A candura dos primeiros passos de uma nova vida para Pedro de Troia

Depois dos Capitães da Areia, Pedro de Tróia apresenta um primeiro disco a solo. Chamou-lhe “Depois Logo se Vê” e é o motivo para uma breve troca de impressões do músico com o GiRA DiSCOS. Entrevista por: Nuno Galopim

Foto: Rita Borba

Tem por título “Depois Logo Se Vê”, mas como é bom não adiar as coisas, tratamos já hoje do assunto. Na verdade este é o título do álbum que faz a estreia a solo de Pedro de Tróia, que antes acompanhámos nos Capitães da Areia, banda que deixou importante contribuição na reinvenção da indie pop entre nós. Com dez canções com produção e também arranjos assinados por Tiago Brito, o disco não volta as costas aos caminhos estéticos sugeridos pela música da banda à qual pertenceu (com um evidente gosto por pistas pop/rock de referências clássicas), embora os aponte por rumos que abrem espaço a palavras mais pessoais e definem um espaço mais dado à melancolia do que à celebração de juventude e festa. No texto que lemos no booklet, o Nuno Miguel Guedes fala em “candura”. E essa de facto pode ser a palavra chave para chegar a estas novas canções e aos ambientes e relacionamentos que em nós podem despertar. Desafiámos o Pedro de Tróia a uma breve conversa (por email, coisas da era da quarentena). E aqui fica o registo…

Um disco a solo como este poderia existir mesmo que os Capitães da Areia se mantivessem ativos?

Nunca me tinha passado pela cabeça dar início a uma carreira a solo. Mas depois de ano e meio sem concertos nem planos para gravar novo disco com os Capitães e ao ver a minha vida a andar para trás, percebi que não podia continuar nessa expectativa porque me estava a prejudicar. Aquele marasmo começou-me a matar aos poucos. Não queria ter um emprego e lidar com uma vida estável mas vazia, ao mesmo tempo que sentia urgência em criar. Precisava de crescer e ganhei a consciência de que para mim é vital existir artisticamente. Portanto, diria que muito dificilmente me teria aventurado num caminho a solo se os Capitães tivessem prosseguido a actividade e, com toda a certeza, digo que este disco jamais existiria se eu não tivesse estado tão perdido.

Das histórias de muitas bandas que conheces em quais as carreiras a solo delas nascidas mais te inspiram?

É-me imperativo referir o Rodrigo Leão, o Manel Cruz e o JP Simões, que são três dos autores que mais admiro, assim como o Branko por ser um produtor com uma visão extraordinária com o qual muito quero merecer trabalhar. Além dos portugueses, os frutos-de-banda que mais me fazem vibrar são o Michael Jackson e a Beyoncé. Dois astros.

Já agora, o que aconteceu então aos Capitães da Areia?

Depois de editarmos o segundo disco, demos alguns concertos e fechámos essa fase no CCBeat. A ideia passava por acelerar para novas canções, mas o desgaste que “A Viagem dos Capitães da Areia a bordo do Apolo 70” gerou foi grande (gravámos praticamente com um gravador e um saco de pano a fazer de pop filter) e para avançarmos para o terceiro disco havia uma série de condições do funcionamento da banda que tinham de ser revistas, mesmo em relação à edição e aos concertos. Isso até se resolveria facilmente, mas estávamos em estados da vida difíceis de conciliar uns com os outros. Gestão de tempo, gestão de expectativas e gestão de prioridades. As vidas não estavam alinhadas. Mas não foi um final. Acredito mais numa paragem para abastecimento.

Até os Abba estão a fazer novas canções… Tirando (talvez apenas) os Smiths, achas que as bandas hoje em dia pensam já numa segunda vida quando interrompem a atividade?

Os Abba estarem a fazer novas canções é provavelmente a melhor notícia que ouvi na quarentena. Quando uma banda popular anuncia uma pausa ou o fim, isso gera entropia. É uma notícia que por vezes até nos provoca um sentimento de “que pena só lhes ter dado atenção agora, que são tão bons!”. Gosto de acreditar que ninguém encerra um capítulo a pensar que um dia vai querer voltar atrás, mas no caso da indústria da música é um facto que há bandas que combinam parar para não terem a pressão de editar durante uns anos. Assim não têm períodos de pouca actividade, porque estavam “extintos”.

Sentes que a memória dos Capitães da Areia paira ainda sobre a tua música ou vês neste disco um espaço de libertação e novas demandas?

Reconheço ambas. Por um lado, o meu caminho ainda está no início e é natural que tendam a comparar as canções, os arranjos ou o formato ao vivo. Respeito tudo isso, até porque era eu quem escrevia as letras, compunha a melodia da voz e cantava. E o Tiago Brito gravou as guitarras, pensou os arranjos e produziu o disco. Só por aí já há imensos pontos em comum. Porém, com este disco estou apenas a servir um aperitivo (a mim e a quem me ouvir), porque tenho bem presente a direcção que quero seguir. As canções serão sempre o mais importante, mas sou obcecado pela estética, sou aberto a novas sensações e sinto uma imensa necessidade de libertação. Vejo este disco como um prefácio. Conheço-me bem e sei onde quero tentar chegar.

Aquela coisa do disco a solo ser algo mais pessoal do que a música que se faz com uma banda é um lugar comum muito habitual nas conversas nestes momentos de estreia a solo. Mas é mesmo assim?

