Dez discos que definiram o meu gosto – Vítor Rua

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Vítor Rua. Aqui ficam “10 discos que se não os tivesse escutado não seria o que sou hoje”, como ele mesmo os apresenta:

The Beatles “Sargent Pepper´s Lonely Hearts Club Band”

(1967)

Durante a minha infância eu ficava em casa com a minha mãe Eugénia Rua, ou com a minha Tia, a escutar a música de cantores como o Roberto Carlos, Nelson Ned, Demis Roussos ou Julio Iglesias. E era essa a música que eu “gostava”. Até que comecei a escutar – pelos 8 anos de idade – a música que o meu irmão mais velho, Cesarino Rua, escutava. E comecei a ouvir os Rolling Stones, o Bob Dylan, os Jethro Tull e os Beatles. E entre todos os discos havia este LP “Sargent Pepper´s” dos Beatles que eu adorava escutar. Adorava tudo naquele disco: a capa (com aquela enorme “colecção” de personalidades que iam desde o Box “Muhamed Ali”, à música erudita contemporânea “Karlheinz Stockhausen”), e a música (o uso da música “Concreta”, a utilização de instrumentos não ocidentais, arranjos orquestrais – instrumentos da Orquestra Clássica Ocidental –  misturados com instrumentos do Rock. O facto de não existir “interrupção” entre as músicas e ser um “contínuo”, também me “surpreendia”, e sem o saber, estava a escutar o primeiro LP de Pop Conceptual (uma vez que o dos Beach Boys “Smily Smile” – onde alguns dos membros dos Beatles estiveram presentes durante as gravações e até participaram numa música, como o caso do tema “Vegetables” em que o Paul Mcartney mastiga uma maçã!), só viria a sair décadas depois devido a problemas de saúde do Brian Wilson. Este disco era um “todo” – capa & música – que formava uma Obra de Arte Conceptual Musical: o disco já não era uma “colecção” de canções, mas sim uma Peça só, constituída por várias partes (como “Andamentos” numa Suite). Este foi o LP que marca a minha transição da audição de música Ligeira para a Pop/Rock.

Pink Floyd “A Nice Pair”

(1973)

Dentro da colecção de discos da Musicoteca do meu irmão, constava este duplo LP dos Pink Floyd (que mais não era que a junção dos dois primeiros LP dos Pink Floyd). Tal como no caso do “Sargent Pepper´s” dos Beatles, também a capa deste disco era fabulosa: a capa era dividida em quadrados (tipo “Polaroid”) com imagens surreais e aparentemente sem qualquer ligação entre si, o que me deixava “desconcertado” ou num  estado de “uncanny”. Já em relação à música, era algo que para mim na altura me fascinou imediatamente pela sua “experimentação” e sons invulgares dos instrumentos (as guitarras e baixo eram “processadas” com o uso de pedais de efeitos), os teclados (recorriam a uma gama imensa de sintetizadores), a percussão (o uso da bateria e instrumentos de percussão variegados) usada de forma não usual e a voz “tímida” de Syd Barrett. Era o meu disco preferido e o que escolhia para mostrar a outros músicos que me iam visitar (já que os meus amigos não-músicos, mostravam grande relutância em ouvir aquele LP). Creio que “o meu som” de guitarra eléctrica sofreu muita “influência” na audição deste disco, ainda que de forma “subliminal”, pois só tive essa “impressão” quando gravei e escutei o LP dos Telectu “Ctu Telectu”, em que me apercebi de “semelhanças” com o “som” da guitarra do Syd, que eu escutava na infância.

Yes “Close to the Edge”

(1972)

Quando o meu Pai me deu a minha primeira guitarra esta era acústica com cordas de nylon. Ora, o disco que me fez querer ser guitarrista, foi o “Made in Japan” dos Deep Purple, em especial o tema “Smoke on The Water” que foi a segunda música que aprendi a tocar na guitarra, e desde esse dia devo ter tocado esse “Riff” de guitarra milhões de vezes. Mas uma das coisas que eu imediatamente me apercebi é que a guitarra clássica e a guitarra eléctrica eram duas coisas muito “diferentes”! Foi assim que, nem um ano passado depois da compra dessa guitarra, a minha Tia Carolina Rosa, me oferece a minha primeira guitarra eléctrica. Mas mesmo sendo uma guitarra eléctrica eu ainda não conseguia obter aquele som “distorcido” que escutava no tema “Smoke on the Water”. Apercebi-me então que tinha de ter um pedal de distorção. E assim foi. E finalmente “recriei” o som da guitarra dos Deep Purple. E foi já com o meu ouvido “canalizado” para a audição das guitarras eléctricas (quando escutava Rock), que escutei na casa de um amigo meu a primeira vez o disco dos Yes “Close to the Edge”. E fiquei logo “viciado”! Como não tinha esse LP, eu comia à pressa em minha casa, para sair a correr e ir à casa desse meu amigo, e, enquanto ele almoçava, eu escutava com auscultadores esse disco em sua casa antes de irmos para a escola com o pai dele. Devo ter ouvido esse disco centenas ou mesmo milhares de vezes! Recordo-me que fazia audições “selecionadas”, do tipo, um dia escutava e dava atenção à guitarra baixo; outras vezes escutava e dava atenção à guitarra; outra vez ouvia só os teclados ou só a voz; escutava a bateria… e dessa forma nunca me cansava de o ouvir. Este disco representa para mim, o “expoente máximo” do chamado “Rock Progressivo”, mesmo mais que o duplo LP “The Lamb Lies Down” dos Genesis.

