Dez discos que definiram o meu gosto – Tiago Ribeiro

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Tiago Ribeiro.

Pensei por diversas vezes no pressuposto, Tiago, e qual foi mesmo o primeiro disco que te chegou às mãos? A memória é tão nítida e envergonhada que, em toda a vez de pensamento, encarrego uma borracha mental para desfazer a pergunta até à próxima vez em que seja útil fazê-lo e voltar à apagar. A compilação Bomba Latina foi um erro de iniciação que só a sua capa poderia contradizer. Descartando as pequenas zonas nublosas, todos os discos-salvação que poderei elencar têm por método a combinação de número de execuções e a necessidade de memória a que a nossa própria existência deve responder. Os nossos discos querem-se muito, e, pensando para comigo, que dirão eles de nós mesmos que os escolhemos? Texto: Tiago Ribeiro

Fausto Bordalo Dias, “Por Este Rio Acima”

(1982)

Este disco chegou-me através da ligeira, mas muito complexa, estante de meio corpo da casa de uma amiga da minha mãe. Parávamos lá tantas vezes quanta era a vontade da minha mãe fumar cigarros às escondidas. A minha falta de vergonha já nesse tamanho de idade abriu-me conta em boas reservas de memória. Antes de saber qualquer coisa que fosse, foi a capa que me entrou olhos-dentro. Inquietava e parecia execução de pouca paciência de quem podia pintar bem melhor. Tinha peixes voadores, uma montanha em camadas de cores que me lembrava uma mesma camisola e soltava como que um barulho olhando-se. Eu tinha pouco mais que cinco, seis anos e ainda levava um bom tempo até narrar a primeiríssima vez dessa escuta: até comprovar que estava diante da obra das obras, tinta primária a partir do qual se podiam escrever (todas as outras) cartas à língua e história deste nosso povo.

Jorge Palma “Só”

(1991)

Ainda não sai da casa da Ana, a melhor amiga da minha mãe. O quarto tinha pouco mais de vinte metros quadrados e dois pequenos e cansados sofás que se curvavam ligeiramente ao chão. Quando a ansiedade de querer sair dali me dava tréguas, deixava aquela estante me fazer cócegas à curiosidade. “Oh Ana, posso pôr este CD a tocar?”. Era um discman da Sony que, à saída para os auscultadores, tinha um par de colunas pequenas e convictas. O piano vinha ao longe tal qual se deve abrir uma persiana ao esplendor. Brilhava isto que se ouvia, Estrela Do Mar abria a mais luminosa das obras dessa década, talvez, a minha primeira tentação para me juntar a um piano. Não tinha mais que 6 anos, nunca mais tive mais que essa idade ao ouvir este disco.

Vladimir Horowitz “In Concert”

(1967)

O piano é a linha-guia com que procedo às leituras mais atentas de canções, sempre foi o meu instrumento preferido e, por culpa de discos como o do Palma, acabei por tropeçar sete anos da minha vida numa formação que, hoje, me parece essencial, mas em justiça de seu tempo, foi demasiado prolongada e, até, sôfrega. Ficaram as jóias desse tempo de formação, as conversas sobre tudo em seu redor, a cultura clássica inventada e em permanente exercício de elaborar o melhor mundo. Horowitz é um judeu carregado de controvérsia, sucesso, depressão e exílio dentro da sua inexplicabilidade nata. Um russo perpetuado pelo seu enorme génio e imensas gravações que hoje nos chegam para contar essa imensa aventura das suas seis décadas de carreira pelas 88 teclas. Volto insistentemente a essa série de três concertos de 1966 na sala nova-iorquina, e ai compilada em duplo álbum.

Amália Rodrigues “Amália na Broadway”

(1984)

Aproveitando a residência nova-iorquina, várias vezes me perguntei quão astral foi Amália Rodrigues aos olhos dessa sua chegada ao mundo todo, e à América em particular. Que curiosidade despertava a música que ela representava? Ouvindo-a acabo repetindo um rendilhado de perguntas que, habitualmente, vai para pouco sítio lógico que se preze. Dessas longínquas estreias em disco por terras do tio Sam,em 1954, e do qual nunca pus ouvido que fosse nesses registos, a enormíssimos concertos puxados à lembrança de tantas e boas biografias suas, onde se destaca o concerto de 1966 no Lincoln Center. Esta é a minha morada de paixão e também tardiamente descoberta. Parece um trabalho de alguém que fica deslumbrado com o sítio que visitou, os amigos que fez, as músicas que ouviu. O risco e a novidade aqui impressas neste lote de standards do jazz sempre me levaram a essa cidade sem mesmo (à altura) a conhecer sequer. A música é todas as vezes essa primeira e inesquecível porta-de-embarque.

