Dez discos que definiram o meu gosto – Hélio Morais

Hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Hélio Morais, que assim assina a história de “Dez discos que podem dizer tudo, ou nada, sobre a minha identidade musical”.

Foto: Ana Viotti

Não sei fazer listas de melhores discos, filmes, séries, restaurantes, concertos, livros e por aí adiante. É uma incapacidade que tenho e sou feliz com ela. O facto de não andar com um caderno cheio de nomes, ou de os memorizar, permite-me esquecê-los e, assim, redescobrir tudo de novo. A sensação nunca será igual à que temos no primeiro contacto. Mas há qualquer coisa de interessante em dar descanso às obras de que gostamos; a possibilidade de nos surpreenderem novamente.

Isto tudo para dizer que foi libertador receber o convite do Nuno para fazer uma lista de discos que ajudaram a estruturar o meu gosto e a minha forma de conhecer música, em vez de uma lista que me reduzisse a dez discos. Com toda a incoerência sob a qual me construí musicalmente, seria uma tarefa bastante complicada. Lembro-me de, frequentemente, alguém me sugerir uma mão cheia de bandas de determinado estilo, porque sabiam que eu adorava uma outra que encaixava na gaveta. Mas a verdade é que sempre me apaixonei por artistas e não por um estilo, apesar de ser normal gostar de mais artistas que se possam engavetar num estilo particular do que outro. Mas isso nada tem que ver com uma vontade de pertença, tem somente que ver com uma identificação com o que me está a ser dito, ou tocado. E isso transpõe qualquer barreira estilística, ou nicho.

Europe “The Final Countdown”

(1986)

Eu ainda não sabia, mas o vídeo do single “The Final Countdown”, do disco com o mesmo nome, foi o início de tudo. Aquela bateria branca, infinita de peças – coisa com a qual não me identifico nada, há uns vinte anos -, que, ainda por cima, a dada altura surgia no meio de um fogo de artifício, marcou-me. Talvez por isso tenha tido, desde sempre, um certo fascínio por baterias brancas, apesar de nunca ter tido uma. O disco, em si, não me diz, ou disse, muito. Mas esta música é uma das que mais me marcou na vida. E sem o disco ela não me teria chegado aos ouvidos e aos olhos. 

MC Hammer “Let’s Get It Started”

(1988)

Eu tinha oito anos. E com oito anos tu não vais a uma loja de discos perguntar pelas novidades da semana. E em 1988 não havia streaming, nem tão pouco internet disponível. A tua escolha limitava-se a uma de duas opções:

1 – Ouvias os discos dos teus pais, dos quais não querias gostar, porque eram deles.

2 – Trocavas cassetes com os teus amigos que, por acaso, tinham irmãos mais velhos que já compravam cassetes via distro, ou que já tinham idade suficiente para ir às “discotecas”.

Muito bem. Já sabemos, portanto, como é que MC Hammer me chegou às mãos. Os meus amigos do bairro ouviam Rap. Ouvi muito este disco. A verdade é que a cena do beat já devia estar cá dentro. E adorava quando conseguia apanhar um vídeo de algum single em casa de algum amigo mais afortunado com parabólica. E depois íamos todxs para o ringue para aprendermos os passos entre nós. E digo todxs porque a Rita era quem dominava a cena toda.

Metallica “Master of Puppets”

(1986)

