Dez discos que definiram o meu gosto – Miguel Ribeiro

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Miguel Ribeiro.

Talking Heads “Little Creatures

(1985)

Foi o disco que talvez tenha contribuído mais para encontrar a minha personalidade e estética musical. Até ao início da adolescência nunca tinha reparado nos Talking Heads. Aliás o primeiro contacto não foi pela música. Atraiu-me a capa do disco, que durante meses, namorei na montra da única loja que vendia vinil em Valpaços. Acabei por recebê-lo no natal. Depois de ouvir aqueles quatro de Nova York, alterou-se para sempre a minha conceção de rock. E David Byrne acabou por se tornar o meu encarregado de educação musical

Air “Moon Safari”

(1998)

O meu amor aos Air foi à primeira vista. A dupla francesa cativou-me instantaneamente com este primeiro álbum de 1998. Na semana seguinte já estava a tentar comprar o primeiro EP “Premiers Symptomes” com o qual se tinham estreado um ano antes. Não havia, tive de encomendar. Fui seduzido pela estética retro futurista, aqueles sintetizadores analógicos anos 70/80. Sentia-me e sinto-me, ao ouvir o disco, a entrar numa capsula do tempo, a viajar até ao universo que Kubrik tão bem soube explorar no filme “2001 – Odisseia no Espaço”. Nicolas Godin e Dunckel são bons caramba! Já fizeram entretanto mais uma dezena de discos e nunca me desiludiram… E como eu antecipava na altura, tornaram-se em criadores de maravilhosas bandas sonoras, exemplo disso a cumplicidade artística com Sofia Coppola. Tenho que dizer que por essa altura amava outros projetos, que de alguma forma se contagiaram, como os Zero7, Groove Armada, 4Hero, Jazzanova, ou Jay Jay Johanson ou Thievery Corporation. 

Bill Evans “From Left to Right”

(1970)

É incontornável! É o meu pianista favorito de todos os tempos. Não consigo passar muito sem tempo ouvir. Vou e perco-me, percorro outros recantos do Jazz e regresso sempre. Ouço em casa, no carro, sozinho, acompanhado. É o meu nirvana, um vício inspirador. Julgo que fez perto de 50 discos, mas cheguei a conclusão que este, de 1970, talvez seja o meu preferido. Tornou cúmplices, de forma majestosa, o piano Steinway e o fender Rhodes. Mas é sempre doloroso destacar este amor no jazz, quando há tantos outros no meu coração. Chet, Nina, Ella, Miles… 

GNR “Os Homens não se Querem Bonitos”

(1985)

Os GNR foi o projeto que me acompanhou ininterruptamente durante a minha adolescência e Rui Reininho revelou-se o meu guru. Foi a primeira banda que vi ao vivo. No mesmo dia das Doce e um dia antes do Heróis do Mar… Muita emoção para um miúdo de 9 anos. Depois havia uma circunstância muito especial que me ligava ainda mais a eles. Tinha dois primos nos GNR, o Alexandre Soares e o Manuel Ribeiro, até maquetes de músicas recebia. Sabia as letras de cor, de todos os discos. O meu preferido, agora à distância é “Os homens não se querem Bonitos”. Mas podia ser também “Psicopátria”. É certo que outros discos e outros projetos nacionais me marcaram… Seria injusto esquecer Mler If Dada, Ban, Xutos, Rádio Macau, Sérgio Godinho e Rui Veloso. Ou Zeca Afonso, José Mário Branco e Fausto que ouvia nas viagens de carro com os meus pais. 

Arcade Fire “The Suburbs”

(2010)

É um disco relativamente recente mas ainda chegou a tempo de se tornar intemporal no meu imaginário. É um disco intenso. Por vezes agressivo, revoltado, outras tantas meigo e pacificador. É um disco de grandes canções, grandes hinos feitos de frases melódicas inesquecíveis, de palavras que nos obrigam a sair da zona de conforto. Gosto desse inconformismo. Fui absolutamente contagiado pela exuberância que a banda destila ao vivo, gosto da ideia de ser parte de um todo, de uma celebração comum. Não é por acaso que se tornou uma das maiores bandas de rock do mundo. Mas neste universo, das grandes bandas indie, não posso deixar de lembrar outras paixões: The National, The Strokes, Radiohead ou The War on Drugs. 