Tony Conrad & Faust “Outside the Dream Syndicate”

(1973)

O meu Tio Mário trabalhava no imobiliário, mas tinha outras actividades profissionais e entre estas, tinha o hábito de comprar coisas em Leilões da Alfândega do Porto. Umas vezes podia comprar uma dúzia de máquinas de Costura, outra das vezes podiam ser automóveis, mas uma das vezes foi uma pilha de caixas de LP. Como eu era músico ele levou-me um exemplar do LP (que ele tinha comprado uns 500 exemplares). Na capa desse LP podia ler-se: “Tony Conrad with Faust: Outside the Dream Syndicate”. Não fazia ideia nem quem era esse tal de Tony Conrad e muito menos que eram os “Faust”. Mal pus o LP a tocar fiquei “colado” e em estado de total surpresa: o disco era sempre “igual” do princípio ao fim (e tínhamos de mudar do lado A para o Lado B). Eu nem queria acreditar no que ouvia: uma batida repetitiva de bateria e uma Viola a dar uma só nota (drone) durante todo o disco. Foi o primeiro disco que escutei de música “Minimal-Repetitiva”, antes de saber o que esta era. E era também o disco que eu usava para mostrar a amigos músicos que iam a minha casa e eu dizia-lhes: “Ora ouve isto…”. e depois mudava para o lado B e dizia: “e vês que continua a ser sempre igual?…”.

Karlheinz Stockhausen “Mikrophonie I & II”

(1967)

Quando conheci o Jorge Lima Barreto a minha vida mudou 360º! Habituado a só escutar Rock, ele abriu-me à música de todo o Mundo e de todos os Estilos musicais. Comecei a escutar Jazz, música Electrónica e Concreta, música Etnográfica, Música Clássica e Erudita, música Acusmática, música Espectral ou música Popular. Um dos primeiros discos que o Jorge me deu a ouvir foi o “Mikophonie” de Stockhausen. Recordo-me de ele me dizer que era um disco de “Música Electrónica”. Posteriormente percebi que na realidade aquele era mais um disco de música “Concreta”, pois tratava-se da utilização de um instrumento acústico (o Tam Tam) e depois era tocado e alterado em Tempo-Real por cinco músicos: dois eram instrumentistas (usavam objectos para percutir no Tam Tam); outros dois seguravam cada um microfones e tratavam de amplificar as percussões dos outros dois instrumentistas; e por fim, estava o próprio Karlheinz Stockhausen na mesa de mistura e no processamento de som (usando uma das suas invenções: o “Ring Modulator”). Mas – como eu referi supra – inicialmente eu escutava aquele disco como sendo um disco de música “electrónica”, ou seja, julgava que era realizado em oscilares e processadores electrónicos. Foi só anos depois que ao ler sobre o disco me apercebi que aqueles “estranhos” sons, eram produzidos num “simples” Tam Tam. Ouvi milhares de vezes este disco (fiz uma cópia para cassete) no P.A. dos GNR na minha Garagem no Porto.

Robert Fripp “Let the Power Fall”

(1981)