Apesar de ser anterior ao “Let’s Get It Started”, do MC Hammer, só conheci Metallica quando entrei para o quinto ano, em 1990. Até então, o meu grupo de amigos resumia-se ao bairro onde vivia. Com a escola preparatória fiz uma série de amigos novos. E com esses amigos a quantidade de cassetes a que tinha acesso aumentou exponencialmente. Começou aqui a minha fase heavy metal, muito por culpa do Marinho, que até era meu vizinho, mas com quem só me comecei a dar depois de entrar para a escola preparatória de Massamá. Talvez ele tenha achado que, por usar aqueles ténis-bota com as palas enormes de fora das calças, eu era metaleiro e não do Rap. Mas o encontro deu-se e foi bastante duradouro. Ele gravou todas as minhas cassetes de Metallica. Essas cassetes foram a minha companhia entre 1990 e 1996, altura em que comecei a ouvir bandas hardcore. Pelo meio ainda conheci os Sepultura e andei meio imerso na cena Death Metal. Mas não há nada como o primeiro amor – pelo menos gostamos todxs de acreditar que assim é. Cada vez que dava atenção a um disco que não era de Metallica, sentia que os estava a trair. E não esquecer que eu até era menino da igreja nessa altura. Foi na igreja protestante à frente do ringue que aprendi a tocar bateria. Um rapaz mais velho, que jogava à bola comigo e acumulava a devoção a Deus com a devoção aos Metallica, lá me convenceu. Anos mais tarde, em 1998, deixei a crença de parte, mas a verdade é que posso dizer, sem qualquer tipo de ironia, que Deus e os Metallica me salvaram a vida. Também não o sabia na altura. Vim a descobrir mais tarde.

Bryan Adams “Waking Up The Neighbours”

(1991)

Como justificar Bryan Adams depois de já ser fã de Metallica? Era a única coisa que o meu pai me deixava ouvir em casa. Metallica era “música de drogados”. Aqueles cabeludos com as calças justinhas, todas rasgadas. Onde é que já se viu tal coisa? O que não referi, a respeito de Metallica, é que tinha que esconder as cassetes, do meu pai. O Bryan Adams, com todo o respeito pelo senhor, que até foi nosso conterrâneo durante uns tempos, não foi mais que a minha cassete de fachada. Esta ficava bem à vista, para o meu pai se poder sentir orgulhoso do gosto musical do seu filho. Afinal de contas, o senhor Bryan tinha escrito a música do Robin Hood. Tudo o que o Bryan Adams fazia, fazia por ela. Tudo o que eu fazia era sacrificar-me a ouvir Bryan Adams para proteger as cassetes de Metallica. Brian Adams, Nana Mouskouri e Demis Roussos – as duas últimas, responsabilidade do Morais mais velho e aprovadas pelo mesmo. Nenhum pré-adolescente merece.

Sepultura “Chaos A.D.”

(1993)

O Lars Ulrich, dos Metallica, fez-me aprender a tocar bateria. O Igor Cavalera, dos Sepultura, fez-me querer ser baterista. O que ele fazia na cena Metal era especial. Não era só sobre breaks, pedal duplo infinito, tocar rápido e com pouca força. Era sobre deixar tudo na bateria. Tocava como se fosse a última vez que o faria. E ritmicamente abriu-me a cabeça. Para um miúdo que nessa altura só ouvia Heavy Metal, foi muito importante ter conhecido Sepultura. Fizeram, no Metal, o que os Nirvana fizeram no Rock; trouxeram emoção à música. Na verdade foram a banda que me fez acreditar no poliamor musical. Foram, também eles, quem me fez começar, aos poucos, a tomar contacto com a cena hardcore mais pesada e acabar por dar a conhecer aquelxs que são hoje a minha família musical – Linda Martini e PAUS. Há uns dois anos, talvez porque alguém tenha roubado a antena do carro e não se apanhava rádio nenhuma com qualidade, lembrei-me que tinha umas cassetes perdidas numas caixas. Fui pesquisar e encontrei duas cassetes de Sepultura. Quando as ouvi, não queria acreditar na influência tremenda que aquelas baterias tiveram em mim. A forma como ainda hoje começo alguns breaks, fui buscá-la ao Igor e nem me tinha apercebido. Obrigado!

