Dez discos que definiram o meu gosto – Né Ladeiras

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é a Né Ladeiras.

Neil Young “After the Gold Rush”

(1970)

Foi neste ano que tive uma guitarra, a primeira, oferecida pelo meu pai. Ele e o meu irmão mais velho tocavam. O pai, as canções que aprendera nos clubes de jazz da América, e o meu irmão, que tinha uma banda “Os Duendes”, os sucessos que as bandas de rock da altura lançavam. Ensinaram-me os acordes e eu emancipei-me porque, finalmente, podia cantar e acompanhar-me o que dava mais emoção à coisa. As minhas mesadas iam direitinhas para a a loja do Valter que vendia LPs importados e este foi comprado antes de receber o sermão do costume da mãe… Era “uma chapa-ganha, chapa-gasta, tinha que saber poupar, a vida não estava para peões”  e por aí fora. Eu  ficava bem feliz com a música que soava no meu quarto. Tell me why, After the Gold Rush, I Belive in You foram tiradas de ouvido e fizeram parte do duo que tinha na altura com a minha amiga da escola, a Anabela, que também tocava guitarra. Éramos as Love, Peace & Tears (!!!)

Candles in the Rain “Melanie Safka”

(1970)

A Melanie Safka ouvi pela primeira vez na rádio, creio que no programa Em Órbita, o que se ouvia mais em casa, e fiquei fascinada. Que voz era aquela? E lá fui perguntar ao Valter se a conhecia e aguardei que o LP chegasse às minhas mãos. O vinil ficou num estado tremendo pelas inúmeras vezes  que tocou e voltou atrás. Tirei os temas todos e agora era a valer. Fazia os meus concertos  para o meu cão Tim e os caracóis que salvava nos dias de chuva e deixava que andassem à vontade pelo quarto, até ser descoberta pela mãe. A Melanie “empurrou-me” para cantar a solo e agora, aos 11/12 anos, pediam-me para cantar nas festas do ciclo, nos eventos familiares, e já em algumas bandas de Coimbra que pediam licença aos meus pais para me levarem para os concertos. Houve um festival em Rio Tinto, por volta desta altura, em que participei com a banda rock dos meus primos do Porto, A Grelha, com o António Pinho Vargas nas teclas, e com a participação dos Pop Five Incorporated. Eu, de túnica, como as da Melanie, cantei Candles in the Rain e Wild Horses.

Fausto “Fausto”

(1970)

Chora, amigo, chora, e Ó Pastor que Choras passavam muito no programa Em Órbita. Fazem parte do primeiro LP do Fausto, que ele não reconhece e até renega, com imensa pena minha pois marcou-me para sempre e é um álbum belíssimo. Tinha uma sonoridade inovadora, canções fantásticas e um som de guitarra que antevia o compositor notável que o Fausto é. O belíssimo tema de abertura, Madrugada, e Quando um Homem quer Partir, foram descobertas melódicas que me entusiasmaram por demais, mal eu sonhava que 26 depois viria a gravar uma das minhas grandes referências em Todo Este Céu.

José Afonso “Traz Outro Amigo Também”

(1970)

O José Afonso era muito cantado na família. Apesar de ter um tio deputado da Assembleia Nacional não havia problema que nas reuniões de família fosse o eleito pelos primos e irmãos. Os Vampiros, do EP editado em 1963, que a geração prestes a ir para o Ultramar tinha como seu manifesto, era entoado a vozes e com as guitarras todas reunidas para aquelas  ocasiões, sobre o sorriso  parcimonioso do meu tio Fernando, condescendente com a rebeldia das crias. Com os meus seis anos não entendia a profundidade da mensagem, mas aos 11 abriu-se um mundo inteiro com Traz Outro Amigo Também. E lá fui a correr para a guitarra tentar fazer a introdução do Bóris. De tal forma se tornou importante para mim que o gravador ao serviço dos meus ensaios solitários, registou numa cassete de 60 minutos as canções do Zeca que eu conhecia.E, mais uma vez, tão longe de mim estava a ideia de anos mais tarde vir a fazer coros nas Sete Mulheres do Minho, e a cantar a sua música testamentária, Benditos, do seu último trabalho Galinhas do Mato. O que eu dava para encontrar essa cassete…

Joni Mitchell “Ladies of the Canyon”

(1970)

A Joni Mitchell apareceu na minha vida por causa de Woodstock. E Woodstock apareceu na minha vida por causa dos Crosby, Stills, Nash and Young e estes por causa do primeiro da lista, Neil Young. O arranjo vocal do tema deixou-me perplexa e eu quis saber da fonte. Fonte encontrada não mais a perdi de vista e os álbuns comprados foram-se sucedendo. A Joni Mitchell era muito mais complexa, um desafio vocal e instrumental praticamente inalcansável. O que me atraía muitíssimo eram as afinações nada convencionais das suas guitarras e experimentei algumas quando compus Corsária.

Adriano Correia de OliveiraCantaremos”

(1970)

Na banda sonora dos eventos familiares, com um tio do Estado Novo a “permitir” manifestações da juventude  insatisfeita, o Cantar de Emigração era uma das formas de protesto a ter em conta. Por vezes os diálogos acendiam-se. O clã dividia-se em duas partes: uma  salazarista (embora ache que o tio Fernando era bem mais liberal do que parecia), com o meu avô à frente, tios avôs e tias e a parte “comunista” que era o meu pai e a juventude daqueles tempos, isto se “comunista” era estar contra a guerra colonial, a emigração, a má vontade em relação aos professores (pois mais ninguém  podia ser melhor educador que o de Santa Combadão) e muitas outras perseguições que eram listadas nesse confronto de ideias. O pai era mais excessivo e ficava impaciente com a teimosia ideológica da outra facção e a mãe punha água na fervura  para que o seu irmão mais velho não se ofendesse com a verborreia incontida do cunhado. Lembro-me  que no fim desses convívios abraços eram espalhados e a coisa ficava por aí (sendo que no carro  a mãe “tratava” de dar o sermão e missa cantada ao pai, até chegarmos a casa). Mas do que me lembro mais era de uma profunda tristeza que o Cantar de Emigração me transmitia – e todos, todos se vão. Quantas vezes escutei o Adriano neste LP  e, poucos anos depois, ao vivo em palcos, que o PREC nos dispunha. Aquela voz inconfundível vinha da minha infância e permanecia na minha adolescência  no convívio privilegiado com este grande e gentil senhor.

