Cinco singles da Eurovisão em 1967

Iniciamos uma nova série no GiRA DiSCOS. 5 Dias 5 Filmes. Sim, o título não é original, mas lembra uma das melhores memórias que tenho de boa programação de cinema em televisão. A ideia é a de escolher um tema por semana e selecionar depois cinco discos, independentemente dos formatos. Hoje começamos com discos de sete polegadas a 45 rotações. Singles e EP… E todos eles com uma canção que tenha passado pela edição de 1967 do Festival da Eurovisão.

1967 foi o último ano em que a emissão televisiva se fez a preto e branco. Mas mesmo assim não faltaram novidades. Realizado numa sala do Hofburg, o antigo palácio imperial dos Habsburgos no coração da cidade de Viena, o festival apresentou uma cenografia inovadora, focada nas possibilidades de imagens de fundo geradas por espelhos rotativos colocados por detrás dos cantores. A outra grande novidade televisiva foi a estreia de um espaço até aí nunca visto: o da green room, onde os intérpretes aguardavam pelos resultados da votação.

Para quem gosta da informação arrumada:

Festival da Eurovisão 1967

Vencedor: “Puppet on a String”, de Sandie Shaw (Reino Unido)

Data: 8 de abril

Local: Grosser Festsaal, Hofburg, Viena (Áustria)

Participantes: 17

Canção portuguesa: “O Vento Mudou”, Eduardo Nascimento (12º lugar, com 3 pontos)

Recordemos então cinco canções que contam cinco histórias da edição de 1967 do Festival da Eurovisão.

Sandie Shaw “Puppet On A String”

(Reino Unido – 1º lugar)

O concurso tinha já mais de uma década de vida mas, depois da vitória de France Gall em 1965, com Poupée de Cire Poupée de Son (canção de Serge Gainsbourg), uma nova modernidade pop começava a dominar as atenções, afastando o protagonismo da chanson que tinha ditado as tendências nos seus primeiros anos. A cantora britânica Sandie Shaw venceu com Puppet on a String, canção que não só vincou sinais de juventude no formato, como abriu caminho para um território musical que muito ficaria a dever às movimentações eurovisivas: o euro pop.

Sandie Shaw não era uma estreante. Já tinha carreira há alguns anos e até um número um britânico alcançado em 1964 com Always Something There To Remind Me. Pupppet on a String causou impacte imediato (e tornou-se na sua canção mais célebre), tendo valido ao seu sucesso eurovisivo uma característica visual (afinal estamos a falar de um programa de televisão, no qual a imagem ajuda a “escutar”): a cantora entrou descalça em palco e esse pequeno detalhe foi referido vezes sem conta nos textos publicados nos jornais do dia seguinte que, pela Europa fora, davam conta da sua vitória. O gimmick começava a marcar pontos na história da Eurovisão…

Vicky Leandros “L’Amour Est Bleu”

(Luxemburgo, 4º lugar)

Filha do compositor grego Leandros Papathanasiou e de seu nome real Vassiliki Papathanasiou, Vicky Leandros tinha já dois anos de vida nos discos quando recebeu um convite do Luxemburgo para representar o país no Festival da Eurovisão de 1967. Foi-lhe atribuída a canção L’Amour Est Bleu, uma balada de travo clássico e orquestração imponente que, apesar do quarto lugar obtido em Viena, acabou por se revelar um dos grandes êxitos internacionais do ano, gerando várias versões como, por exemplo, aconteceu entre nós com o Conjunto Académico João Paulo.

Esta não seria a única passagem de Vicky Leandros pela Eurovisão. De resto, em 1972, e novamente pelo Luxemburgo, apresentou Aprés Toi que, então, lhe valeu uma vitória no concurso.

Minouche Barelli “Boum Badaboum”

(Mónaco, 5º lugar)

A mais ousada das canções apresentadas a concurso em 1967 chegou do habitualmente mais conservador Mónaco (que curiosamente tinha sido o responsável pela presença eurovisiva de Françoise Hardy em 1963). A canção Boum Badaboum era interpretada por Minouche Barelli, filha de uma cantora francesa e de um músico de jazz, com carreira discográfica sobretudo mais visível entre 1966 e 1980 mas que obteve nesta participação no ESC 1967 o seu momento de maior reconhecimento internacional.

Dois anos depois de ter assinado a canção vencedora Poupée de Cire Poupée de Son (pelo Luxemburgo), Boum Badaboum representava a segunda experiência eurovisiva de Serge Gainsbourg como autor. A canção traduzia um fulgor rítmico que captava alguns ecos do seu álbum recente Gainsbourg Percussions… O músico francês regressaria à Eurovisão, uma vez mais como autor, em 1990. E dessa vez pela França.

Louis Neefs “Ik heb zorgen”

(Bélgica, 7º lugar)

A história da Eurovisão conheceu em variadas ocasiões novas visitas de vozes que antes já tinham passado por aqueles palcos. O ano de 1967 correspondeu de resto ao palco de estreia para várias vozes que regressariam mais adiante. Vicky Leandros seria, de todas, a que melhor resultado obteria numa segunda passagem vencendo em 1972. Fredi, que então representava a Finlândia, voltou a participar em 1976 como elemento do grupo Fredi & The Friends.

Um outro exemplo de figura que regressaria a um palco eurovisivo era a do cantor belga Louis Neefs. Editara o seu primeiro álbum em 1960 e tornara-se uma figura reconhecida no universo da música cantada em flamengo. Em 1969 regressou com Jennifer Jennings, repetindo o sétimo lugar na classificação.

Eduardo Nascimento “O Vento Mudou”

(Portugal, 12º lugar)

Em 1967 Nuno Nazareth Fernandes convidou Eduardo Nascimento para cantar O Vento Mudou no Festival da Canção, que então se chamava Grande Prémio TV da Canção Portuguesa. A canção, com música de Nuno Nazareth Fernandes e letra de João Magalhães Pereira que venceu a quarta edição do concurso e ali ganhou passaporte para levar a canção até Viena (na Áustria), que nesse ano acolheu o Festival Eurovisão da Canção.

Terminou a noite em 12º lugar, o melhor resultado para uma canção portuguesa até então. E ali ajudou a fazer história já que, um ano depois da holandesa Millie Scott, foi o segundo cantor negro a cantar no concurso internacional, cimentando assim um processo de caminhada rumo a uma maior representação de diversidade na Eurovisão.

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