Vários “O Barco e o Sonho – Balada do Atlântico – Xailes Negros”

(1989)

O riquíssimo espólio de produção televisiva nos Açores, de onde sou e onde passei 25 dos meus 30 anos de vida, é uma das mais presentes características da identidade regional. A televisão foi o instrumento predileto na produção histórica da literatura e do retrato tradicional dos viveres dessa vida insular.  Não há quem escape a essas repetições, de quando em quando, na televisão regional e, dai, retire algumas das mais belas canções da música tradicional açoriana. Fui também colecionando amigos que nele participam, que nestas novelas participaram também. É impossível não guardar lugar de referência ao Zeca Medeiros, pássaro maior de todos dessa insularidade distinta. Guardo este disco como se guarda uma pedra valiosa de um lugar inestimável, sujo-me dele até mais não poder, também o uso em pronto-socorro de saudades da minha ilha, minha casa.

Beach House “Teen Dream

(2010)

É o disco que mais vezes oiço. É um serve tudo e todas as ocasiões e, até, a melhor causa de todas: não ter motivo de ser para sair estante fora e voltar rodado prato-fora. Não me consigo lembrar com fidelidade sobre quem mos introduziu, sei que antes de ser dono de minha própria cópia já me tinham emprestado esse disco de informações quase nulas pela sua capa totalmente branca, pequenas listas superficiais de índole abstrata. Era 2010 e a edição tinha um plus: um DVD com vídeos-instalações sonoras que apuravam a condição de amar muito este lugar de escuta. Arrisco-lhes o perdão em quase tudo o que fazem de menos bem, mas sobre o que é perfeito desse trabalho, estão –a meu ver – as evocações imersivas, contemplações bucólicas e carradas de sobreposições instrumentais que transformam esta música, tantas vezes, em transe contemplativo. Norway e Walk in the Park seriam os meus sugeridos pontos de partida para a imensa aventura que é descobrir estes dois de Baltimore.

Thelonious Monk “Monks Dream”

(1963)

Não poderia escapar a uma lista de escolhas sem falar da figura que mais repetidas e volumosas coordenadas deixou na minha mesa de secretária, às vezes isso mais ou menos literal. O António Melo Sousa para além de sempre vir carregado de bondade, é um dos seres humanos mais vastos que conheci intelectualmente. A sua vida passou alguns anos por Nova Iorque, estudo de psicologia, desvio para a rádio universitária nessa mesma cidade, o jazz e o infinito lugar dos seus músicos. Privou com astros e eu privei com as estórias infinitas com que dourava o meu tempo enquanto trabalhamos juntos. Os pianistas e os poetas sempre privaram entre nós: podia estender a lista a tantos quanto me lembrasse, a tantos quantos me saíram por contaminação. Mas é a força que imprime na sua música, é a dança e a quase histérica disposição melódica das coisas: nunca soube se era pela forma como arranja, ou se necessariamente pelo plano que tem em aparentar tudo arranjado, o Thelonious Monk e este disco essencial, Just a Gigolo e Body and Soul aparecem-me com frequência dentro da cabeça. Entrevistei, há já uns anos, um seu aprendiz, o Barry Harris – também escritor de importantes momentos do bebop e que recordo com saudade as maravilhosas estórias à volta do seu Mestre: génio e fome tantas vezes de mãos dadas, a benemérita Pannonica e uma América ainda – ai – tão carregada de preconceitos e exclusões.

James Blake “Overgrown”

(2013)

Não sei se há tantos discos que, à tecla do play, digam tanto em tão pouco tempo: sempre me pareceu a música de alguém a quem foi dada ordem de libertação, desaperto de cinto sensorial. Para além de ser um cantor excecional, James Blake é um cantor excecional com particular evocação para a dor, para os lugares de maior penumbra da condição humana. Fá-lo com uma sofisticação induzida pela eletrónica e domínio total nessas texturas dai advindas. Conheci-o através do Diogo, um dos meus melhores amigos, completamente viciado na, então, primeira aventura do londrino Blake. Era inegável o estatuto de hino à melancolia as canções Limit to Your Love e The Wilhelm Scream e as fundições para um lugar, para mim, até então completamente novo e sofisticado. Mas não devo escapar à verdade que foi com Overgrown que o estatuto de disco da vida se deu, também a vida lhe deu motivos de retrato sonoro para tantos lugares nesse 2013. Os discos são também uma oportunidade para o tempo nos dizer de sua lembrança. Tenho tantas sobre este aqui.

Ryuichi Sakamoto “Furyo – Merry Christmas Mr.Lawrence (Banda Sonora Original)”

(1983)

Há precisamente um ano apontava rua fora o dedo o meu amigo Rui com a seguinte frase, ali mora o Sakamoto, conheces? Estávamos em Shibuya, muito próximo do centro de um dos bairros mais agitados da capital japonesa. Como poderia ter esquecido quem era Sakamoto estando em plena terra nipónica. Falar desta banda sonora é, surpreendentemente, desagrega-la da sua vocação imaginética para ai carregar novos motivos, sons e sabores. Saio aeroporto Narita fora, tenho 19 dias para ter alguma coisa que lembrar. Do telemóvel sobra-me o pouquíssimo espaço de memória para possibilidades de fotografias, acesso de internet inválido naquele território e uma lista curtíssima de canções que se diziam capazes de entranhar toda essa experiência. Esta banda sonora estava em casa e eu, ali, devolvi ao Rui, sabes que vives num dos lugares mais especiais do mundo, não sabes?

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