Dez discos que definiram o meu gosto – Nuno Reis

Depois do desafio das capas dos discos, novo desafio. Parecido… mas mais substancial. Desafio do Nuno Galopim aceite, ou seja, acrescentar às imagens um pequeno texto que justifique a escolha. No meu caso, nota pessoal, sem grandes adornos teóricos, que não tenho canudo na área. Deixo isso para os profissionais. Texto: Nuno Reis

Sem mais demoras…

Cocteau Twins “Victorialand”

(1986)

Tinha 13 anos quando o disco foi lançado pela 4AD. Duvido que lhe tenha chegado tão cedo, mas não anda longe. A descoberta dos Cocteau Twins foi entusiasmante e altamente contagiosa, perfeita para um pequeno adolescente a querer impressionar. As guitarras de Robin Guthrie, a voz inacreditável de Elizabeth Frazer, diferente de tudo o resto. Perfeito. Victorialand foi, possivelmente, a minha porta de entrada no universo Cocteau Twins. A partir daí, não descansei enquanto não comprei todos os discos, máxis, colaborações. Tudo. Tenho quase a certeza que Lazy Calm – o tema de abertura do disco – foi a primeira canção que toquei na minha estreia na rádio. Tinha 15 anos, na Rádio Comercial da Linha e o programa chamava-se… “A Hora da Lua”. Sim, eu sei… a hora da lua…

Massive Attack “Blue Lines”

(1991)

A ideia era escolher 10 ábuns que ajudaram a formar o meu gosto e a minha educação musical. Blue Lines é sem dúvida um deles, e de longe o meu disco preferido dos Massive Attack. A cena de Bristol apanhou-me no momento certo, estava eu na Xfm… Aliás, acho que apanhou toda a gente na X. Massive Attack, Portishead, Tricky eram presenças seguras na nossa playlist. A audiência não queria nada connosco, mas o que é que isso interessa?! Blue Lines vai flutuando no meu top ten de melhores discos de sempre. Nunca me canso de ouvir temas como Blue Lines, Daydreaming e o emblemático Unfinished Sympathy… uma das melhores canções de sempre!

LCD Soundsystem “Sound Of Silver”

(2007)

Tenho dificuldade em escrever sobre os LCD Soundsystem, porque gosto demais. Já há alguns anos que não havia uma banda capaz de me emocionar tanto. Várias razões: James Murphy é o maior, as letras que escreve (mesmo que ele as desvalorize) têm tudo a ver com gajos da minha idade, e a combinação de rock e música de dança infetam (positivamente) cabeça e corpo. Roubando o nome do programa de rádio do meu amigo Rui Vargas… é música com “pés e cabeça”. Escusado será dizer que adoro os álbuns todos, sem exceção, incluindo o último, pós-separação. Escolho Sound of Silver porque me parece encontrar os LCD no auge, no pico de forma. É discutível, naturalmente. O que não é discutível é que o alinhamento inclui, seguramente, uma das melhores músicas de sempre: All My Friends. Arrepio-me sempre que a ouço. Se for ao vivo no Coliseu em 2019… vem lagriminha.

Pop Dell’Arte “Free Pop”

(1987)

Lembro-me bem de comprar o álbum de estreia dos Pop dell’Arte. Tinha o máxi Querelle em cassete – que ouvia fervorosamente – e quando chegou o LP, foi ouvido vezes sem conta na alta-fidelidade lá de casa, até quase conseguir enlouquecer a minha mãe. Tinha 14 anos, tudo aquilo me soava a novo, fora de tudo. Obviamente, faltavam-me as referências para absorver tudo o que a banda do João Peste tinha metido em cada faixa do disco, mas passei a seguir os Pop Dell’Arte com entusiasmo, apesar de carreira errática do grupo. Juntamente com os Mão Morta, são as minhas duas bandas portuguesas de sempre.

Primal Scream “Screamadelica”

(1991)

Outro disco incrível de 1991. Terceiro disco dos Primal Scream… a surpresa total, para quem já os seguia desde o álbum de estreia. Lembro-me que muitos amigos meus (incluindo colegas da rádio) ficaram chocados, uma traição à causa indie-rock. Para mim, foi mais um disco a puxar-me para os territórios da música de dança, neste caso, com todo o psicadelismo rave e acid-house à mistura. Bobby Gillespie aproveitou a embalagem de bandas como os Stone Roses, e tratou de combinar as guitarras e a club culture, num disco que realmente foi uma “pedrada no charco”… (perdoem o lugar comum). Músicas longas, loops intermináveis, quase místicos. Loaded e Come Together ficam para sempre. Deviam tocar mais nas discotecas.

