Das memórias para o palco e, depois… para o cinema

O filme de Spike Jonze “Beastie Boys Story”, que tem tem como subtítulo “A Live Documentary”, propõe uma nova forma de usar a linguagem do cinema documental ao serviço do era uma vez do percurso de uma banda. Texto: Nuno Galopim

A ideia de subir a um palco para contar histórias em vez de cantar canções está a deixar de ser, para os músicos, uma surpresa (e ainda bem). Bruce Springsteen e Nick Cave fizeram-no, embora não deixassem de haver música entre as histórias que contavam. Já Michael Diamond (Mike D) e Adam Horovitz (Ad-Rock), dos Beastie Boys, que se mantiveram fiéis à ideia de que não faria sentido ter o grupo como uma entidade ativa depois da morte de Adam Yauch, estiveram juntos num palco e, do grupo, toda a música que se escutou foram fragmentos de gravações de arquivo. A ideia de contar a história dos Beastie Boys já tinha ganho forma num livro, ao qual se seguiu uma tour de apresentação em livrarias. Unindo essas duas realidades (as memórias e o storytelling) eis que se juntam então a Spike Jonze, velho amigo e colaborador, para criar um “espetáculo” de histórias contadas e que desde logo tinha um filme em vista no fim de todo o percurso. O documentário que agora entra em cena (que era suposto ter passado no South By Southwest) e está disponível no serviço de streaming da Apple, não é mais do que uma espécie de adaptação do modelo do filme-concerto a esta ideia de filme-espetáculo de histórias contadas. Sim, Beastie Boys Story é o filme desse espetáculo. Daí o subtítulo “a live documentary”.

         Apesar da lógica semelhante ao modelo dos filmes-concerto, já que acompanhamos o que se passa em palco de fio a pavio, na verdade a versão para cinema acrescenta a capacidade em fixar imagens e olhar de perto os excertos de arquivo (que passavam num ecrã sobre o palco), assim como permitiu a Spike Jonze um trabalho de montagem que valoriza as expressões faciais dos dois protagonistas, as suas interações, olhando de vez em quando o que o espectador em sala não podia ver: um olhar a partir do palco.

Todas estas possibilidades que o cinema pode juntar à captação de um acontecimento são usadas pelo realizador (que teve também uma voz na concepção do espetáculo e, na verdade, é a terceira voz com quem os dois músicos por vezes interagem). Mas se não houvesse uma boa ideia à partida, nada feito. E a ideia foi o encontrar de um modelo de teatralização de uma narrativa (real), arrumando-a cronologicamente, assegurando uma boa documentação de arquivo (desde fotografias e home vídeos a telediscos e gravações de programas de televisão) e apostando num registo de humor que, mesmo diferente do que habitava o dia a dia dos Beastie Boys nos anos 80 e 90, não deixou de ser um dos seus melhores denominadores comuns.

E a história lá se arruma desde memórias dos dias de escola e da Nova Iorque de inícios dos anos 80, da emergência de uma relação com a música (porque sim, porque toda a gente tinha bandas) que começa nas descendências do punk e cedo assimila uma cultura que então emergia na cidade: o hip hop. Os encontros com Rick Rubin, a fundação da Def Jam, o primeiro encontro com figuras (hoje) míticas, desenham uma narrativa que subitamente é transformada num fenómeno gigante com o impacte do hino hedonista (You Gotta) Fight for Your Right (To Party!) e do álbum de estreia que o incluía. Seguem-se momentos de sucesso, fama e consequentemente perda de espaço e tranquilidade… Há uma rutura com a Def Jam, uma nova vida a começar em Los Angeles na Capitol com o (hoje aclamado) Paul’s Boutique, que contudo passa longe das atenções. Novas cenas de gastos e disparate acabam por devolvê-los a Nova Iorque e aos pequenos clubes, desenhando-se um renascimento progressivo com Check Your Head, Ill Communication e Hello Nasty. Daí em diante a narrativa musical é um encurtada (apesar de bons momentos que histórica e discograficamente se seguiram).

Todo o percurso cruza as memórias de Adam e Michael com uma omnipresença de Adam Yauch nas suas palavras. O espetáculo, de certa forma, prestava-lhe homenagem. O filme, agora, fixa essa intenção. No fim, fica aquela vontade de voltar a ouvir os discos… E eu fui pegar num que nem sequer foi referido… O álbum de instrumentais The In Sound from Way Out!… O que quer dizer que, naturalmente, Beastie Boys Story não esgota todas as memórias do grupo e pode, assim, ser um bom aperitivo para (re)descobrir as histórias e os discos dos Beastie Boys.

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