Dez discos que definiram o meu gosto – Isilda Sanches

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é a Isilda Sanches.

Não resumo a minha vida a dez discos, mas se tiver que escolher só dez discos que mudaram a minha vida, podem ser estes. Texto: Isilda Sanches

Laurie Anderson “Big Science”

(1982)

Foi o primeiro disco que comprei e poupei durante algum tempo até conseguir reunir o dinheiro suficiente. Comprei-o sem ter como ouvi-lo, porque a “aparelhagem” ainda demorou pelo menos mais um ano a chegar lá a casa! Foi escolhido de uma lista que também tinha o LC, dos Durutti Column, o Sextet dos A Certain Ratio e um disco dos Duran Duran, e que tinha sido feita com ajuda dos meus dois irmãos mais velhos. De resto, foram eles que me compraram o disco em Lisboa, já que no Sabugal, onde morava, não havia lojas de discos, só vendiam cassetes e algum vinil nas feiras e Laurie Anderson não constava da oferta (eu sei porque uma vez fui espreitar num caixote). Descobri o disco pela rádio, claro, grande parte da minha formação musical e cultural foi feita a ouvir rádio. Acho que passava tanto nas Noites de Luar, do Anibal Cabrita e do Ricardo Saló, como no Som da Frente, do António Sérgio e eu fiquei fascinada à primeira audição de O Superman. Na altura tinha alguma noção do que estava a fazer quando fiz a minha escolha: comprar um disco incrível de música electrónica feito por uma mulher. Isso dava uma certa sensação de descoberta e pertença, aquele “empowerement” de que tanto se fala hoje em dia. Além disso, eu também usava cabelo curto e ver Laurie Anderson deu-me confiança e um pretexto para o (tentar) espetar. Ainda assim, não tinha como perceber quão importante iria ser Big Science. Agora que penso nisso de fora, sinto-me sempre orgulhosa quando digo que este foi o primeiro disco que comprei. Tinha 12 anos! Está-se mesmo a ver a adolescência animada que tive…

Nick Cave “From Her To Eternity”

(1984)

Durante algum tempo fiz colecção de discos de Nick Cave e Bauhaus. Coincidiu com a minha fase pseudo-gótica, mas o interesse pela musica sobreviveu às minhas questões de estilo (ou falta dele). Ainda mantenho uma relação afectiva forte com alguns desses discos ditos góticos, com os Bauhaus, certamente (The Sky’s Gone Ou também foi um dos meus primeiros 10 discos e o Bela Lugosi’s Dead converteu-me ao dub sem que eu soubesse que estava a acontecer). Já agora, esclareço, sinto-me hoje a anos luz de coisas tipo Fields of The Nephilim, ou Mission (que só tive em cassete!). De qualquer modo, o Nick Cave nunca foi gótico, e na altura fazia alguma da musica mais arrojada do universo conhecido e isso interessava-me. Comprei este primeiro álbum de Nick Cave depois do fim dos Birthday Party, sem ter ouvido quase nada, só porque soube que ia sair pelo NME, um dos jornais e revistas estrangeiros que os meus irmãos levavam para casa nas férias. A encomenda foi feita às cegas, mas antes de me chegar às mãos (numas outras férias quaisquer) acho que ainda ouvi algumas coisas no Som da Frente. Eu tinha uma espécie de fixação nos Birthday Party desde que o meu irmão Manuel tinha comprado o Junkyard numas férias de Verão no Sul de Espanha (juro!). A ligação que eles tinham estabelecido com Nova Iorque e Lydia Lunch, mas também com Berlim e os Einsturzende Neubauten, simbolizava uma união de pontos mágica, do ponto de vista de uma teenager geek com aspirações a jornalista de musica. Em From Her To Eternity, Cave é teatral, puro e crú, extremo e orgulhoso disso. Revê Cohen, exorciza os fantasmas de Elvis, berra e estrebucha rodeado de um grupo de músicos espantosos, que além do Neubauten Blixa Bargeld, também tem Barry Adamson, que tinha passado por Magazine, Visage e também Birthday Party. Tenho também o primeiro álbum de Barry Adamson, Moss Side Story, e podia muito bem estar aqui, se em vez de 10 discos a lista fosse de 20 ou 30. Esse foi muito importante para eu dar atenção às bandas sonoras.

