It was 50 years ago today…

Foi a 10 de abril de 1970 que o mundo soube da notícia. Os Beatles estavam separados. A decisão tinha sido tomada em setembro de 1969, mas ficara em segredo. Entretanto todos os quatro arregaçaram as mangas para criar álbuns a solo. E na verdade a colheita de 1970 foi bem interessante. Texto: Nuno Galopim

Faz hoje 50 anos que o segredo tinha deixado de o ser. Ao enviar um press release, que anunciava a edição de um álbum a solo a 17 de abril de 1970, revelando ali que se afastava dos Beatles, que não havia planos para novos singles ou álbuns do grupo nem via pela frente a possibilidade de voltar a compor com John Lennon, Paul McCartney no fundo tornava público o que os restantes fab four já sabiam desde setembro de 1969…

Aquela aventura, que tinha mudado a história da música, chegara ao fim. E chegara ao fim quando, regressado de uma viagem ao Canadá para tocar com a Plastic Ono Band, Lennon comunicou aos companheiros que se ia afastar. Estavam então a editar o álbum Abbey Road, que tinham gravado recentemente, e decidiram manter segredo. Mas daí em diante cada um foi trilhando o seu caminho… Ringo e Paul focaram-se na gravação dos respetivos discos de estreia a solo que surgiriam nos primeiros meses de 1970. Lennon foi lançando singles com a Plastic Ono Band (e um deles, Cold Turkey, chegou ainda a propor para que gravasse como Beatles). George Harrison respirou fundo e concentrou-se na criação de um álbum de grande fôlego que seria bem diferente dos dois LP de música experimental que tinha já editado em nome próprio. Pelo caminho decidiram recuperar as gravações do projeto Get Back, abortado e arquivado no início de 1969, chamando a estúdio Phil Spector para supervisionar a mistura e a produção de sessões adicionais, gerando aí o disco que seria editado como Let It Be… No fundo, acaba por ser difícil definir a hora exata em que os Beatles colocaram um ponto final no seu trabalho conjunto. Mas a 10 de abril as palavras emitidas na véspera por Paul McCartney chegaram aos jornais de todo o mundo. Só não imaginava (nem ele nem nenhum dos restantes elementos do grupo) que anos adiante a história dos Beatles ainda ia conhecer não apenas edições com material de arquivo inédito como até mesmo duas “novas” canções… No fundo esta história ainda não acabou…

O primeiro álbum a solo lançado por um dos elementos do grupo em 1970 chegou na verdade ainda antes de ser conhecida a notícia da separação dos Beatles. Era, contudo, e depois de álbuns experimentais de George Harrison e John Lennon (estes coassinados por Yoko Ono). Esse disco representou o primeiro passo em nome próprio de Ringo Starr mas, verdade seja dita, é de longe o elo mais fraco da colheita de discos a solo que 1970 acabaria por revelar. Editado em finais de março, Sentimental Journey, que conta com a ajuda de George Martin, é um álbum de versões de canções que haviam sido referência de gosto na geração dos pais do baterista, entre as quais Night and Day ou Have I Told You Lately That I Love You. O disco convoca vários arranjadores paras as várias faixas, entre eles contando-se Paul McCartney.

O segundo a entrar em cena nesta cronologia foi, a 17 de abril, o disco que lançou a carreira a solo de Paul McCartney. McCartney foi um disco vivido essencialmente a só. Começou por ser trabalhado na casa do próprio músico, tendo depois as sessões adicionais decorrido num estúdio londrino, que o próprio Mccartney marcou sob um pseudónimo. Paul McCartney toca todos os instrumentos e Linda McCartney colabora pontualmente. O álbum foi um sucesso nas vendas, mas não será um candidato a figurar no topo da lista dos títulos de referência da obra a solo do ex-beatle.

George Harrison já tinha editado dois álbuns a solo nos dias em que ainda militava nos Beatles. Em concreto lançara uma banda sonora em 1968 e um disco de música experimental em 1969. Em 1970 foi o terceiro a apresentar um disco em nome próprio. E fê-lo com um álbum triplo no qual juntava composições recentes a outras canções que vinha a acumular desde há já alguns anos. As suas composições apresentadas em álbuns dos Beatles já tinham revelado o seu enorme talento na escrita. All Things Must Pass confirmou em pleno as potencialidades já antes sugeridas. Entre os parceiros de trabalho envolvidos na gravação do disco conta-se Ringo Starr, na bateria.

