Quem diz que não gosta de filmes musicais, se calhar podia ver… “West Side Story”

Mais do que apenas um feito maior da história do cinema musical norte-americano, West Side Story é um marco cultural do século XX, espelho não apenas das artes que convoca (o cinema, a dança, a música) mas também do espaço social que retrata (a multiculturalidade e a xenofobia na América dos anos 50). Texto: Nuno Galopim

A ideia era a de repensar a medula clássica do Romeu e Julieta de Shakespeare em novo contexto. E sob sugestão de Leonard Bernstein, apontou-se o repensar da trama à Nova Iorque daquele tempo, transformando o jogo de ódios entre as duas famílias de que Shakespeare deu conta num choque entre populações, de um lado os americanos caucasianos de herança europeia, por outro os chegados mais recentemente de Porto Rico, cada um dos grupos representado pelo seu gangue, a luta pelo território – um quase nada pelo qual dão quase tudo – parecendo dar sentido a um quotidiano onde pouco mais parece acontecer. É claro que não faltam o Romeu nem a Julieta. Ele é Tony, americano descendente de polacos e trabalha num pequeno bar. Ela é Maria, porto-riquenha, irmã do líder dos Sharks (o respetivo gangue). Não falta depois o tempero de tragédia e, conhecendo Romeu e Julieta, basta adaptar a ideia ao novo tempo e lugar. Nem é preciso fazer spoiler

A música deu a West Side Story uma alma única e fixou uma identidade. Entre uma série de canções (com letras que seriam todas elas assinadas por Stephen Sondheim) e peças instrumentais, a música de Bernstein revelava as heranças da tradição da Broadway e a formação clássica ocidental do compositor, vincando ainda as coordenadas de tempo, espaço e até mesmo o ambiente cultural em flirts aos universos do jazz e da música latino-americana.

O sucesso imediato de canções como Maria, TonightSomewhere ou America sugeria desde logo o estatuto de standards em que o tempo as transformaria. Ao mesmo tempo, três das sequências instrumentais que serviam de base a algumas das mais célebres coreografias acabavam reunidas numa suite orquestral que – muitas vezes conhecida como West Side Story Symphonic Dances –ainda hoje habita muitos programas de concertos de grandes orquestras (o Mambo, por exemplo, era um “encore” inevitável em concertos da Orquestra Sinfónica Juvenil Simón Bolívar em finais da década dos zeros, quando o nome do maestro Gustavo Dudamel – que gravou e peça no álbum Fiesta! – começava a encher salas pelo mundo fora).

Estreado originalmente em palco, na Broadway em 1957, West Side Story revelava desde logo uma vibração muito peculiar não apenas dadas as características de uma história que parecia, de facto, falar daquele tempo e daquele lugar. A adaptação ao cinema contou uma vez mais com o trabalho exigente do coreógrafo Jerome Robbins, que inclusivamente co-assinou a realização com Robert Wise. Além da música e das impressionantes sequências de dança, o filme reflete ainda um cuidado ao nível da direção de fotografia, os jogos intensos de cores sublinhando os contrastes entre os grupos e lugares, criando uma ideia de encanto característica do palco sem, todavia, abafar nunca as marcas sociológicas do mundo real que definiam o conflito que serve de base à narrativa. O filme deixou um legado marcante. A visão aérea de Nova Iorque na sequência de abertura fez escola. Muitas das canções conheceram depois novas versões e novas vidas (há, por exemplo, uma versão incível de Somewhere pelos Pet Shop Boys que soa a… Pet Shop Boys). E alguns gestos, nomes e frases ganharam expressão em outros, e bem diferentes, acontecimentos mais recentes no cinema, na ficção televisiva, na música.

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