The Smiths “Strangeways, Here we come”

(1987)

The Smiths são incontornáveis na minha geração. São os protagonistas dos hinos da minha geração. Aos 18 anos, ser cool significava ouvir “girlfriend in coma”, usar uns óculos de massa, umas botas doc Martens, umas calças de ganga gastas e uma poupa no cabelo… Basicamente ser uma réplica do Morissey. A sonoridade e estética das guitarras do genial Johnny Marr ainda hoje são uma referência para o rock indie alternativo. Escolhi este que é o último disco, que precedeu o fim, porque foi pelo fim que os comecei a descobrir.    

Pulp “Different Class”

(1996)

Se Jarvis Cocker fosse pastor de uma qualquer igreja, eu seria um dos mais fiéis seguidores da sua palavra. Ele é uma espécie de profeta. Poucos antecipam assim as nossas angústias, poucos escrevem com esta poesia o quotidiano banal, as frustrações dos subúrbios. Poucos abordam com tanta verdade e visceralidade o sexo, as relações, os pequenos nadas. Este disco tem tudo isso mergulhado numa sonoridade onde se sintetizam Bowie, Joy Division ou até Beatles. É um disco elétrico, desassossegado, com canções que terminam em apoteose.Ao fim de tantos anos continuo a ouvir este disco como se fosse a primeira vez. Ao ouvir Pulp, não posso deixar de lembrar os seus contemporâneos que tanto adoro e que tanto definiram o meu gosto, Blur, The Flaming Lips, The Stone Roses, ou The Divine Comedy. 

The Cure “Disintegration”

(1989)

No início dos anos 90 quem, na pista de dança, não era um Robert Smith? Quem não ouviu este disco ou outros igualmente incríveis como “Kiss me, Kiss me, Kiss me” ou “Pornography”? Quem não curtiu uma fossa de adolescente ao som “Pictures of you”? Ou dançou sozinho no meio da rua de walkman nos ouvidos ao som de close to me? Quem nos visse passar, bandos de corvos a esvoaçar pela rua, vestidos de negro, semblantes góticos, revoltados com o simples facto de existir. Essa tristeza visceral ainda me faz feliz.  

Prefab Sprout “Steve McQueen”

(1985)

É um disco que ajudou a cimentar aquele que é o pilar mais pop no meu universo musical. Ficou lá por casa, alguém o deixou e quando eu menos esperava tornou-se parte de mim. Não serei o mesmo romântico se não tiver por perto “When loves breaks down”. É um disco que tem um som integrante típico de bandas do pós-punk inglês dos anos 80, mas mais suave e melódico. Andavam ali no território de outras coisas que eu já adorava e também não posso viver sem elas: The Go Betweens, Everything But The Girl ou Lloyd Cole. 

Jesus and Mary Chain “Darklands”

(1987)

Já cá faltavam as guitarras. Os irmãos William e Jim Reid surpreenderam-me no final dos anos 80 com uma sonoridade a que nenhum amante do rock alternativo ficou indiferente… irresistíveis melodias ao jeito de The Beach Boys, o lado soturno dos Velvet Underground e uma parede de guitarras distorcidas e barulhentas que contagiavam qualquer miúdo que ainda não sabia o que fazer com tanta energia acumulada. Este disco e o anterior “Psycocandy” tocavam em repeat lá no quarto perante a incompreensão dos meus pais. Esta distorção, levou-me a querer tocar guitarra, a querer ter uma banda. Obrigado aos Jesus, mas também aos Pavement, Mercury Rev, Ride, The House of Love, Pixies. Guitarras ao alto!

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