Sonic Youth “Evol”

(1986)

Eu já gostava de noise antes de saber que havia noise, mas só soube que gostava depois de ouvir os Sonic Youth e saber da inexistência da cena noise/no wave de Nova Iorque. É verdade que sabia quem era a Lydia Lunch, mas não fazia ideia quem era Glenn Branca. Acho que soube dos Sonic Youth por um artigo do Ricardo Saló (no Blitz?). Eu e muito mais gente, porque, logo depois, estavam no topo do name dropping de todos os que gostavam de musica independente (ninguém dizia “alternativo”, isso só começou a ser moda com o grunge). Quase todos os álbuns de Sonic Youth são bons e eu até podia escolher o Sister, porque tem referências a Philip K Dick, ou o Daydream Nation, que é dos poucos discos duplos de rock que não tem palha para preencher tempo. Este leva mais pontos porque foi de facto o primeiro que tive em cassete e por duas canções em particular: Shadow Of A Doubt e Express Way To Your Skull. Sinto sempre arrepios quando as ouço. Pequena nota. Consegui falar com os Sonic Youth quando eles vieram a Portugal pela primeira vez, ao Campo Pequeno. Fui com o Rui Miguel Abreu, ambos trabalhávamos no se7e, mas eu estava tão atordoada pela situação que nem sei se fiz de facto alguma pergunta. Lembro-me de ficar desiludida por a Kim Gordon não estar e ficar intimidada com a altura de Thurston Moore, mas consegui autógrafos no CD de Goo (não achei importante levar o vinil!?!). No dia seguinte, encontrámo-los a almoçar, e, para minha surpresa, eles lembravam-se de nós!! Queriam saber onde comprar T-shirts baratas…

Crass “The Feeding Of The 5000”

(1978)

Parte da minha formação “ética” vem do punk hardcore. Primeiro descobri os Dead Kennedys (havia o In God We Trust lá em casa, acho que era do meu irmão Alcino, descarreguei muita energia juvenil ao som de Nazi Punks Fuck Off, para mágoa a vizinhança), depois os Black Flag (tenho vários livros do Henry Rollins…), mais tarde Fugazi. Mas os Crass foram um caso mais sério. Ainda tenho algures a cassete que o Pedro Mariz me gravou quando andávamos na Faculdade, no final dos anos 80. Não sei se toca, mas deve estar algures numa caixa. Os Crass representavam o lado bom da força,o espírito diy levado à letra e com coração. Defendiam tudo o que era certo: feminismo, direitos dos animais, ambientalismo, eram anti fascistas, viviam em comunidade, lançavam os seus próprios discos e vendiam-os a preços baixos, tentando criar uma certa ética de mercado. Acho que representavam tudo aquilo que eu gostava de ter feito em determinada altura, mas nunca fiz por falta de coragem. Olhando para trás, não posso dizer que lamente, mas na altura tudo aquilo tinha muito significado… Este disco, que eu só tive em cassete, representa também a memória do Mariz, que morreu no inicio dos anos 90. Foi uma das pessoas mais criativas e extraordinárias que conheci e, nos anos de Faculdade, deu-me a conhecer muita musica, livros e filmes que continuo a guardar como referência.

Underworld “dubnobasswithmyheadman”

(1994)

Já andava em processo de conversão há alguns anos mas este foi o disco que me fez render à musica de dança. O disco da “mudança de paradigma”, digamos assim. Antes eu era uma rock chic, gostava de indie, noise, punk hardcore, coisas arty… Embora a música para dançar sempre tivesse exercido em mim um certo fascínio, não era reconhecido valor intelectual ou factor cool à “música de discoteca”. Mas eu gostava secretamente de todos os hits Disco das festas de ciclo preparatório e gostava dos Duran Duran, e do I Feel Love da Donna Summer e de New Order, Cabaret Voltaire e outras coisas de industrial e ebm que estavam bem próximas da pista de dança. E também acompanhei a cena Madchester. Mas durante grande parte dos anos 80 parecia haver uma desconfiança generalizada em relação a música-que-não-fosse-para-dançar-sempre-no-mesmo-lugar e de semblante crispado. Como se a onda urbano depressiva tivesse metido toda a gente num colete de forças (o pessoal do punk era mais expansivo, mas era tudo ao pontapé, o que além de chato era doloroso…). Diria que Prince começou a mudar isso, porque obrigou a soltar ancas e braços, mas a revolução a sério chegou no inicio dos anos 90, quando muita gente, até vinda do punk hardcore ou do rock, soltou preconceitos e descobriu que podia ser livre e feliz numa pista de dança. Para alguns aconteceu antes, para mim houve dois momentos: O Don’t Fight It Feel It dos Primal Scream, na remistura do Andrew Weatherall, que comprei acho que em 1992, não sei bem porquê (na altura não comprei o Screamadelica, só mais tarde) e este álbum dos Underworld. Dubnobasswithmyheadman teve tremendo efeito em mim. Depois dele só queria ouvir mais techno e ir a raves e ter oportunidades para entoar o Dirty Epic naquela parte “I see christ on chrutches”. Foi também o disco que marcou a minha entrada na XFM. Lembro-me bem de ter ido com o Nuno Carlos à Contraverso buscar discos e este ser um deles. Não tenho a certeza se já estava na rádio ou se estava prestes a entrar, mas as duas coisas ficaram sempre associadas.

