O desafio de transformar um álbum dos Pink Floyd num filme de ficção

Originalmente estreado em 1982, o filme “Pink Floyd – The Wall” partiu das canções do álbum que o grupo lançou em 1979 e contou com argumento do próprio Roger Waters, procurando dar forma, através das imagens, a uma narrativa que já se escutava na música. Texto: Nuno Galopim

30 de Novembro de 1979. Chegava nesse dia aos escaparates das lojas de discos um álbum que nascera em clima de convulsão interna para os Pink Floyd (que culminaria com a saída de Roger Waters algum tempo depois), mas que se afirmaria poucas semanas depois como um dos seus maiores êxitos, sendo reconhecido atualmente como um dos títulos mais significativos da sua obra e um dos álbuns “essenciais” em qualquer discografia dos anos 70.

The Wall é um álbum duplo, de alma conceptual, refletindo sobre o isolamento, tomando como personagem central uma figura de ficção, Pink, criada sob traços próximos da história da vida de Roger Waters (da perda do pai e da mãe superprotetora a más memórias do sistema de ensino), mas em certos instantes cruzando-se ainda com alguns alguns traços de Syd Barrett, fundador e primeiro timoneiro dos destinos dos Pink Floyd.

O ponto de partida para a soma de experiências e ideias que acabaram fixadas nas canções surgiu depois de um incidente ocorrido no concerto final da digressão que se seguira à edição do álbum Animals (de 1977). Roger Waters estava incomodado com o comportamento e, inesperadamente, deu por si a cuspir sobre um espectador que assistia ao concerto na primeira fila. A atitude atormentou-o. E pouco depois Waters estava a imaginar uma narrativa, na forma de um conjunto de canções, que expressava a sugestão da construção de barreiras. Não apenas as barreiras físicas que pudessem ser eventualmente levantadas entre músicos e público. Mas também as barreiras que podem irromper entre os seres humanos.

Roger Waters foi desenvolvendo ideias (na verdade nasceria ali também o seu futuro álbum a solo The Pros And Cons Of Hitch Hiking), numa altura em que os companheiros David Gilmour e Richard Wright lançavam discos em nome próprio. Um dos projetos de Roger Waters começou a ganhar forma sob o título de trabalho Bricks In The Wall e traduzia a materialização das ideias nascidas depois do concerto na digressão do álbum anterior dos Pink Floyd.

O álbum seria depois o ponto de partida para um filme de Alan Parker que, com argumento do próprio Roger Waters (e usando muitas das canções de The Wall) materializou nas imagens as memórias e conflitos a que as canções aludiam. Em traços largos a narrativa coloca-nos perante uma estrela rock de nome Pink (personagem interpretada por Bob Geldof) que vive um progressivo isolamento face aos outros e até à realidade. Os flashbacks ajudam a desenhar as memórias traumáticas que o levaram até ali, desde a perda do pai na guerra até às recordações de professores castradores (numa das cenas vemo-lo, em pequeno, a ser literalmente troçado por um professor por causa de um poema que, por acaso, é um excerto da letra de Money, dos Pink Floyd). O cada vez maior fosso entre a realidade e o universo interior de Pink ora o levam a destruir a sua suite num dia em que a ela regressa com uma groupie. Ou a imaginar-se em momentos de triunfo em palco, não como cantor, mas como líder fascista. Às imagens filmadas, que colocam a ação numa terra de ninguém entre a realidade e a fantasia, o filme junta ainda várias sequências de animação criadas por Gerald Scarfe, o cartoonista político que seria responsável pelo genérico de Sim Sr. Ministro e que, anos mais tarde, seria diretor artístico de Hércules, filme de animação dos estúdios Disney.

Pink Floyd – The Wall não pretende usar as canções da banda senão para servir uma materialização visual da narrativa que elas mesmas sugeriam já em disco. Daí a sua presença evidente na banda sonora, ocasionalmente colocadas no corpo e voz de Bob Geldof (que vocalizou, por exemplo, uma versão regravada de In The Flesh. De resto há diferenças evidentes entre as versões do álbum dos Pink Floyd e as que escutamos no filme, havendo mesmo, entre as imagens, a estreia de material que surgiria discograficamente mais adiante. When The Tigers Broke Free não está em The Wall mas surgiu em single e, depois, como faixa extra numa reedição do álbum The Final Cut. What Shall We Do Now?, retirada do alinhamento do álbum, surgiria depois na versão gravada ao vivo. 5:11 am (The Moment Of Clarity) apareceria em The Pros And Cons Of Hitch Hiking.

Alan Parker, o realizador, que tem como um dos seus momentos mais notáveis o filme O Expresso da Meia Noite (1978) era uma figura já rodada no universo do filme musical quando aceitou esta colaboração com os Pink Floyd. Tinha já assinado Bugsy Malone (1976) e Fame (1980) e mais adiante seria ainda o responsável por filmes como The Commitments (1991) e a adaptação ao cinema de Evita (1996), com Madonna como protagonista.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.