Como as forças de subversão foram mudando a história da música

“Music: A Subversive History”, livro de Ted Gioia, sugere um olhar panorâmico da música desde a pré-história até aos nossos dias através da visão de um autor mais interessado em notar o impacte gerado pelas forças de rutura e de confronto do que as ações ditadas entre as esferas do poder. Texto: Nuno Galopim

Ted Gioia começou por ser crítico de jazz e colecionador de discos mas o seu percurso fez dele um académico sobretudo focado em questões ligadas com a história da música. Agora com 62 anos, apresenta num livro só uma súmula de reflexões que foi fazendo ao longo dos anos, algumas delas já antes expostas em três títulos assinados por si sobre a história social da música. Com o sugestivo título Music: A Subversive History (com uma capa ilustrada com um quadro de Amadeo de Souza Cardoso), este volume de mais de 500 páginas traça um olhar transversal (e cronologicamente arrumado) sobre os caminhos que a música foi tomando desde os tempos da pré-história até aos nossos dias. A sua abordagem procura sobretudo chamar atenção para outros modos de encarar realidades conhecidas ou procurar demonstrar processos de génese e desenvolvimento de ideias, movimentos ou visões que parecem ter em comum uma característica: a subversão face ao status quo instituído… Se tivermos em conta “revoluções” que presenciámos no nosso tempo: do punk ao disco sound, da house ao hip hop, a coisa de facto parece fazer sentido (se bem que, no texto, Gioia pareça ter problemas com o disco e a música eletrónica que não lhe fazia nada mal resolver). O livro pode “provocar” sobretudo os melómanos ou musicólogos com interesses mais focados na música anterior ao início do século XX. Quando aborda o jazz, os blues ou os movimentos folk no século XX as suas teses geralmente parecem coincidir com muitas outras histórias já contadas. Quando chega aos terrenos do rock’n’roll e tudo o que se segue, muitas vezes a coisa sabe a pouco. Mas o mais saboroso da “história” que aqui se conta tem mesmo a ver com o que aconteceu antes de Stravinsky, Debussy ou Satie… E aí a visão “subversiva” que Ted Gioia aqui lança de facto levanta algumas questões… Naturalmente, nada como deixar a coisa no patamar da tese argumentada… Caberá um dia a uma maior concentração de pensamentos neste sentido (ou a sua refutação) uma eventual reconstrução da visão que podemos ter sobre a história da música. Mas a verdade é que Music: A Subversive History é uma leitura bem apelativa… E pelo menos até chegarmos a meio do século XX a argumentação dá, por vezes, que pensar…

                  Logo na introdução Ted Gioia abre uma frente para poder contrariar as “histórias” mais canónicas, afirmando que “os livros de história secundarizam ou escondem elementos essenciais da música que são considerados vergonhosos ou irracionais”, citando como exemplos “as profundas ligações com a sexualidade, a magia, estados mentais alterados, terapêuticas, controlo social, conflito de gerações, instabilidade política, até mesmo violência e assassínio”. E defende que muitas dessas visões canónicas promovem um “branqueamento de elementos chave numa história de quatro mil anos feita de disruptores e insurgentes que criaram revoluções musicais, valorizando em seu lugar assimiladores dentro de um quadro de poder mainstream que vão buscar ideias a essas inovações, diluindo, todavia, o seu impacte e disfarçando as suas origens”. Pelo contrário, continua, “os avanços chegam na forma de provocadores ou insurgentes que não mudam apenas as canções que cantamos, mas os próprios alicerces da sociedade. E quando algo de genuinamente novo e diferente chega à música aqueles que têm posições de autoridade temem essas inovações e tentam reprimi-las”… E quando a repressão não acontece o poder procura depois assimilar os rebeldes, explica, dando como exemplo a visita de Elvis à Casa Branca de Nixon, as insígnias entregues aos Rolling Stones ou ao reconhecimento pela Biblioteca do Congresso de Straight Outta Compton dos N.W.A., banda que chegou a ser “denunciada pelo FBI”, diz o autor… A tese parece fazer sentido. E Ted Gioia sublinha logo a seguir que isto “aconteceu durante as nossas vidas”. O seu trabalho, como aqui se lança, é o de tentar aplicar esta mesma visão crítica a outros tempos e outras músicas. Fá-lo, como ainda acrescenta na Introdução, “sem excluir reis, lordes, papas ou patronos”, confessando-se contudo “mais interessado em camponeses e plebeus, escravos e boémios, renegados e foras da lei”. Acima de tudo Ted Gioia procura aqui mostrar o poder subversivo da música como uma força de mudança social ao longo da história.

