maquetes de algumas músicas e ele conseguiu pegar no que tinha e construir algo que poderia existir e dar-lhe a cor certa. Literalmente”. O resultado é incrível. A capa não só traduz o que o disco é, como é um dos melhores exemplos de uma boa ideia de design em discos portugueses dos últimos tempos.

Com uma carreira pública que passou em primeiro lugar por concursos de talentos (como habitualmente são designados), pelo Festival da Canção e Eurovisão, o álbum de Cláudia Pascoal é um bom (raro) exemplo de como um pensamento sobre o que pode ser uma carreira, a consequente descoberta de uma identidade e o estabelecimento das parcerias certas são etapas fundamentais para que a visibilidade televisiva do antes possa ser transformada num percurso com sabor a carreira depois. “Honestamente estava só demasiado preocupada em perceber o que queria fazer e chegar a uma verdade que ainda estava muito esbatida”, confessa Cláudia ao ser confrontada com essas etapas anteriores que lhe deram grande visibilidade mesmo antes de ter um disco em seu nome. E continuou: “Todas as minhas experiências na televisão deixaram-me com uma noção muito real do que sou, mas também fiquei um pouco perdida na direção que queria seguir na minha música. Por isso o meu objetivo central era só mesmo eu perceber isso, a opinião pública chega só agora” e está a ser muito “quentinha”, descreve.

E depois? Apesar dos dias que vivemos, há já espaço para pensar o depois? “Só penso nisso!”, confessa. “Tinha toda uma tour bonita marcada que foi adiada. Portanto, quando o mundo deixar de ser uma bolha estranha”, vai anunciar as suas datas e partilhar “toda esta energia, que agora está enlatada”, para todos os que a “quiserem aturar”.

“!”, de Cláudia Pascoal, está disponível em CD e nas plataformas digitais, numa edição da Universal

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