Desapareceu, aos 73 anos, um dos fundadores dos Kraftwerk

Florian Schneider esteve, desde o início, a bordo de uma aventura que ajudou a levar a música eletrónica a outras paragens. Afastou-se dos Kraftwerk em 2008 mas toda a etapa criativa que definiu a obra em disco grupo alemão contou com a sua importante contribuição. Texto: Nuno Galopim

Tal como muitos outros jovens alemães nascidos depois da II Guerra Mundial, e votados em seguir um caminho nas artes, Florian Schneider deparou-se com a necessidade de encontrar um caminho. Por um lado havia ao seu redor ecos de um passado no qual não se reconhecia. Por outro um presente culturalmente dominado pela presença daqueles que tinham ganho a guerra. Filho de um arquiteto, e tendo passado já por primeiras bandas – entre a qual uma que se apresentava como Pissoff – estava em 1968 a estudar numa escola de artes em Remscheid quando conheceu Ralf Hutter.

Florian tocava flauta e, juntamente, com Hutter e Eberhard Kranemann, que vinha dos Pissoff, começou a desbravar caminhos mais exploratórios. Juntamente com Basil Hammoudi, Butch Hauf e Fred Monicks, Ralf e Florian formam depois os Organization, que chegam a gravar o álbum experimental Tone Float, em 1970. Ainda o álbum estava a ser gravado e já o quinteto se apresentava ao vivo com o nome Kraftwerk… Acontece que havia um acordo para editar o disco no Reino Unido, pelo que Tone Float sai como Organization…

Havia na altura uma importante cena free jazz na Alemanha Ocidental. Entre os músicos jovens notava-se por um lado uma vontade em evitar caminhos herdeiros de lições germânicas de outrora mas, mais ainda, um desejo em escapar às músicas com raízes nas tradições dos blues e suas descendências que habitavam a cultura “ocupante” americana. Sentiam um impulso em encontrar uma outra via. E das experiências visionárias dos novos estúdios / laboratórios montados sobretudo em estações de rádio, emergiu um desafio com sabor a coisa nova: a música eletrónica. Florian Schneider interessa-se então pelos sintetizadores. E das mutações que se vivem depois dos Organization emergem os Kreftwerk, fundados por si e Ralf Hutter e que, ainda em 1970, se estreiam em disco com um álbum homónimo.

É pelos caminhos da música experimental que o grupo evolui ainda no sucessor Kraftwerk 2 (1972), surgindo em Ralf and Florian (1973) sinais de procura de um sentido de ordem estrutural. A arquitetura rítmica vai aos poucos ganhar protagonismo na música dos Kraftwerk. Além disso o outro “achado” diferenciador – que os elevará a um novo patamar de popularidade – chega quando decidem procurar uma realidade de expressão identitária, um pouco como o surf tinha representado para os californianos Beach Boys. E é aí que entra em cena uma visão diferenciadora da Alemanha do presente: a auto-estrada. E dessa ideia nasce Autobahn (1974), o disco que faz a mudança na obra dos Kraftwerk.

Seguem-se Radio-Activity (1975), Trans-Europe Express (1977) e The Man Machine (1978), definindo progressivamente todo um ideário centrado na relação entre o homem e a máquina. De resto, quem tiver a memória da primeira atuação dos Kraftwerk em Portugal (já no século XXI) lembrará certamente o perfil quase robótico (e aparentemente imóvel) de Florian Schneider em palco. Era quem mais bem vestia essa pele.

Depois de Computer World (1981) e de Electric Café (1986) a formação do quarteto conheceu várias mudanças. Ralf e Florian mantiveram-se como corpo central e firme, presentes quer no disco de novas versões e remisturas The Mix (1991) quer em Tour de France – Soundtracks (2003), que até hoje corresponde ao mais recente álbum com música nova do grupo. Florian esteve ainda a bordo nas digressões que houve pelo caminho, uma delas registada em Minimum / Maximum (2005).

Florian Schneider deixou o grupo em novembro de 2008. E seguindo o tom lacónico habitual a muita da sua comunicação ao longo dos anos, nada foi explicado. Nos anos que se seguiram o seu nome voltou a surgir na música com a criação de Stop Plastic Pollution (ouvir aqui), um tema (criado em colaboração com Dan Lacksman, dos Telex) sobre a necessidade de travar a poluição dos mares com plástico, lírica e musicalmente na linha do trabalho dos Kraftwerk.

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