Em busca de espaços para a voz, segundo Agnes Obel

O quinto álbum da cantora dinamarquesa, que faz a sua estreia na Deutsche Grammophon, é um mundo plácido de canções belas e elegantes, feitas de uma atenção ao detalhe e com uma rara capacidade em definir um espaço em torno da voz. Texto: Nuno Galopim

É dinamarquesa e cresceu numa casa em que um pai colecionava instrumentos (tinham xilofones, contrabaixos) e uma mãe tocava, ao piano, peças de Chopin e Bartók. Estudou piano, colaborou num dos primeiros filmes de Thomas Vinterberg, tocou em bandas, trabalhou num estúdio de gravação e desde 2005 encontrou em Berlim um ambiente de trabalho que lhe pareceu mais estimulante que o de Copenhaga. Aos 31 anos apresentou-se finalmente em disco em nome próprio com Philharmonics, que cativou os dinamarqueses e criou primeiras ressonâncias para lá daquelas fronteiras. Aventine (2013), o seu segundo álbum, parte onde esse primeiro disco a deixou e leva-a ainda mais longe, definindo um caminho coerente que teve depois continuidade em 2016 no álbum Citizen of Glass. Há dois anos assinou pela Deutsche Grammophon e, nesse mesmo ano, assinou a curadoria de um volume da série Late Night Tales no qual juntou música de, entre outros, Henry Mancini, Alfred Schnittke ou do compositor contemporâneo norte-americano David Lang. Myopia é, agora, uma nova etapa de um mesmo processo mas que, tal como o título sugere, opta por deixar desfocado o mundo ai seu redor para se concentrar com outra nitidez num labor sobre o detalhe das pequenas coisas. É uma miopia que não a impede de ver. Mas que a foca e dirige… E assim nasce um disco notável.

Tal como os seus discos anteriores, também Myopia nasceu em sessões noturnas no seu estúdio caseiro em Berlim. O piano (tocado pela própria Agnes Obel) e o violoncelo (por Kristina Kopecki) são elementos centrais na definição de linhas às quais se juntam outros instrumentos e, claro, a voz. Mas mais do que nunca há aqui uma exploração do sentido de espaço que, mesmo com as devidas diferenças, acrescenta a um quadro de referências anteriores (que iam de Kate Bush a Tori Amos, passando por uma Virginia Astley), as explorações cénicas que escutamos na música de uma Julianna Barwick (porém segundo caminhos que não procuram a mesma densidade textural). E é na definição desse espaço que nasce uma noção de pop de câmara, necessariamente distinta da exuberância de um Rufus Wainwright ou Neil Hannon. Há uma busca de placidez, uma nitidez no detalhe nunca ofuscado por acontecimentos em demasia.

Corre, no discurso crítico sobre este álbum (e quantas vezes as frases que navegam pela Internet se colam aos textos uns dos outros, repetindo ideias e imagens até à náusea), uma ideia de que Myopia é um disco para ouvir sozinho. Um disco de solidão. De solidão? A profusão de instrumentos impediu que o fosse desde logo na hora da gravação. E a fruição desta placidez não nos obriga necessariamente ao isolamento. Pelo contrário (e cada um reage de maneira diferente perante os estímulos), reajo a Myopia como sendo um disco que nos pode assegurar alguma paz enquanto vivemos confinados. Porque nos foca. Uma miopia necessária antes de podemos voltar a ver (e viver) mais longe. Mas não necessariamente uma miopia solitária. De resto, a própria Agnes Obel explicou já que o disco foi fruto de uma dialética entre a confiança e a dúvida e nasceu quando ela mesma procurava olhar para além do túnel à sua frente. Além disso pensou-o como um espaço que pudesse despertar várias reações e não necessariamente impor a sua subjetividade a quem ouve a música. Podemos por isso partilhá-lo (no fundo é o que tento aqui fazer). É íntimo. E introspetivo. Ambas são realidades no domínio do pessoal, mas não são de todo sinónimos de solidão.

“Myopia”, de Agnes Obel, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Deutsche Grammophon

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