Sabres of Paradise “Haunted Dancehall”

(1994)

É mais um disco da Era XFM, e um dos meus preferidos dos anos 90. Na altura Andrew Weatherall era uma espécie de estrela e eu, que já estava convencida desde Don’t Fight It Feel It, comprei Haunted Dancheall sem pestanejar, pouco depois de ter comprado o àlbum de Underworld e de ter lido umas coisas sobre o disco na imprensa britânica que seguíamos atentamente na XFM. Não estava preparada para o que estava lá dentro. Primeiro estranhei, mas depois percebi o jogo das espadas, segui o ritmo e rendi-me sem reservas. Depois disto mantive-me atenta às movimentações de Weatherall que, na altura, já era grande por causa de remisturas para gente como Happy Mondays, Primal Scream ou Saint Etienne, mas que nem por isso deixava de experimentar e desafiar. Não foi por causa do recente falecimento de Andrew Weatherall que me lembrei dos Sabres of Paradise, mas também quero fazer notar isso. Este sempre esteve entre os meus discos fétiche da era XFM e dos anos 90 em geral, tal como Rite to Silencedos Sandals, Rockers To Rockers dos Rockers Hi Fi ou Dummy dos Portishead.

DJ Shadow “Endtroducing”

(1996)

O trip hop bateu-me, confesso. Os Portishead e as coisas da Mo’Wax preencheram o meu gosto por beats lentos e dopados, algo que eu não sabia que tinha até ouvir esse tipo de música. Mas, na altura, tanto se saltava para o meio da pista de dança, como nos arrastávamos para os sofás da zona chill out e, neste ultimo cenário, os beats hip hop desacelarados, eram o embalo perfeito para viagens mentais de pessoas essencialmente preguiçosas, como eu. Também podia estar aqui “Influx”, o máxi de Shadow fundador do trip hop, o tal que saiu na Mo’Wax e foi o primeiro a receber o epíteto trip hop numa critica, mas Endtroducing é mais completo e na altura foi um disco que me abriu olhos e ouvidos, não só para a arte do djing mas também para a nobre actividade do digginEndtroducing é tecnica e amor pela musica. É poético e científico e tem um efeito hipnótico eficiente que convoca memórias e emoções.Só muito mais tarde, já neste século, soube da existência de DJ Screw, o percursor do chopped and screwed que fez glória nos anos 90 com mixtapes de hip hop ao retardador. Falo dele aqui porque foi contemporâneo de Shadow e tinha preferência por beats ainda mais dopados, mas na altura estava fora do radar. Ele também estava em sintonia com os tempos.

Herbert “100 lbs”

(1996)

Levei muito a sério a cena drum’n’bass mas não consigo eleger um disco apenas que me tenha feito gostar de drum’n’bass. Foi mais um continuum. Refiro isto porque, ao mesmo tempo que me convertia ao drum’n’bass, também me convertia ao house e, mais do que isso, interessava-me a atitude desconstrutiva de Herbert, que, se não me falha a memória, chegou à XFM pela mão do Ricardo Saló. 100lbs era música de pista com atitude de laboratório, house com ciência, simultaneamente estranho e contagiante. Por causa de 100lbs mantive-me atenta a tudo o que vinha de Herbert, fosse em nome próprio, como Dr Rockit, Wishmountain, com Big Band ou whatever. Parte do meu encanto com Herbert vem do método e do pensamento, e como consegue conjugar ambos de forma harmoniosa num contexto musical, sem quase nunca perder o pé. Herbert fez discos com objectos domésticos, ruídos de porcos, jornais a serem rasgados e outras fontes improváveis, sempre para discutir questões sérias como alimentação processada, viagens de avião ou o estado da imprensa e do mundo. É certo que algumas vezes concentrou-se mais no conteúdo do que na forma, e isso faz-se sentir mal no resultado final, mas continua a ser um dos músicos e produtores cuja obra e pensamento vale a pena acompanhar. E 100lbs, apesar de feito com a cabeça, é sobretudo musica para dançar e ser feliz. De algum modo, foi também Herbert que me chamou a atenção para house e techno fora do formato habitual e preparou o terreno para gostar de coisas como Luomo (cujo álbum Vocal City também podia estar aqui, se a lista fosse maior).