Leonard Cohen “Songs of Love and Hate”

(1971)

Foi no programa Em Órbita que escutei pela primeira vez este disco, melhor dizendo Joan of Arc, e fiquei vidrada e pus os pés a caminho da loja do Valter. Já a referi ao longo desta lista, pois nesta década era lá que comprava os LPs. A loja ficava na praça da República, em Coimbra, e no piso inferior eram vendidos electrodomésticos e artigos para casa, no andar de cima era aquela maravilha de vinil em forma de singles, EPs e LPs. Trouxe o Leonard para casa e pronto, fiquei naquele estado de audições repetidas até saber todos os pormenores de cada faixa, que o gira-discos me permitia captar. O que o programa Em Órbita fez a muitos ouvintes foi extraordinário. Que prazer escutar rádio assim quando a rádio era feita com qualidade, sem play-lists e o programa de autor era cuidado.

José Mário Branco “Margem de Certa Maneira “

(1972)

A forma séria e densa das suas composições, assim como os arranjos elaborados e nunca ouvidos , até então, deixavam-me num estado emocional de temor e respeito. Atrevi-me a cantar Aqui Dentro de Casa no quarto e anos depois num concerto, mas não voltei a repetir. Este álbum marcou-me muito. Passei dias e dias a escutá-lo ininterruptamente, a tal ponto que  a Maria foi um dia ao quarto porque “a mãezinha está preocupada com este vira-o-disco-e-toca-o-mesmo e pergunta quando é que vai voltar ao normal, com a Melanie e assim”. Doze anos depois, em Angola, num  concerto em que ambos participámos, pensei em lhe contar a ligação que tinha com este álbum, mas não fui capaz pelo temor e respeito que lhe tinha. Nem fui capaz de lhe revelar que a chulinha Eu vim de Longe, Eu Vou para Longe era a canção preferida do pai, que se emocionava profundamente, sempre que a escutava, num choro de desilusão pela revolução morta à nascença.

Sérgio Godinho “Os Sobreviventes”

(1972)

Este álbum passava bastante no programa da minha eleição, Em Órbita, e canções como Romance de um Dia na Estrada, Farto de Voar, Que Força É Essa levaram-me ao Valter, claro, e com a minha mesada comprei o LP. Depois deste seguiram-se mais. Já na Brigada Victor Jara cantava, nas Campanhas de Dinamização do MFA, Cão Raivoso, Os Pontos nos iis, O Capital, Um Tractor, Bacalhau Basta, Foi a Trabalhar, um reportório extraordinário para a  a fase que atravessávamos. Na altura surgiram baladeiros em força,  mas as canções do Sérgio, do Fausto, do José Afonso, do Adriano, do José Mário eram o topo do bem feito. Este LP  foi mais um marco importante que me preparou para o que estava para vir e, como os dos nomes  que mencionei, foi crucial na expansão da minha consciência.

Joan BaezCome from the Shadows”

(1972)

Gostei  sempre da Joan Baez, mas este LP (comprado no Valter) foi o que impulsionou a minha procura por ela. Da primeira à última faixa é magnífico. Numa tour pela União Soviética, em 1978, ainda integrando a Brigada Victor Jara (sairia uns meses depois), abri as primeiras partes dos concertos cantando Joan Baez e Bob Dylan (que melhor aprofundei pelas versões da Baez). Não contava que isto acontecesse mas, na viagem para lá, foi-me pedido que o fizesse. E assim foi. Experiência fantástica, que alguns camaradas viram como demasiado protagonismo da minha parte, sendo que a ideia nem minha tinha sido… Mais álbuns existem e fazem parte da banda sonora da minha vida, mas estes formaram o ponto de partida do  meu canto e, por isso, para sempre ligados a mim.

Mais álbuns existem e fazem parte da banda sonora da minha vida, mas estes formaram o ponto de partida do  meu canto e, por isso, para sempre ligados a mim. – Né Ladeiras

3 pensamentos

    1. Eu era muito novo para ouvir o Em Órbita em 1970. Mas pela mera leitura das palavras há uma diferença entre uma lista de “os melhores do ano” e o que eventualmente um programa pudesse passar nesse mesmo ano. Ou seja, e sem que isto seja uma resposta, não há contradição nenhuma entre um universo e uma lista que dele possa nascer. A lista será sempre parte de um universo e nunca o retrato da sua totalidade.

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      1. O disco do quarteto é de 1967. Na altura foi o primeiro disco português a ser divulgado no programa iniciado em 1965. A primeira fase do programa ainda durou até Maio de 1971. Naturalmente que podem ter passado outros discos mas face ao histórico inicial não há logo uma associação da música portuguesa com o programa. Também não fui contemporâneo do programa por isso ter ficado na dúvida. Até porque poderia ter sido uma troca da Né Ladeiras ao referir o nome do programa pois ela teria 11 anos. Claro que a lista dos melhores de 1970 era apenas uma amostra do que o programa continuava a apresentar. 🙂
        obrigado.

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