Gonçalo Troçolo

Lembram-se da Twice, a magnífica loja de discos que durante algum tempo habitou um espaço na Rua Cecílio de Sousa, junto ao Jardim do Príncipe Real? Pois a loja era do Gonçalo Troçolo que, hoje, nos fala aqui dos seus discos. 

Desde miúdo (já lá vão uns anos), conta que sempre teve muita liberdade. Algo que ainda hoje preza e recomenda. “Tive também uma sorte bestial em ter uns pais que desde muito cedo me deram acesso a todo o tipo de música” e por isso “livre transito para todos os discos lá em casa”. Tomou assim desde muito cedo contacto com David Bowie, Led Zeppelin, Shadows, Pink Floyd entre outras “boas influências”… Tudo por sua conta. Ouvia o que lhe “apetecia sem crítica nem recomendações”. Pura e simplesmente à descoberta. E ainda hoje assim faz. E recomenda…

Qual foi o primeiro disco que compraste?
Dos Kraftwerk, o Computer World.

E o mais recente? 
Dennis Young – Visions, uma recolha de material gravado na década de 80 pelo ex-baterista dos Liquid Liquid, editado agora através da editora Daehan Electronics.

O que procuras juntar mais na tua coleção?
Procuro preencher a minha colecção de originais do Lee Hazlewood. Ken Nordine, Sven Libaek, Bob McKenna, Boyd Rice… São também músicos e bandas dos ainda me falta alguma coisa. Depois existem imensos discos, mais ou menos obscuros, e que passam por géneros totalmente diferentes, como por exemplo o jazz e o easy listening, pela house e a new wave e que estou sempre à procura.

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.
Pastor John Rydgren – Silhouette Segments

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.
Aquele que me surge, até porque o estive a limpar e ouvir recentemente, é o EP Just Keep My Boogie de Jaymz Bedford. Uma edição original de 1981, edição da Goldmink Records. Produzido pelo Roy Ayers que também entra no disco, é uma peça de disco/funk viciante. E como não estava de todo à espera de o encontrar, tornou tudo ainda mais gratificante.

Limite de preço para comprares um disco…existe? E é quanto?
Teoricamente não existirá, na prática, sim. Ou melhor, se optar pela resposta mais impulsiva diria que existem discos que, sim, não têm preço; no entanto sou daqueles que acredita que acabará sempre por surgir uma outra cópia a preço normal.

Lojas de eleição em Portugal…
Flur, Discolecção e Matéria Prima (Porto)

Feiras de discos. Frequentas?
Sim, sempre que posso. As que acontecem por cá, tento sempre lá passar para ver se há novidades. Sempre que me desloco ao estrangeiro, reservo sempre tempo para os discos e aproveito sempre disponíveis. Nunca se sabe.

Fazes compras ‘online’?
Sim. Utilizo várias plataformas e sites. Dependendo se estou a comprar edições novas ou usadas.

Que formatos tens representados na coleção?
Maioritariamente álbuns. Em segundo lugar, os EPs de música electrónica diversa que vão ocupando mais espaço de dia para dia.

Quais são os artistas de quem mais discos tens?
A Warp está em destaque com discos dos Boards of Canada, Autechre, Aphex Twin, Flying Lotus e Squarepusher. Do Arthur Russell também tenho bastante discos; originais e reedições. O Lee Hazlewood, já referido, reaparece aqui (álbuns e singles). Num registo completamente diferente, mas que sempre me atraiu, não só pela música, mas também pela estética associada ao género são os discos de exotica, space age e semelhantes, dentro dum certo easy listening. Les Baxter, Esquivel, Arthur Lyman, Martin Denny são alguns dos mais conhecidos dos quais tenho alguma coisa. Neste género procuro sempre obter edições originais. E quanto mais bizarros, melhor!

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…
Não é comum isso acontecer. Para mais, actualmente, com o acesso extremamente facilitado a tudo o que vai sendo ou foi editado, muitas das vezes nem passando sequer pelas prateleiras de uma loja, o que acontece é que entramos pela música através de uma amostragem… Infelizmente, muitas vezes fica-se por aí. Agora para os que dedicam o seu tempo (ou parte dele) a conhecer artista, bandas, editoras e por aí fora, aí sim, “arrisca-se” mais e dá muito mais gozo.

