Hedwig: um musical que pisca o olho ao glam rock e a pioneiros do punk

Nascido num pequeno palco de teatro, “Hedwig and The Angry Inch” chegou ao cinema pelas mãos do seu autor. Desde então a peça continua em cena. E nomes como as Breeders, Frank Black, Rufus Wainwright ou os Spoon já gravaram versões das canções que aqui nasceram. Texto: Nuno Galopim

Entre os filmes musicais nascidos em ambiente rock, Hewdig and The Angry Inch é um dos casos mais interessantes nascidos já depois do virar do século. Aqui se cruzam musicalmente ecos do glam rock e dos primeiros passos do punk com uma história com alma identitária sobretudo centrada numa personagem trans nascida no outro lado da Cortina de Ferro mas, depois, com vida (e carreira) nos Estados Unidos. Tudo começou num pequeno teatro em Nova Iorque, com música de Steven Trask e texto de John Cameron Mitchell. Havia várias marcas autobiográficas na trama. O autor do texto vestia a pele de Hedwig, na verdade inspirada numa babysitter alemã que trabalhara em sua casa quando era pequeno. Por sua vez a figura de Tommy Gnosis, igualmente central na trama, aproximava-se por vezes da história dos dias de juventude do autor. A peça estreou em Nova Iorque 1998, chamou atenções e prémios e chegou mesmo a ter uma produção londrina no ano seguinte antes mesmo de ter uma vida no cinema.

            Com o próprio John Cameron Mitchell a assumir a realização, mantendo, contudo, o papel protagonista, Hewdig and The Angry Inch levou ao grande ecrã a mesma narrativa. Ou seja, a história de um rapaz de Berlim Leste que, para dali poder escapar, aceita o pedido de casamento de um militar norte-americano, que contudo o obriga a uma cirurgia de redesignação sexual que não corre muito bem e deixa marcas (daí a polegada “zangada” a que o título alude)… Logo aqui vale a pena notar que há assim, aqui, uma diferença substancial a muitos outros exemplos de expressão de identidade de género retratados em muita da cinematografia queer. A cirurgia (e as transformações que implica) não deixa, contudo, de lançar na figura de Hedwig momentos de reflexão e de debate sobre a sua identidade que, de resto, se manifestam depois em vários momentos do filme.

            Dos tempos vividos em Berlim Hedwig traz uma memória: a do encantamento pelo rock’n’roll que escutava, à socapa, nas rádios transmitidas do outro lado do muro. E quando a vida conjugal (já nos EUA) dá para o torto, Hedwig encontra força na música. Começa por ter vários trabalhos, um deles na casa de um jovem (interpretado por Michael Pitt) com quem se envolve emocionalmente e trabalha canções que este acaba por surripiar, usando-as para construir uma carreira de rock star, apresentando-se então como Tommy Gnosis. O filme, que usa frequentemente o flashback, acompanha sobretudo a digressão que Hedwig faz por bares, diners e lavandarias, passando pelas mesmas cidades pelas quais caminha, ao mesmo tempo, a tour de Tommy Gnosis.

            A música surge naturalmente entre as imagens. Ora porque há canções que ajudam a contar a trama e a explicar as personagens, ora porque outras correspondem a momentos de atuações que vão acontecendo aqui e ali. Em palco, na versão original da peça, havia várias versões de canções clássicas de Bowie, Fleetwood Mac ou Television. Para o filme a banda sonora concentrou-se nos temas originais expressamente compostos para a narrativa e personagens, traduzindo a composição uma evidente vontade em captar memórias do glam rock e também de pioneiros do punk, nomeadamente os Modern Lovers ou Iggy Pop. Muitas das interpretações vocais de John Cameron Mitchell foram, inclusivamente, captadas ao vivo durante a rodagem. As canções foram igualmente registadas em estúdio para a banda sonora que surgiu em disco por alturas da estreia.

            Apesar da boa crítica, os resultados do filme na bilheteira ficaram aquém do esperado. Mesmo assim o seu impacte foi suficiente para transformar a versão de palco num fenómeno de culto, tendo desde então surgido novas produções (em várias cidades). Recentemente o filme teve uma nova edição em Blu-Ray pela Criterion.

Dois anos depois da estreia do filme surgiu Wig In a Box (Songs From & Inspired by the Film Hedwig and The Angry Inch), um disco de tributo às canções do filme. O disco tinha como principal propósito a recolha de fundos a favor da Hervey Milk School, que integra o Hetrick Martin Institute e que recebe jovens queer em programas de educação. Entre várias contribuições as canções que escutamos no filme surgem aqui em versões por nomes como os de Rufus Wainwright, Frank Black, Sleater Kinney, Spoon, Cindy Lauper, as Breeders, Yoko Ono (com os Yo La Tengo) ou Jonathan Richman, entre outros. A criação deste disco deu origem ao documentário Follow My Voice: With the Music of Hedwig (trailer aqui), que depois de 2006 foi exibido em vários festivais de cinema (entre nós o Queer Lisboa).

Aqui podem ver as Breeders a explicar a sua participação neste tributo e a tocar a sua versão de Wicked Little Town.

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