Refused “The Shape Of Punk To Come”

(1998)

Comecei a ir a concertos da cena punk/hardcore mais ligada ao movimento straight edge, por volta de 1996. O que me cativou na altura nem foi a música, mas sim a forma como tudo se conjugava; a forma como se partilhava informação, fanzines, cassetes, receitas, o chamado “faz tu mesmo”. A música era enérgica e os concertos também, mas aquela urgência de fazer acontecer, o uso das letras como arma política, a sensibilização para o vegetarianismo e veganismo, para uma juventude que não fosse refém das drogas; tudo aquilo me cativou. Eu era um puto da cena heavy metal que não fumava, não bebia, não se drogava; e isso era frequentemente motivo de chacota. De repente descubro esta cena com música, também ela, agressiva, mas onde ninguém me apontava o dedo por não fazer nenhuma das coisas que mencionei acima. Isso fez-me sentir bem. Fez-me sentir que não estava sozinho. E, directa ou indirectamente, foi esta cena que me fez conhecer quase todxs xs que me acompanham, ainda hoje, na música. O André Henriques e o Pedro Geraldes (ambos de Linda Martini) eram da minha escola, mas só nos aproximámos por causa dos concertos. A Cláudia Guerreiro (Linda Martini), foi-me apresentada pelo Bruno Rodrigues (tinha tido outra banda com o André). O Quim Albergaria (PAUS) era músico de uma das bandas mais importantes da cena, os Renewal. Mas a banda mais importante de todas era Sannyasin (antes, com o nome X-Acto). E desta banda faziam parte o Paulo Segadães (músico de Vicious Five, com o Quim, e baterista de The Legendary Tigerman durante anos), bem como o Ricardo Avelino, a pessoa que ainda hoje faz o merchandising de todas as nossas bandas (além de que é meu senhorio). O Makoto Yagyu (PAUS) também conheci nos concertos da cena punk/hardcore. Quem trata, comigo, do agenciamento dos Capitão Fausto, dos PAUS e de uma série de outras bandas do HAUS, é o Ricardo Dias, vocalista de uma das maiores bandas de hardcore que tivemos – For The Glory. O Ângelo Lourenço, técnico de som de Linda Martini e PAUS, foi-me apresentado num concerto de If Lucy Fell, a banda que tive com o Rui Carvalho (Filho da Mãe), o Pedro Cobrado (BESTA) e o Makoto. Estávamos em 2006 e desde aí que trabalhamos juntos em quase tudo. Os dois músicos que me acompanharão ao vivo em MURAIS, são o Miguel Ferrador e o João Vairinhos, ambos com um passado na mesma cena punk/hardcore. Esta cena não me definiu, mas mostrou-me muito, deu-me a conhecer todas estas pessoas, e estruturou-me numa série de valências. Fez-me entender que é possível fazermos as coisas acontecerem.

E talvez os Refused sejam uma das bandas que melhor sintetiza tudo o que descrevi acima. Era uma banda super politizada, com consciência da voz que tinham e muito inteligentes na forma como passavam a mensagem que queriam passar. Além disso, fizeram o melhor disco de punk/hardcore de sempre. Os puristas vão dizer que já não eram hardcore, eu vou ignorar e continuar a dizer que sim.

Botch “We Are The Romans”

(1999)

Indo directamente ao assunto, sem Botch não teria existido If Lucy Fell, sem If Lucy Fell não teria existido PAUS e, provavelmente, Filho Da Mãe. E sem PAUS não existiria o HAUS. Foi o amor por Botch que me fez reaproximar musicalmente do Rui Carvalho (Filho Da Mãe) e começar os If Lucy Fell juntamente com o Pedro Cobrado (o Makoto entrou durante as gravações do primeiro EP). A minha primeira banda – de speed/trash metal – foi com o Rui e com o Tiago Cobrado (irmão do Pedro). Já os conhecia desde 1994, mas entre 1997 e 2003 não tive mais nenhuma banda com o Rui. A vida voltou a juntar-nos uns anos mais tarde e começámos a escavar os discos de Botch, The Dillinger Escape Plan, The Blood Brothers, These Arms Are Snakes, Converge e a lista nunca mais parava. Mas este disco, “We Are The Romans”, foi o que nos fez querer fazer outra banda juntos. A banda enquadrava-se no que se chamava Math/Noise Rock . O baixista teve outra banda mais tarde, os These Arms Are Snakes, para a qual entrou, no segundo disco, o baterista Chris Common. O Chris misturou os dois primeiros álbuns de PAUS e chegou a ser músico de Riding Pânico (outra banda do Makoto Yagyu e do Fábio Jevelim). Este é, sem dúvida alguma, um dos discos mais importantes da minha vida.

