Mariah Carey, “The Emancipation of Mimi” (2005)

Em 2020, o Domingo de Páscoa coincidiu com os 15 anos da grande ressureição pop da última década. Um filme desastroso deixou a música de Mariah Carey, crucificada pelos tablóides, para segundo plano. The Emancipation of Mimi foi a sua estratégia de regresso: um álbum entre a soul dos anos 70 e o novo R&B que a devolveu ao topo das tabelas. Texto: Pedro João Santos

Uma vez por ano, as Torres Gémeas voltam a desmoronar-se: é a memória que recrudesce a cada 11 de setembro. O terror fraqueja com o tempo, mas as imagens de uma Nova Iorque desfigurada despertam na humanidade a mesma alienação de há quase 20 anos. Milhões de olhos sintonizados nos diretos televisivos; caras frígidas perante as labaredas que consumiam os arranha-céus. Uma das câmaras imortalizou a rapidez com que tudo o resto se tornou frívolo: o momento em que parte do caos é tapado por um cintilante outdoor de Mariah Carey.

Não há susceptibilidade que trave o sentido de humor pós-moderno (neo-dadaísta?). O ridículo da situação, mesmo que não cure o trauma, congela-o pela duração de um riso. Se José Figueiras está farto de ver o seu nome ao barulho, que dizer de Mariah Carey, apanhada em tempo real com um sorriso sedutor? As probabilidades de lançar um disco no dia de um ataque terrorista, aproximadamente um infinitésimo, calharam a uma das vozes campeãs dos anos 90 ao entrar no novo milénio. A infeliz publicidade reportava-se à empreitada Glitter: um álbum desdobrado em banda sonora, nascido do filme homónimo, um musical em que Carey se estreava como atriz — a pior do ano, por unanimidade da má língua — e piada nacional.

Como uma tragédia nunca vem só, destinou-se a Carey um dominó. Haverá receita mais sacra para o fracasso do que um projeto a preço de ouro coincidir com uma catástrofe mundial? O feito custou-lhe um colapso mental, a dissecação mediática (muito antes da empatia ser o paradigma) e a perda de um contrato com a Virgin Records, que lhe indemnizou 28 milhões de dólares para terminar um contrato no valor de 100. Apesar dos esforços retroativos dos fãs, o boogie revivalista de Glitter permanece a pária na discografia da artista; quanto menos dito sobre o filme, melhor. Seguiu-lhe a morna introspeção de Charmbracelet, sem película a acompanhar, consolidando a sua decadência comercial. O barco virou? Se virou.

Os anos 2000 ameaçaram as divas com uma desfolhada. Madonna censurou o sonho americano, no dissonante American Life, e derrapou das tabelas de vendas; Janet Jackson, desnudada em direto por Justin Timberlake, foi banida das rádios e seguiu a trajetória da colega. Quem cai em desgraça, no jogo da pop, não se apoquenta: basta planear a tática de reversão, e apenas a embaixadora da Rhythm Nation demorou mais tempo a recuperar o fôlego. Para o célere renascimento da senhora Ciccone, bastou o urro vencedor de “Hung Up”. Menos pressa teve Carey, que lançou “It’s Like That” como um acepipe de festiva elegância, na toada minimalista que vivia no R&B contemporâneo. Quando lançou o segundo single, o mundo recebeu-o como ambrósia.

Construída com graves e estalos, como uma demo glorificada, “We Belong Together” é uma lição em como escrever uma balada pop — estilo que, à época, ainda era recompensado. Foi o pontapé de saída para The Emancipation of Mimi, o décimo monólito da sua carreira, em março de 2005. Vendeu como pão quente, anunciado com um título ridiculamente pomposo (intitulá-lo The Emancipation of Mariah Carey seria demasiado, opinou o fabuloso rouxinol) e os tons dourados da capa. A pose altiva de potestade adequava-se ao mantra de libertação, trabalhado com o produtor Jermaine Dupri (requisitado em 2006 por Jackson), no êxito impassível de “Shake It Off” e na galante “Get Your Number”. Unida à equipa de Pharrell Williams, Carey continuou a burilar uma nova leviandade, tanto na batida sincopada de “Say Somethin’” quanto na malha dormente de “To the Floor”. É um dos raros casos em que os Neptunes não moldaram um longa-duração, apenas se juntaram à mistura.