Sim e não. Nos Capitães deixei muita vida cravada em canções como o Arco das Portas do Mar, Senhora das Indecisões, Às Minhas Dores ou Beijos Espaciais, mas talvez de uma forma camuflada. Neste disco quis que as canções soassem a como falo no dia-a-dia. Sem filtros ou polimentos. Claro que podia ter escrito e rescrito até estarem belas jóias mas foi importante para mim cuspir estas canções e deixar ficar assim. O que escrevi no dia em que precisei de escrever cada uma, foi o que ficou. Quis imortalizar o instante em forma de canção, com as palavras dos meus devaneios. Na sua maioria são lágrimas que não pude chorar. Essa nudez de escrita nunca teve lugar nas letras para os Capitães porque me sentia uma voz plural e, acima de tudo, não foi fácil sentir-me preparado para me expor desta maneira.

És pessoa para dizer “depois logo se vê” nas coisas do quotidiano ou isto é apenas título de disco?

Na fase em que alinhei fazer este disco andava a dizer recorrentemente essa expressão. “Estou sem dinheiro mas vou tentar gravar o disco e depois logo se vê”, “não entendo o que se passa ali mas vou continuar e depois logo se vê”, “cortaram-me a luz, tenho a arca cheia e amanhã é feriado. Vou por tudo na banheira e depois logo se vê”. Estava constantemente a chutar para canto e a tentar esquivar-me a algumas responsabilidades, delegando a solução no futuro. Antes de ter escolhido todas as canções, já sabia que o título do disco tinha de ser este, até porque pretendia registar um determinado período da minha vida. Como se fosse um retrato. Um auto-retrato que um dia me vai ajudar a recordar quem fui, sem falsas memórias.

Apesar de ser um disco a solo reuniste uma família de músicos. O que procuraste nestas colaborações?

Procurei que ficasse o melhor disco possível, com uma energia fiel. O Tiago Brito (com o qual fui motor dos Capitães da Areia) percebeu o hiato em que eu estava e com altruísmo disse-me que me ajudava. Para além de ser um excelente músico, é meu amigo e conhecemo-nos muito bem, mesmo em silêncio. Ouviu as maquetes, compôs algumas músicas comigo, percebeu a intenção de cada antes de definir os arranjos, ensaiou a banda durante três meses e assumiu a produção em estúdio. Foi sublime. Como se isso não bastasse, tive o privilégio de poder contar com uma secção rítmica tão coesa que partilham o mesmo nome (Vasco Magalhães na bateria e o Vasco Abreu no baixo), com o Silas Ferreira que para mim é um verdadeiro cientista dos sintetizadores, com o Tomás Branco com o qual compus a Rés do Chão e que me tinha ajudado imenso a gravar maquetes, com a Rita Laranjeira (Ela Limão) dona de uma voz mais doce que as melhores framboesas, com o Bernardo Barata que gravou grande parte do disco e ainda se afiambrou a uns coros na Dias Claros e com o Tiago de Sousa que teve carta branca nas misturas. O que procurei nestas colaborações foi segurança. E foi segurança que encontrei.

Apesar de ser um disco de 2020 pareces não ter desistido de manter as mãos dadas com heranças da canção pop clássica e com referências de outros tempos, mais do que estabelecer relações com formas mais contemporâneas. O que te inspira?

Mais do que referências musicais, tenho referências visuais e emocionais. Recordações, cartas, despedidas, pensamentos, começos, cheiros, luzes, sabores, lugares e pessoas. Coisas que me abrem os poros. Para além disso, continuo a ouvir a mesma música que ouvia há dez anos, do Elton John ao Caetano Veloso, do David Bowie ao David Byrne, dos Beatles aos Rolling Stones, dos Cranberries aos Duran Duran, do António Variações aos Madredeus ou dos GNR aos Delfins. Mas agora que já pisei o terreno, acredito que os próximos passos vão converter algumas cinzas em purpurinas, da mesma forma que me vou adiantar para o presente, sem tanto peso do passado. Tenho uma visão e estou-me a esculpir para lá chegar.

Se te pedissem para recriar um disco clássico da música portuguesa que álbum recriarias (e porquê)?

O disco homónimo do Marco Paulo, que foi editado no ano em que nasci. Sempre tive um carinho especial por ele e pelo bem-estar que espoletou numa geração. Abstenho-me de comentar a direcção artística mas as canções são extraordinárias.

Este teu disco a solo nasce num momento difícil. O que tens podido fazer pela visibilidade do álbum e, além disso, o que tens vivido estes dias?

No início de Março estava radiante porque tinha concertos agendados em bons palcos e iam dar-me o boost que me tem faltado. Claro que o cenário que estamos a viver é mau para todos, mas fiquei revoltado quando me apercebi que esses concertos não iam acontecer. Investi neste disco (gravação, mistura, fabrico, vídeos e comunicação) o dinheiro que tinha conseguido poupar nos últimos anos e contava amortizar antes do Verão. Depois iria orientar a vida com os restantes concertos. Não ia ser um começo nada nada mau. Já me sentia-me feliz e aliviado. Agora tenho escrito canções e tentado descobrir como arranjar uma fonte de rendimento. Enquanto isso, recorro às redes sociais para publicar textos a contar as canções do disco de um ângulo diferente, estamos a preparar o videoclipe do próximo single para filmar assim que caia o Estado de Emergência, tenho viajado dentro de livros e ido à cidade todas as segundas-feiras enviar discos encomendados.

E uma vez terminada esta etapa… depois logo se vê? Ou já pensaste sobre o assunto.

Se ainda não tivesse pensado muito bem sobre o assunto estaria gravemente doente. E é na maquete desse próximo passo que vou começar a trabalhar em Maio, de mangas arregaçadas e finalmente em paz comigo.

“Depois Logo Se Vê”, de Pedro de Tróia, está disponível numa edição em CD e nas plataformas digitais, numa edição da Azul de Tróia.

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