                  O texto avança então, acompanhando os passos da história da humanidade desde o início. Notando o surgimento das primeiras relações com os sons da voz ou aqueles produzidos por objetos. Fala de cantos de trabalho, e logo aí há vozes na escravatura que registam páginas nesta história. Fala-se de música militar. O livro aponta depois mudanças importantes nos tempos do antigo Egito, onde emergem as primeiras canções de amor. E por serem muitas vezes entoadas por escravos, acabaram por fixar na história da canção a ideia do estar cativo perante a figura amada. Quem cantava estava, de facto, cativo. A deia da “invenção” da figura profissional do cantor é apontada aos tempos da Grécia Antiga, com notas sobre primeiras formas de comportamento de “estrelas”, com direito a regalias. Debates de género (a coisa da música ser mais feminina ou masculina) entram em cena por esses tempos também acentuando-se mais tarde (já em Roma). E de Pitágoras vem uma noção matemática de ordem musical que faria escola. Da Idade Média Ted Gioia fala de uma ordem musical definida pelo poder religioso que a procura manter firme sob as mais variadas técnicas de opressão. Mas refere que também havia quem a transgredisse, inclusivamente entre figuras do clero. Guillaume de Machaut (1300-1377), um dos grandes compositores medievais (conhecido pelas obras de canto religioso) “também era reconhecido pelas suas canções e poemas sobre amor cortez”, explica o autor (pp. 184). A história da música vive outras contribuições importantes nos tempos medievais, primeiro com as palavras e músicas trazidas por escravos vindos do norte de África e, depois, com a figura do trovador (e o livro repara que não eram apenas os homens quem cantava).

                  As transformações da sociedade no renascimento trouxeram mais sinais de mudança, desde a criação da noção de “êxito” (de uma canção ou peça musical que acaba por ser mais vezes tocada que muitas outras). Com o sucesso surgem novos modelos de comportamento (e atitudes), assim como de relacionamento entre o poder e o músico. Ted Gioia nota haver diferenças na relação do poder religioso e nos comportamentos (afetando a música e os músicos) nas zonas da Europa católicas e protestantes. Mais discutível é a zona do livro em que o autor opta por fazer retratos de Bach (que bebia muito, diz) ou Mozart como figuras subversivas, tentando adequá-los à narrativa que expõe. Dessa época parece bem mais interessante a reflexão que faz sobre o relacionamento entre o poder económico e os músicos, notando como Haydn, por exemplo, não era mais do que um empregado (como os restantes) do seu patrão, quando esteve ao serviço da família Esterházy. Aqui aponta (e com razão) Beethoven como uma figura com outro fulgor de rutura (tanto nos comportamentos como na música).

                  A partir do século XVIII a história “subversiva” aqui narrada nota importantes fontes de disrupção quer no estabelecimento de ligações dos compositores com tradições folk e, mais ainda, com a progressiva criação de focos nos quais as diásporas levam músicas (e narrativas) a outras paragens. O século XIX e o início do século XX estão particularmente recheados de histórias de expressões da diáspora africana entre a música popular americana não tendo faltado, de resto até à eclosão do próprio rock’n’roll, tentativas de secundarização da génese dos fenómenos por parte dos poderes vigentes. Gioia lembra o caso de Scott Joplin, a quem foi atribuído um Pulitzer póstumo em 1976, como alguém que viu, no seu tempo, o ragtime ser encarado como um “veneno virulento” que era “capaz de estragar os cérebros da juventude a tal ponto que se podia levantar suspeitas sobre a sua sanidade”… Onde é que já ouvimos algo semelhante (e várias vezes?)… Ainda sobre Joplin e os dias do ragtime o autor nota que “aquilo era, contudo, o que a América mainstream queria da música negra: o sabor do proibido”. Coube, contudo, aos blues, ao jazz, ao rhythm’n’blues e, depois, ao rock’n’roll, fazer aquilo que Ted Gioia descreve como “a rebelião a chegar ao mainstream”. Essa é já parte da história da música ocidental no século XX. E com ela a reta final de um livro que, apesar da amplitude temporal e geográfica abordada, deixa de fora algumas músicas e culturas. As músicas do oriente (próximo e distante), do Mediterrâneo, do pacífico, dos povos mais distantes… Essa achega e o tirar da pedra no sapato que claramente Gioia tem com o disco, assim como uma maior atenção para com as formas de evolução da música eletrónica, são peças em falta num livro que, mesmo longe de unânime ou completo, não deixa de gerar uns bons momentos de leitura. E de lançar sobre nós algumas frentes de reflexão…

“Music: A Subversive History”, de Ted Gioia, está disponível numa edição de 514 páginas pela Basic Books.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.