John Lennon era, dos quatro elementos dos Beatles, o que mais extensa obra a solo tinha já editada quando a notícia da separação do grupo chegou ao grande público. A sua discografia contava já com três álbuns de música experimental, um disco gravado ao vivo em Toronto em 1969 e três singles, entre os quais Give Peace a Chance e Instant Karma, transformados já em casos de êxito com expressão global. Em finais de 1970 foi, contudo ,o último ex-Beatle a editar um álbum pop/rock. Mas fê-lo em nome da Plastic Ono Band, na verdade uma entidade colectiva sem formação fixa onde passaram, além de Lennon e Yoko Ono, figuras como Eric Clapton, Klaus Voorman ou os também ex-Beatles George Harrison e Ringo Starr. Plastic Ono Band, o álbum, é um disco de palavras duras e diretas, acentuando o espírito crítico que Lennon tinha já revelado em canções dos Beatles ou já em primeiras gravações a solo. O disco nasceu na sequência de uma etapa na vida de Lennon na qual o músico se sujeitou à chamada “primal therapy”, através da qual se confrontou com episódios difíceis do passado. Esses ecos emergiram no presente, refletindo-se assim na sua criação artística.

Mas além dos quatro álbuns a solo editados em 1970, o ano que deu a saber da notícia da separação também acolheu a edição de um álbum novo dos Beatles. Lançado em maio de 1970 com o título Let it Be (e não o originalmente projetado Get Back), o disco sempre deixou no ar aquela dúvida: então é ou não o último álbum de originais dos Beatles? Se considerarmos que foi maioritariamente gravado antes de Abbey Road, se calhar não foi… Mas, por ser editado depois de Abbey Road, se calhar até é… Mas se houve sessões de gravação adicionais e misturas feitas depois de editado Abbey Road, a coisa junta mais argumentos para debater… Mesmo assim é um facto encarar Let It Be como um disco que não corresponde ao episódio criativo final dos Beatles. As suas canções, mesmo sem as formas finais, tinham nascido antes das que escutamos em Abbey Road… E terminado o debate do ovo e da galinha, sigamos em frente (e cada um tire as suas conclusões).

Na origem dos trabalhos, que acabariam por surgir em Let it Be, estava um desejo de Paul McCartney em fazer o grupo regressar às origens da sua forma de trabalhar. Em vez de expressar uma vez mais a autonomização criativa de cada um no seio do coletivo, que tinha definido métodos de trabalho nos discos mais recentes, a proposta era a de os voltar a juntar, num mesmo espaço, ao mesmo tempo, para trabalhar em novas canções. A esta ideia juntou-se ainda um extra: o de promover as sessões num estúdio de cinema, com câmaras em volta, permitindo captar os momentos de trabalho e, no fim, poder gerar um documentário sobre a génese do disco…

Juntaram-se assim nos estúdios de cinema em Twickenham, mas a coisa esteve longe de ser pacífica e George Harrison chegou mesmo a bater com a porta (para, contudo, regressar pouco depois). Decidiram então trocar o ambiente dos estúdios de cinema por um espaço mais tranquilo no estúdio de gravação da própria sede da Apple. Os trabalhos continuam e, a 30 de janeiro de 1970, subiram ao telhado do edifício para, ao vivo, estrear algumas das novas canções. Esse episódio faz parte da iconografia de referência da história dos Beatles e foi já citado por outros artistas (como os U2, por exemplo, que em 1987 replicaram a ideia para um teledisco gravado num telhado americano).

As sessões para o álbum, que tinha ainda Get Back por título de trabalho, acabaram, contudo, por ficar arquivadas e o projeto temporariamente suspenso. Gravaram pelo caminho Abbey Road e, só depois da sua edição (e já com um fim assumido), voltaram a pegar nas sessões de Let It Be para, com a contribuição (que gerou debate) de Phil Spector, terminar as canções, acrescentar elementos e fazer a mistura. Let It Be chegaria às lojas um mês depois de conhecida a notícia da separação do grupo…

Longos anos depois (em 2003) uma nova abordagem em estúdio a estas sessões, retirando os elementos adicionais acrescentados pela produção comandada por Phil Spector, gerou uma abordagem alternativa então editada com o título Let it Be… Naked. A história deste disco na verdade não terminou ainda. Se bem que em 1970 tenha chegado às salas de cinema o filme Let It Be, de Michael Lindsay Hogg, usando as imagens captadas em inícios de 1969, a verdade é que, mesmo tendo conhecido depois uma edição em vídeo nos anos 80, nunca este filme teve vida nos suportes da era digital. Para o final do verão está agendada a estreia de Get Back, um documentário novo, assinado por Peter Jackson, que vai partir dessas mesmas imagens (e gravações áudio) para definir um olhar, a meio século de distância, deste capítulo na história dos Beatles.

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