Echo & The Bunnymen “Heaven Up Here”

(1981)

Ora cá está uma banda que segui com devoção desde os 13 anos (para aí). Tinha posters na parede, letras coladas nos cadernos, os discos todos, letras de cor. Ian McCulloch era pouco mais do que um deus para mim… e sim, tive o cabelo igual a ele, durante vários anos. Heaven Up Here não foi o primeiro disco que comprei dos Echo, mas aquele que gosto mais, seguido de perto por Porcupine. Não é um disco carregado de hits, como acontece com outros discos da banda, mas sempre adorei a energia do disco, temas mais sombrios (quase góticos), com momentos mais elétricos de guitarras em fila. Depois, existem pérolas como A Promise, All My Colours e o próprio Heaven Up Here. Um disco quase perfeito, nada datado.

Laurie Anderson “Big Science”

(1982)

Descoberta mais tardia na adolescência. Não direi nada sobre Laurie Anderson que já não tenha sido escrito um milhão de vezes. A originalidade, a estranheza, a eletrónica, as palavras, as histórias. Ouvi Big Science vezes sem conta, decorei todas as palavras e, graças a ele, cheguei a United States, a extensa performance de Laurie Anderson que serviu de base ao disco. Disco fundamental para me levar para outros territórios musicais, fora da pop/rock, próximo da música contemporânea e, sobretudo, da música eletrónica.

Jesus And Mary Chain “Psychocandy”

(1985)

Um dos discos com impacto mais profundo na minha juventude e, em consequência, no meu gosto musical. Psychocandy aterrou no meu gira-discos como uma bomba e teve efeitos devastadores, no bom sentido. Dois irmãos que pouco tocavam, uma bateria minimal, noise e feedback com fartura, atitude punk e anti-social… tudo perfeito para um puto de 15 anos. As canções são curtas, no fio da navalha, alimentadas por uma pose que se mantinha nos concertos da banda, que tive a sorte de ver em Lisboa, ainda teenager. Obviamente, imitava tudo o que podia do universo Jesus And Mary Chain, nomeadamente o cabelo do William Reid, e as camisas às bolas de Bobby Gillespie. Mais tarde, já na rádio, furava as playlists sempre que podia com um tema ou outro, Just Like Honey à cabeça. É, sem discussão, o melhor álbum dos Jesus, e resiste na boa à implacável prova do tempo… já os outros discos deles…

Beastie Boys “Ill Communication”

(1994)

Os Beastie Boys são os maiores… está dito! Não é fácil eleger um álbum favorito, mas a verdade é que, mais uma vez, por influência da rádio, sou forçado a confessar que Ill Communication ocupa um lugar especial no meu top de álbuns favoritos. Em 1994, quando os Beastie lançaram o álbum, estava na Xfm e foi aí, da forma mais inesperada, que ficámos a conhecer o novo álbum do grupo. Os Cocteau Twins estavam em Lisboa, para tocar no Coliseu e, por artes mágicas, a Isilda Sanches conseguiu arrastar o Robin Guthrie para os estúdios da X. Resolvemos fazer uma emissão especial com o homem, um misto de conversa e música escolhida por ele. Quando chegou a altura de fechar a entrevista, o Robin disse que queria passar uma coisa nova, que iria ser lançada em breve, que uns amigos lhe tinham enviado em cassete. Uma surpresa! Tudo preparado, despedimo-nos e metemos a música. Era Sure Shot, a faixa de abertura de Ill Communication, num rigoroso exclusivo mundial da Xfm… bem, pelo menos nacional, foi de certeza. Para além da história, é inegável que é um dos melhores discos dos Beastie Boys, carregado de clássicos, num regresso às roots do hip-hop nova-iorquino.

Steve Reich “Music For 18 Musicians”

(1978)

Steve Reich é o meu compositor favorito. Nunca me esquecerei dos dois concertos inesquecíveis a que assisti na Gulbenkian, no final dos anos 80, numa retrospetiva da obra do compositor americano, interpretada pelo Reich Ensemble, com a presença do próprio. Music For 18 Musicians foi uma das obras que passou pelo Grande Auditório da Gulbenkian e, se não estou em erro, o primeiro disco que comprei de Reich, depois de a ter ouvido pela primeira vez no programa “Musonautas” do Jorge Lima Barreto, que seguia religiosamente na Rádio Comercial, uma vez por semana, logo a seguir ao “Som da Frente” do António Sérgio. O ritmo e a percussão são centrais em toda a obra de Reich, e não espanta, por isso, que a sua influência se estenda muito para lá dos territórios da música contemporânea, contaminando várias áreas da música pop, sobretudo, a música de dança e eletrónica. Para mim, é um génio da música. A minha homenagem semanal acontece no meu programa na Antena 3. O indicativo é feito com uma música dele.

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