Nos 100 anos de Ravi Shankar, o músico indiano que gostava de dialogar

Começou por ser dançarino, depois dedicou-se à música. Compôs para teatro, cinema e começou a gravar discos no final dos anos 40. Foi uma presença marcante tanto junto da música clássica ocidental como na cultura pop/rock, mostrando sempre vontade em levar mais longe os diálogos possíveis com a música clássica indiana como ponto de partida. Texto: Nuno Galopim

7 de abril de 1920 em Varanassi, cidade nas margens do Rio Ganges… É ali que a história começa. O mais novo dos sete filhos de um advogado e político e da filha de um proprietário de terrenos em volta de uma aldeia, o pequeno Ravindra Shankar despertou cedo para as artes performativas e para a música. E passou parte da juventude com uma companhia de dança, com a qual viajou à Europa e América nos anos 30, surgindo aí os primeiros sinais de ligação com a cultura ocidental. Simplificou o nome (passou a ser conhecido como Ravi), descobriu a música clássica ocidental, o jazz e aprendeu francês. Quando, no final da década de 30, se tornou difícil fazer digressões no mundo ocidental (aproximava-se uma guerra), deixou a dança e focou atenções na música. Estudou música clássica indiana com um dos grandes mestres daquele tempo. E em meados dos anos 40 estava já a tocar em público, começando então também a gravar discos (os primeiros, entre 1948 e 49, ainda no formato de 78 rotações). Pouco depois começa a colaborar no cinema assinando a música para Pather Panchali (1955) e os dois filmes seguintes que completam a Trilogia de Apu, de Satyajit Ray, títulos marcantes na história do cinema indiano. O seu percurso no cinema incluiria, bem mais tarde, a música para Gandhi (1982), de Richard Attenborough.

De regresso à Europa gravou em Londres, em 1956, o seu primeiro álbum. Com o título Music of India – Three Classic Ragas on Sitar, o disco foi lançado pela HMV, conhecendo mais tarde novas edições com capa diferente, apresentando o LP apenas como Three Ragas. Esta gravação levou a sua música mais longe. A sua a e a da Índia, abrindo novas frentes de atenção não apenas para o som do sitar (o seu instrumento de referência) e as próprias formas musicais (o dicionário New Grove explica que a contribuição de Ravi Skankar para a história da música indiana implica a criação de novas abordagens a formas clássicas, sobretudo as propostas de ciclos rítmicos menos convencionais). E em apenas três anos deu por si a gravar para a World Pacific Records, que não só foi a casa de alguns dos seus lançamentos nos anos 50 e 60, como a porta para que o gosto (e a curiosidade) em dialogar com outras músicas encaminhasse definitivamente Ravi Shankar entre as rotas e destinos de vários grandes músicos do seu tempo, desde os espaços da música clássica ocidental aos da cultura pop/rock.

Foi através do dono da World Pacific Records que a música de Ravi Shankar começou a chegar aos palcos dos grandes concertos e festivais de rock na segunda metade dos anos 60. A sua atuação num teatro em São Francisco, em 1967, gerou um disco ao vivo. Mas mais marcante ainda foi Ravi Shankar at The Monterey International Pop Festival, disco (também) ao vivo que leva a sua música à tabela dos álbuns mais vendidos nos EUA. Dois anos depois uma outra atuação sua fez história no Festival de Woodstock (igualmente depois editada em disco). Rickard Bock, da World Pacific Records foi também o responsável pela apresentação da música de Ravi Shankar aos Byrds e estes, por sua vez, levaram-na a George Harrisson, dos Beatles. A partir de Norwegian Wood (This Bird Has Flown) começa a ser notória uma curiosidade pela música indiana entre as canções dos Beatles, definindo um espaço de exploração que alcançaria depois o seu momento maior em The Inner Light, em 1968). George Harrisson trabalhou em várias ocasiões com Ravi Shankar. Produziu, por exemplo, a banda sonora do documentário Raga (1971), que saiu em disco na Apple. Chant of India (de 1997), que será reeditado este ano por ocasião do Record Store Day, foi igualmente produzido pelo ex-Beatle. Mas um dos episódios mais célebres da parceria que se foi criando entre os dois teve a ver com uma crise humanitária e a campanha, na forma de um concerto (e um disco e filme) lançada para recolher fundos. E foi precisamente no minuto que antecedeu a atuação de Ravi Shankar em Concert For Bangladesh (em agosto de 1971 no Madison Square Garden, em Nova Iorque, que nasceu uma das frases mais célebres de Ravi Shankar. Ele e os músicos tinham entrado em palco e, sentados, afinaram os instrumentos. Mal acabaram de os afinar a plateia irrompe num aplauso entusiasmado… E o músico diz então: “Se gostaram de nos ouvir a afinar, espero que gostem mais ainda quando estivermos a tocar de facto”. Um certo desencantamento com os caminhos que a cultura pop/rock tomou ditou, depois, um gradual afastamento de Ravi Shankar destes espaços de colaboração. Mesmo assim houve momentos de reencontros, um deles registado em 1973 no álbum Shankar Family & Friends, no qual colaboraram George Harrisson, Ringo Starr, Klaus Voorman ou Billy Preston.

Os encontros de Ravi Shankar com outras músicas não aconteceram apenas nos terrenos do diálogo entre a música indiana e a cultura pop/rock. Em 1966, um ano antes de editar o disco ao vivo em Monterey que o levou aos lares de muitos jovens amantes de rock’n’roll, Ravi Shankar juntava-se ao violinista Yehudi Menuhin para gravar West Meets East, disco que arrebataria um Grammy para Melhor Gravação de Música de Câmara. Este gosto pelos diálogos com os caminhos da música clássica ocidental tiveram continuidade num segundo e terceiro discos gravados pelos dois músicos em 1968 e 1976. Pelo caminho, desafiado pela London Symphony Orchestra, Ravi Shankar compôs um Concerto para Sitar e Orquestra, que Andre Previn dirigiu e gravou em disco em 1971. De 1978 a 1980 a Deutsche Grammophon registou e editou três álbuns de música de Ravi Shankar (reunidos depois, em 2010, na antologia The Master). Em 1982 Zubin Mehta gravou Raga Mala com a London Philharmonic Orchestra. Entre este espaço de colaborações há que destacar, ainda, o belíssimo Passages, álbum editado em conjunto com Philip Glass em 1990.

Ravi Shankar, que nos deixou em 2012, foi pai de quatro filhos. Duas delas seguiram carreira na música: Norah Jones (nas áreas do jazz) e Anoushka Shankar, esta tendo seguido passos mais próximos do pai, abraçando os espaços de herança da música indiana e o som do sitar.

Estava programado um mapa vasto de concertos (um deles com Philip Glass) para assinalar o centenário de Ravi Shankar, tendo todas as datas sido entretanto canceladas. A seu tempo acabarão por se realizar. Para já o centenário é marcado pelo lançamento de Indian Sun: The Life and Music Of Ravi Shankar, uma biografia assinada por Oliver Craske.

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