Há 30 anos Madonna entrava em cena para transformar a sua ideia do que podia ser o palco

Foi a 13 de abril em Chiba, no Japão. Era o primeiro dos 57 concertos da Blonde Ambition Tour, a digressão que mudou a forma de Madonna pensar cénica e politicamente o palco. Da digressão nasceu o documentário “Madonna: Truth or Dare” e um filme-concerto, apenas disponível em laserdisc e VHS. Texto: Nuno Galopim

Há um antes e um depois na vida de palco de Madonna. E o momento que define a transição entre esses dois tempos chegou em 1990 com a Blonde Ambition Tour. Arrancou em Chiba, no Japão, a 13 de abril de 1990 e, num total de 57 datas, a última em Nice (França), a 5 de agosto), mudou de forma profunda não apenas o modo de Madonna encarar o palco como mais do que aperas um espaço para apresentar um desfile de canções como vincou, com expressão global, uma voz política e socialmente interventiva, algo que nunca deixou de marcar presença nas digressões subsequentes (e basta lembrarmos o que foi a recente Madame X Tour para reconhecermos que assim foi).

         É claro que já havia antes em Madonna uma consciência do poder da criação de relações com outras artes em palco. A dança, o desenhar de uma ideia de encenação teatral (associando-a a uma narrativa) e o vídeo não eram estranhos aos seus palcos, e na anterior Who’s That Girl Tour notara-se já uma vontade clara em explorar essas potencialidades. Mas a Blonde Ambition Tour, de facto, eleva todas estas possibilidades a um plano mais exigente (e consequente). É aqui que Madonna encontra e fixa a ideia do desenho de um espetáculo como uma narrativa teatral dividida em segmentos. Uma ideia que continuará a trabalhar e afinar em digressões seguintes, trabalhando progressivamente mais afincadamente os momentos de ligação entre partes e a capacidade de, mesmo na diversidade, encontrar um arco temático comum a todo o espetáculo (uma vez mais podemos encontrar a Madame X Tour como a mais consistente narrativa de todas as que alguma vez levou a palco).

         O que havia de novo, então, na Blonde Ambition Tour? Havia uma divisão do alinhamento em cinco blocos (o último na verdade correspondendo ao ‘party number’ habitualmente associado ao encore). O concerto começava por explorar as afinidades plásticas com a memória de Metropolis, de Fritz Lang, que na verdade tinha já sido a matéria prima do pensamento de David Fincher para o teledisco Express Yourself (que abria assim o alinhamento, incluindo citações a Everybody). Seguia-se um segmento focado em temática e imagética religiosa (o que gerou algumas das maiores controvérsias, inclusivamente uma nota pouco elogiosa de João Paulo II e representou), uma outra ligada a Dick Tracy (e vale a pena lembrar que, durante a digressão, é editado o álbum I’m Breathless) e ainda um segmento inspirado pelas linhas da art déco (na verdade sugerido por memórias de filmes de Hollywood do início do século XX). A direção artística foi de Cristopher Ciccone (irmão de Madonna) e o guarda-roupa criado por Jean Paul-Gaultier. Os figurinos usados na segunda sequência do espetáculo (e foi célebre a interpretação de Like a Virgin) ganharam um lugar na história da cultura pop. Das imagens às canções, juntando as entrevistas e reações de Madonna, a Blonde Ambition Tour mostrou ser mais do que um espetáculo musical e visual. Era também um acontecimento político. Expressar uma ideia de “liberdade” era, acima de tudo, a palavra chave em todo o processo.

         Apesar de ser uma das mais marcantes digressões de Madonna, curiosamente a Blonde Ambition Tour é das mais difíceis de encontrar num registo gravado. Madonna só mais tarde associou discos (ou seja áudio) aos filmes-concerto das suas digressões. Mas ao contrário do que aconteceu com as digressões anteriores a esta, nunca a Blonde Ambition Tour teve registo editado em DVD, muito menos Blu-Ray. Houve vários concertos filmados e transmitidos pela televisão (a RTP assegurou uma dessas transmissões em Portugal). O concerto de encerramento foi filmado e gerou a edição em laserdisc Blond Ambition World Tour Live que, de resto, deu até a Madonna um Grammy no ano seguinte. O filme-concerto foi editado em VHS, mas nunca conheceu qualquer outro lançamento desde então.

Maior visibilidade teria o documentário Madonna: Truth or Dare, de Alek Keshishian, que entre nós teve estreia como Na Cama Com Madonna. O filme cruza imagens de palco com cenas de bastidores, não apenas das salas de concerto mas dos próprios espaços de vida quotidiana de Madonna. O filme expressa ainda uma dimensão política abordando (como ainda não era frequente) temáticas queer. O filme está disponível em suportes de DVD e Blu-Ray.

Em 2016 a Berlinale estreou Strike a Pose, de Ester Gould e Reijer Zwaan, filme que narra o percurso posterior de seis bailarinos que acompanharam Madonna durante esta digressão.

PS. Agora que passam 30 anos sobre a Blonde Ambition Tour, não era má pensada a ideia de reeditar (finalmente) em Blu Ray e DVD aquele filme-concerto captado em Nice…

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