Uma capa preferida.
Uma escolha muito difícil (pois há coisas magníficas…) mas ainda assim vai para a primeira que me surgiu: New Order – Movement

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.
Boyd Rice (Black Album) de 1977. Eventualmente inaudível. Em casa um disco proibido (censura familiar). Quando o escuto gosto normalmente de ter uma aspirina ao lado. Mas mais ninguém lhe toca!

Como tens arrumados os discos?
Pertinho de mim na sala de estar. Sempre à mão…

Um artista que ainda tenhas por explorar…
Escolher um, é dificílimo, pois há tanta música por descobrir (e redescobrir também!). No entanto, numa altura que atravessamos a duríssima crise do vírus Covid19, e a incerteza quanto ao que nos espera é imensa, ocorre-me a obra da Pauline Anna Strom. As suas sonoridades etéreas e calmas são quase terapêuticas, e podem ser uma ajuda para o momento que atravessamos.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.
Lembro-me de um disco que, na altura em que o comprei, foi como, tantos outros, um tiro no escuro. Que correu mal (como muitos outros). Como referi de início o primeiro contacto que tive com os Kraftwerk foi através do Computer World. Do qual algumas faixas passavam na rádio. Estávamos em 1981/82 e era preciso arriscar muito mais para conhecer artistas que pura e simplesmente não eram distribuídos em Portugal. Um dos muitos que comprei, após primeiro contacto através de revistas como a Rock & Folk e jornais como o Melody Maker, foi o Ralf & Florian dos Kraftwerk. Na altura, estava tão fascinado com o Computer World, que não hesitei em encomendá-lo (entre outras pérolas do kraut que ia também comprando). Pois fiquei decepcionadíssimo (não tinha nada a ver com o Computer World) pelo que o coloquei logo lado. Actualmente, está entre os meus preferidos.

Ter uma loja mudou algo na tua relação com os discos?
Sim, mudou um bocado. De há uns anos para cá que preciso, por vezes, de me distanciar “afectivamente” de alguns discos que tenho para venda. Por vezes até trocaria de lugar com o cliente … Por outro lado, se estou a preparar alguma encomenda, ou a avaliar alguma colecção, tenho de ter algum cuidado para mais uma vez não deixar que o meu gosto pessoal interfira com as opções comerciais. Quando chego a casa já não há filtro para o que ouço. Sejam raridades ou não, tenham ou não uma boa crítica são os meus discos. Que ouço em total liberdade.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respectiva história?
Talvez uma breve história que mexe com questões já abordadas. Há uns anos salvei de ir parar ao lixo um disco que pelo qual acabei por pagar 2 euros e meio e que acabou por ganhar vida própria. Fi-lo, na total ignorância do que estava a comprar, tendo somente ficado atraído pela capa. Foi assim que entre discos dos Beatles, Rolling Stones, Weather Report, e outras referências inquestionáveis, acabei por conhecer os misteriosos Al Mati e o seu primeiro e único álbum Some Shit. Trata-se de uma edição privada, gravada na Holanda em 1981, por portugueses emigrados naquele país. O disco, uma pop sintética com contornos rock e cantada em português, é actualmente objecto de culto, com os poucos originais a atingirem valores altíssimos. Eu fiquei a olhar para o disco sem saber bem o que lhe fazer; guardá-lo e regressar pontualmente ao Eu e o Drácula (uma das pérolas criativas do álbum…) ou pura e simplesmente vendê-lo e acabar com a história. Assim foi. O disco partiu para os Estados Unidos e naturalmente, nunca mais ouvi falar dele. Eu fiquei com aquela sensação de uma história inacabada. Um volume 2. Eventualmente.

Um disco menos conhecido que recomendes…
Michael Garrick Trio – Moonscape de 1964. Belíssimo shot de free Jazz. Redescoberto pela Trunks Records. que como sempre faz um trabalho estupendo a reeditar obras-primas e discos meio obscuros que me enchem as medidas.

3 pensamentos

    1. Ocasionalmente podem aparecer pequenos erritos de escrita surgidos da nossa pressa ou de outros (na escrita deles mas também na n/ leitura) – numa eventual entrevista feita por mail pode acontecer com frequência. Fica o reparo que não coloca em causa a qualidade do site, “não tinha nada a haver com o Computer World”

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