John Adams, “The Gospel According To The Other Mary” (2014)

Estreada em Los Angeles em 2012 e gravada pela primeira vez em disco em 2014, pela Filarmónica de Los Angeles, dirigida por Gustavo Dudamel, a oratória “The Gospel According To The Other Mary” é mais um exemplo de como a força social e política da obra de John Adams afirma marcas de tempo e identidade na música do presente. Texto: Nuno Galopim

Aquele que representou um dos grandes lançamentos discográficos de 2014 na área da música clássica assinalou um novo episódio de colaboração entre o compositor John Adams e o maestro Gustavo Dudamel. Adams tinha composto City Noir para o concerto inaugural de Dudamel como diretor da Filarmónica de Los Angeles, obra que teve edição em suporte digital em áudio e, depois, em DVD (em The Inaugural Concert, onde se juntava a esta obra a Sinfonia Nº 1 de Mahler que representava a peça central do programa dessa noite). Compositor e maestro voltaram a estar juntos em The Gospel According To The Other Mary, uma oratória para orquestra, solista e coro que John Adams estreou em palco 2012 e que conheceu primeira gravação em disco pela Deutsche Grammophon dois anos depois.

A obra tem como base um libreto assinado por Peter Sellars, colaborador regular de John Adams (figura determinante, por exemplo, em Nixon in China, a primeira ópera do compositor, estreada em 1987). Sellars juntou textos de origens diversas, passando por autores como Dorothy Day, Louise Erdrich, Primo Levi, Rosario Castellanos, June Jordan, Hildegard von Bingen ou Rubén Darío, além, claro está, das palavras dos evangelhos. A oratória foca atenções na Paixão de Cristo, mas procura um ponto de vista algo diferente escutando sobretudo as vozes de duas mulheres, nomeadamente Maria Madalena e Marta, a irmã de Lázaro. E promove depois um cruzamento de tempos com o presente.

Musicalmente a oratória segue os caminhos estimulantes que a música orquestral e vocal de Adams estava a seguir por aquela altura, aliando um belíssimo trabalho do canto a uma noção de espaço acolhedor (e capaz de suportar intenções dramáticas) na cenografia ao seu redor, apesar de pontualmente revisitar ecos mais próximos das heranças minimalistas da sua obra nos oitentas no modo como usa ocasionalmente figuras repetitivas.

Se no plano da música há expressões da progressão natural na obra do compositor, é contudo na abordagem temática que The Gospel According To The Other Mary acrescenta notas mais desafiantes. Ao desviar o foco das atenções para os pontos de vista de duas mulheres e ao estabelecer ângulos de abordagem temática abarcam uma vastidão de espaços e tempos (partindo dos evangelhos mas incluindo ecos do mundo social e político do nosso tempo) John Adams faz com que esta sua oratória se junte  à igualmente pungente La Pasión Según San Marco de Osvaldo Golijov para mostrar como textos e heranças remotas podem conhecer novas (e consequentes) abordagens no nosso tempo.

Depois da estreia no Walt Disney Concert Hall The Gospel According To The Other conheceu já outras abordagens. Estas imagens que se seguem são de uma produção da English National Opera, sob encenação de Peter Sellars e com direção de orquestra de Joana Carneiro (que vemos em planos captados na sala de ensaios).

Aqui a seguir a abordagem plasticamente mais minimalista da produção com a Filarmónica de Los Angeles.

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