Jean Michel Jarre “Os Concertos na China” (1982)

Editado em 1982 o álbum ao vivo entre nós lançado como “Os Concertos na China” é um retrato da digressão de cinco datas que levou Jean Michel Jarre a Pequim e Xangai em outubro de 1981, e que dele fez o primeiro músico pop ocidental a tocar no país. Texto: Nuno Galopim

Houve primeiro um convite oficial. Depois longas negociações. Até que, a 15 de outubro de 1981, acompanhado por uma comitiva de 70 pessoas (e cerca de 15 toneladas de material), aterra em Pequim. Os primeiros dias na capital chinesa são tensos e intensos. Há um choque cultural na forma de trabalhar e a constatação de problemas técnicos a resolver. Aqui há, sobretudo, questões com o fornecimento de energia, que não é suficiente para a maquinaria envolvida. Houve até interrupções durante o primeiro concerto e diz-se que alguns bairros da cidade ficaram privados de energia para que aquela noite pudesse ser vencida.

Era a primeira vez que um músico pop ocidental visitava e atuava na China. Poucos anos depois aos Wham! caberia o protagonismo de uma segunda digressão. Na verdade a tour chinesa de Jean Michel Jarre envolveu apenas cinco atuações, duas delas em Pequim (a 21 e 22 de outubro) e as três seguintes em Xangai (nos dias 26 a 28 do mesmo mês). O primeiro dos cinco concertos foi em tudo diferente dos demais. A plateia era feita de convidados (sobretudo militares) e por isso o próprio Jean Michel Jarre fez questão de oferecer bilhetes a cidadãos na rua para as noites seguintes. A primeira noite foi afetada por problemas técnicos e viveu um alinhamento mais curto, envolvendo duas partes do álbum Oxygène (1 e 2), uma de Exquinoxe (8), duas de Les Chants Magnétiques (1 e 2) e o arranjo novo para Jonques de Pêcheurs au Crépuscule, tema partilhado entre a banda do músico francês (de quatro elementos) e uma orquestra chinesa. Esta ideia de procurar cruzamentos culturais ou refletir o próprio momento que de vivia levou à estreia em palco, nas noites seguintes, de outros temas inéditos, nomeadamente Apregiateur, Harpe Laser (criado para uma harpa laser que ali surgia pela primeira vez), Nuit à Shangai e Orient Express. Este último seria editado em single, o mesmo acontecendo com Souvenir de China, tema composto já depois do regresso a França e que seria incluído (em gravação de estúdio) no final do alinhamento do álbum Les Concerts em Chine que faria o retrato desta digressão. Salvo a noite de abertura, os temas de Oxigène saíram do alinhamento, ficando os quatro restantes concertos concentrados sobretudo em Les Chants Magnétiques (editado nesse mesmo ano) e nos temas novos, juntando ainda algumas incursões por Equinoxe. Os registos ao vivo (disco e filme) não mostram o momento em que Michel Gleiss, um dos técnicos da equipa de Jean Michelle Jarre, a meio de um dos concertos pegou num acordeão para tocar Sous Le Ciel de Paris.

O álbum Les Concerts em Chine, editado já em 1982, não traduz exatamente uma reprodução de fio a pavio de um dos concertos da tour chinesa. O disco, editado originalmente em formato de álbum duplo, junta de facto gravações captadas ao vivo durante os concertos (muito provavelmente entre a segunda noite em Pequim e, mais certo ainda, na etapa vivida em Xangai). Mas junta-lhes depois um trabalho de sonoplastia que envolve ainda alguns sons captados juntamente com as imagens para um documentário que começou por ser transmitido na televisão (a RTP passou-o em 1982) e depois chegou a ter edição em VHS em França, Espanha e no Reino Unido. O documentário não corresponde a um filme concerto, embora envolva muitas das faixas que escutamos no disco. Inclui momentos captados durante os concertos, mas soma episódios de bastidores (as chegadas a Pequim e Xangai, as montagens dos palcos, caminhadas nas ruas, visitas e momentos “oficiais”) e acrescenta ainda várias imagens de arquivo que constroem uma visão histórica do momento vivido (mostrando velhas imagens de uma China antiga, representações da China através do cinema ocidental, depois iconografia da revolução cultural e ainda episódios de diálogo com o ocidente, entre as quais a mítica visita de Nixon). Sempre que vejo estas sequências, desprovidas de contextualização falada, fica no ar um travo a propaganda (para a qual cada um aplicará os filtros que bem entender).

Em Portugal o álbum foi lançado com uma capa com título em português – Os Concertos na China – e o impacte foi tal que o disco chegou a alcançar o primeiro lugar na tabela de vendas. As edições em CD surgiram originalmente no formato de disco duplo, havendo mais recentemente lançamentos que condensaram os cerca de 78 minutos da gravação num disco só (reduzindo alguns momentos de aplausos). Há reedições em CD que dividem o álbum duplo em dois volumes separados, um com capa amarela e outro com capa azul.

Foram extraídos dois singles do alinhamento de Les Concerts em Chine. Um deles apresenta Orient Express no lado A e Equinoxe IV no lado B. Um segundo single destaca a versão em estúdio de Souvenir de Chine no lado A e junta no lado B Jonques de Pêcheurs au Cépuscule.

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