Alice Coltrane “Journey In Satchidananda”

(1991)

A culpa é das lojas de discos e do meu interesse pelo jazz, que começou a ficar mais intenso na transição do século. A aprendizagem da XFM e o projecto Rádio Oxigénio a dar primeiros passos, também foram decisivos nisto. O jazz estava na origem de muita da música que me tinha interessado nos anos anteriores. Hip hop, trip hop,  drum’n’bass, house, tudo estava cheio de referências e samples de jazz. Talvez por isso os CDs de jazz tenham começado a ficar mais visíveis e num instante chegaram ao saldos, até das grandes superfícies. Comprei vários, muitos da Impulse, quando fui ao supermercado… Comprei Alice Coltrane porque já tinha John Coltrane e uma coisa leva, naturalmente, à outra, mas confesso que não estava preparada para o que encontrei neste disco, mesmo tendo em conta que sempre tive um certo fascínio por harpas. Journey in Statchidananda teve em mim efeito quase mágico, ou psicotrópico-hipnótico. Senti-o (continuo a senti-lo) na pele.  À primeira audição fiquei comovida, senti-me ascender, ficar suspensa no vazio, envolta em luz, um pouco como as ilustrações clássicas de ficção cientifica, com corpos suspensos no cosmos. Foi uma experiência epifânica e ficou para a vida. Este disco de Alice Coltrane tornou-se numa espécie de safe space. Depois disto mergulhei mais no jazz e na figura fascinante de Alice Coltrane. E também comecei a fazer ioga…

Manuel Gotssching “e2 e4”

(1984)

Numa lista de 10, o último é sempre o mais difícil, sobretudo quando tentamos, como é o caso, seguir uma cronologia de descoberta. Por essa lógica, o ultimo tem que reportar aos anos 2000. E porque este século tem tanta música e tanta dela derivativa (não deixa de ser interessante por isso!), resolvi escolher Manuel Gottsching porque simboliza também o meu crescente interesse pela musica do passado e pelas “origens”. Não sou a única, claro, é por isso que o mercado de reedições é tão activo e fascinante. Não tive grande relação com rock progressivo ou krautrock, apesar de ter primos muito dedicados a completar discografias de grupos como Faust ou Tangerine Dream. Na altura, aquilo era, para mim e toda a gente que se interessava por punk e new wave, musica de “adultos freaks” (embora houvesse quem tivesse discos do Vangelis e do Jean Michel Jarre às escondidas…). Não estava propriamente no topo das prioridades. E2E4 nunca me tinha passado pelas mãos e acho seguro dizer que só soube da sua existência no início deste século. Isto apesar de conhecer o hit balearico Suenõ Latino desde aquela altura nos anos 90 em que a cena de Ibiza se tornou massiva e havia colectâneas Cafe del Mar e sucedâneos vários por toda a parte. E acho que também havia um vídeo no Party zone da MTV. E2E4 é uma longa peça electrónica de 58 minutos gravada num só take pelo guitarrista Manuel Gottsching, membro dos Ash Ra Tempel. O disco foi gravado em 1981 e só editado em 1984, sem qualquer resposta digna de nota no seu circuito natural de rock progressivo, mas com impacto futuro inegável na cena de dança. Na cena baleárica original dos anos 80/90, com a versão dos italianos Sueno Latino em 1989, mas também depois. Foi aliás no contexto de redescoberta do baleárico, que começou no início deste século, que este disco de Manuel Gottschning foi recuperado para a gloria que lhe é devida. Ouvindo algum cosmic disco, coisas de Lindstrom e Prins Thomas, por exemplo, percebe-se a ligação a E2E4. E James Murphy tomou o disco de Gottsching como modelo quando fez 45.33…Confesso que descobrir discos esquecidos/desconhecidos é das coisas que mais gozo me tem dado nos últimos anos. Nesse aspecto acho que até estou sintonia com muitos músicos e produtores que fazem música agora…

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