O mais importante disco alguma vez criado com uma guitarra eléctrica! Fripp foi buscar “emprestada” a técnica que o Brian Eno usava por volta dos anos 1972, e que consistia em usar dois gravadores de Bobines juntos um ao outro e a fita ficava em “Anel” ligada aos dois gravadores, sendo que um gravava o som e o outro imediatamente o reproduzia (criando aquilo que na actualidade chamamos de “Loop”). Só que essa técnica que o Eno usava, tinha sido inventada já muitos anos atrás em França pelo Pierre Schaeffer (por volta dos anos 1950), e usada ao vivo pelo músico Terry Riley em meados dos anos 1960. E foi ao Terry Riley que o Eno “roubou” a ideia, que por sua vez foi “emprestada” ao Fripp. O som da guitarra de Fripp surge neste disco com bastante “compressão” e o uso de pedais de distorção, mas muito em especial, o uso do pedal de volume (para criar “fade in” e “fade out” ao som). Fripp sempre “preferiu” o uso da técnica “single note” aos “acordes”, pois ele dizia que tocar uma nota só já era uma grande responsabilidade; tocar duas em simultâneo já era uma “loucura”; tocar um acorde, era para ele algo que já envolvia uma mestria enorme do instrumento e que ele – dizia – não “estar preparado”. E é assim que neste disco escutamos uma guitarra com um timbre a “roçar” o do Violoncelo, em “loop”, fazendo-nos entrar numa espécie de “transe” ou “hipnose”. Para mim é a obra mais importante escrita no Século XX para guitarra electrónica!

Frank Zappa “Sheik Yerbouti”

(1979)

Um dia fui “apresentado” ao Zappa por um amigo meu, cuja mãe dele, era locutora da Rádio no Porto, e tinha acesso a muitos discos acabados de chegar do estrangeiro. O disco em questão era o “Sheik Yerbouti” do Zappa. Neste disco o Zappa resolve fazer uma “Viagem” pelo Mundo da Música e resolve “gozar” com muitos músicos: Bob Dylan, Doors, Return to Forever, Santana, Devo, e com muitos estilos musicais: disco sound, punk, jazz/rock, etc. É um disco que me permitiu -posteriormente – conhecer melhor a obra musical do Zappa. E conhecer Zappa foi uma experiência inacreditável: fez-me repensar a forma como se fazia Música! Zappa é um genial compositor, um brilhante guitarrista, um maravilhoso letrista, um cantor original e um extraordinário Produtor. Neste disco podemos observar todos estes atributos e mais um – que lhe é extremamente idiossincrático: o Humor! Um disco que viria a influenciar-me na estrutura e montagem do meu LP “Pipocas” do PSP-Projecto Som Pop.

Talking Heads “Remain in Light”

(1980)

Nunca me irei esquecer a primeira vez que escutei este disco dos talking Heads “Remain in Light”: tinha ido com os GNR tocar a Marco de Canavezes e ficamos todos na casa do nosso Manager. Uma casarão de três andares só para nós. Depois do nosso concerto fomos todos para casa fumar erva e depois eu fechei as luzes e pus o disco a tocar muito alto na aparelhagem e ficamos a escutar. Eu nem queria acreditar no que ouvia: canções estruturadas de forma minimal-repetitiva, sempre na mesma Tonalidade e com alterações minimais quando chegava ao refrão. A canção era um “contínuo” e o que dava realmente a sensação de “refrão” era através das vozes. Depois esse disco tinha como convidados músicos como o Jon Hassell que eu nunca tinha escutado e, mais importante na altura para mim, o Adrian Belew! Este realizou nesse disco dos melhores e mais avançados e originais solos de guitarra de toda a New Wave! Um disco que revolucionou o Rock da altura!

Thelonious Monk “Monk´s Music”

(1957)

Monk é Monk! Existem milhares de pianistas no mundo inteiro a imitarem, por exemplo, o estilo do Keith Jarrett. Já pianistas a tocarem à Monk não há muitos a conseguirem-no! Além de ser o maior compositor do Jazz (as suas composições são de uma aparente “simplicidade” e com melodias fáceis de as decorarmos), é um dos maiores pianistas do Jazz, senão o maior. Basta-nos escutar uns segundos dele a tocar para imediatamente reconhecermos que é ele. Foi também através de Monk que eu me  prestei mais a escutar jazz.

Scott Walker “Tilt”

(1995)

Depois do Zappa, Scott Walker foi o maior compositor do Rock de todos os tempos! Depois de uma fugaz introdução na Pop com os “Walker Brothers” – que lhe deu reconhecimento internacional -, resolve trabalhar a solo e afastar-se da Indústria Musical. Recolhe-se, deixa de dar concertos e de dar entrevistas e concentra-se no Estúdio. Fica cerca de dez anos a realizar este disco “Tilt”. Quando se escuta este disco, sabemos que estamos na presença de algo nunca feito no Rock! Os arranjos orquestrais do início da sua carreira, são aqui substituídos por sons electrónicos e eléctricos, todos construídos por ele, e com canções com uma Forma Estrutural nunca vistos nesta tipologia musical. A música parece seguir milimetricamente a sua poesia! Este disco veio voltar a trazer-me a esperança de que se poderia continuar a criar coisas originais no Rock!

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