Deftones “White Pony”

(2000)

Ainda hoje adoro este disco. Também tive a minha fase de nu-metal, mas os Deftones sempre se souberam distinguir dos demais e foram a única banda que me ficou desses tempos. E talvez tenha sido este o disco que lhes permitiu ganhar auditório e respeito fora de uma cena que acabou, muito rapidamente, por se tornar numa espécie de fábrica de boys-bands alternativas – lembrar os Crazy Town. Lembro-me de ler, numa entrevista do Chino Moreno, que uma das suas maiores influências nas vozes era a PJ Harvey. Isso clarificou-me muita coisa. “Change (In The House of Flies)”, “Knife Party” e “Passenger” (com Maynard Keenan dos Tool) são músicas incríveis. É, também, o único disco de Deftones que adoro. Gosto de muitas músicas de outros discos, mas este é especial. 

At The Drive In “Relashionship Of Command”

(2000)

Este é, talvez, o disco mais consensual em Linda Martini. Quando eu, o André e o Sérgio Lemos (membro fundador da banda) começámos a esboçar aquilo que se tornaria em Linda Martini, com a entrada da Cláudia e do Pedro, fizemo-lo das cinzas de uma outra banda que tínhamos juntos – Shoal. Shoal era uma banda de punk/hardcore que tinha como influências os Refused, mas também os dois primeiros discos de Placebo e At The Drive In. Quando o Sérgio nos começou a arrastar mais para o pós-rock, até nos conseguimos enamorar por algumas dessas bandas, mas At The Drive In nunca descolou da nossa matriz. E a verdade é que foi crescendo, cada vez mais forte, a vontade de não nos fecharmos no chamado pós-rock, mas sim de nos aproximarmos mais da origem. Talvez o desamor do Sérgio tenha vindo daí; talvez. Este disco também teve uma importância muito grande em desbloquear a timidez de If Lucy Fell. Talvez só tenhamos começado a tocar ao vivo por sua causa. Uma actuação televisiva no programa do Jools Holland, fez-nos entender, de uma vez por todas, que não era a perfeição técnica que nos movia, mas sim as ganas com que se entrava para o palco. Estava tudo desafinado, tudo ao lado, o Cedric preferia tocar pandeireta em vez de cantar (tinha que ser o guitarrista a dobrar as vozes), mas aquilo era a coisa mais linda do Mundo. E se eles podiam ir a um programa de televisão fazer aquilo, porque teríamos nós que colocar tanta pressão no que conseguiríamos fazer – tecnicamente – em palco? Por momentos parecia que o fantasma do heavy metal, e do seu perfeccionismo, tinha vindo para nos assombrar. Os At The Drive In vieram libertar-nos desses constrangimentos.

Portugal. The Man “Censored Colors”

(2008)

Há discos que nos salvam a vida. Talvez não num sentido literal, de cessação de vida. Mas num sentido emocional. Este foi um desses discos. 2008 foi um ano muito difícil para mim e algumas das pessoas mais próximas. Por várias razões, algumas delas interligadas. Mas foi o fim e o início de muita coisa. Foi neste ano que If Lucy Fell fez a sua última tour europeia. Ainda fizemos mais uns concertos até 2009, mas não fizemos mais tours, ou discos. E essa tour foi especialmente dura para dois de nós. Eu passei a tour inteira a ouvir e decorar os versos de “And I”, a única música que já tinha saído desse álbum – o disco saiu logo depois de terminada a tour. “Some were reborn, some were simply shaken free…we’ll be reborn, we’ll simply be free, we’ll be the colors, that pour through de streets”. Depois chegou o disco inteiro. Foi caixa de lenços e foi vitral trespassado pelo sol. Foi também este disco que me fez pegar na guitarra pela primeira vez e escrever a minha primeira canção sozinho. Nunca a usei, mas foi o início de uma bonita jornada que tem sido esta; a de aprender a compor e escrever canções. Sem Portugal. The Man talvez não houvesse MURAIS.

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