O desenho global do álbum remou mais perto de “We Belong Together”, no que diz respeito ao ‘morrer de amores’ melismático. Emancipation fugiu do R&B presente, caseiro e de baixo risco, e procurou refúgio nas quenturas da soul setentista. Quis-se um estado de coisas “mais cru”, afirmou Carey, aceso pela gravação ao vivo das baladas, num encontro simultâneo com a banda. A quarta faixa na fila, “Mine Again” desfaz o trio inicial de grooves maquilhados, por via de um lampejo organístico e da estática do vinil. Um ideário revivido pela guitarra rítmica de “One and Only” e transladado para “Stay the Night”, poeirenta por estética — cuja produção de Kanye West é uma degustação do seu segundo LP, Late Registration, lançado no verão desse ano.

As cantilenas retro prolongam o apetite intimista (sem o isco para tablóides) de Charmbracelet. Todavia, onde o antecessor equalizava as suas canções numa massa inerte de som, Emancipation vive do dinamismo sónico. Os coros e a bateria reativa dão vida à redundante “I Wish You Knew”; a harmonização justifica o quilómetro desnecessário de “Joy Ride”. Fabrica-se uma fantasia em que Carey, de Shure SM58 em riste, se rodeia dos seus músicos suados; onde se respira a acústica do estúdio, sem espaço para presets e click tracks. As regras vigoram até ao último segundo: o triunfo de “Fly Like a Bird” recicla as melodias e os sopros de “Subtle Invitation” — a melhor faixa do trabalho anterior, uma carta passional com a sugestão de estar a ser cantada num clube de jazz. O reajuste gospel esconde essa origem, volta a paixão exterior para uma alma agora radiante, onde a voz a levar.

Qualquer álbum de “Mimi” pós-2000 serve de check-up ao seu instrumento primário. “O que aconteceu a Mariah Carey?”, a pergunta ouvida depois de qualquer performance viral, não é uma inquietação recente. Já em Charmbracelet o timbre emblemático perdera alguma da clareza e maleabilidade dos anos 90. As transições melífluas entre registo de cabeça e peito passavam a ser turbulentas; o assobio, antigamente usado com parcimónia, tornava-se um enjoo decorativo. Três anos depois, Emancipation documentava a luta de Carey com a suamaturação vocal. “Fly Like a Bird” antecipou o estilo em que acabou por encontrar conforto (no escorreito Caution de 2018): um meio-termo entre o sussurro e o registo agudo, que relega as acrobacias para o desfecho.

A parte de leão do disco não seguiu esse tubo de ensaio. Carey divaga por grandes façanhas e improvisos até ao ponto de saturação: fascinante porque parece a tentativa de superar uma prova de mortalidade, lamentável no que toca à experiência de ouvinte. Um refrão a plenos pulmões como o de “Mine Again” é exigente; o de “Circles”, sem pausa para respirar, é doloroso. “One and Only” e “Stay the Night” perdem por testar a extensão vocal de Carey, insatisfeitas com serem algumas das evocações modernas mais suaves a Bobby Womack (com créditos no livrete) ou Roberta Flack.

Não só um calvário, o ar de primeiro take dá a Emancipation o seu encanto: destacar-se-ia na discografia de Carey pela matiz revivalista, se não fosse o álbum do grande regresso. Os louros são do departamento da composição, a que a artista preside: Thom Bell e Linda Creed, dupla pioneira no soul de Philadelphia, são minoria num disco populado pela então-elite do R&B, como Manuel Seal ou James Poyser dos Roots. Este foi um de três blockbusters em que Bryan-Michael Cox, mentorado de Jermaine Dupri, deixou pegada, depois da vitória de Usher em 2004 (Confessions) e antes do regresso de Mary J. Blige em 2006 (The Breakthrough). E, claro, Pharrell. O polvilho substantivo de pop — no seu melhor, o sample de Imagination que dá corda a “Get Your Number” — entremeia a seriedade do resto do longa-duração, e justifica o seu valor 15 anos mais tarde.

As platinas e os Grammys cristalizam o 2005 de Mariah Carey: a última vez, sem ser Natal, que imperou sobre o mundo. Importa não descurar o papel do álbum na constelação do sucesso mais mensurável. Esse, sempre fugaz, Carey tentou manter cativo no resto da década, em trabalhos plásticos e sem legado, como E=MC² de 2008 e Memoirs of an Imperfect Angel de 2009. A segunda emancipação só começaria em 2018, precisamente com o seu disco mais resoluto em anos, Caution.

The Emancipation of Mimi foi um golpe de mestre. Apostou a maioria das fichas na medula sonora, a outra nos tiros infalíveis que a devolveram ao cume da indústria. Pouco tempo volveria até que caísse, roubada da relevância musical e dissolvida nas futilidades de celebridade. Mas Carey sabe-o melhor que ninguém: por cada brilharete, há sempre algo mais mórbido à espera de uma diva.

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