Dez discos que definiram o meu gosto – Flak

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Flak.

Escolher dez discos quando se passou a vida toda a ouvir música é tarefa complicada. Por mais que se queira resumir fica sempre muita coisa de fora. Neste caso, dentro dos álbuns que mais gosto, optei pelos que mais me marcaram. Texto: Flak

Bob Dylan “The Times They Are a-Changin’”

(1964)

Nas férias da escola passava temporadas em casa dos meus avós. Na casa havia um gravador Akai, o máximo da tecnologia na altura. Eu passava o tempo a ouvir as bobines que o meu avô e o meu tio gravavam. O meu tio, mais jazz e música francesa, o meu avô, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Amália. Mas havia uma a que eu voltava mais vezes. Gostava daquela energia rude. E das canções.

Pink Floyd “Atom Heart Mother”

(1970)

O primeiro LP que comprei. Já não me lembro o porquê da escolha mas penso que foi para provar ao meu avô que a música rock não era feita só por gente básica e iletrada. Sentados à mesa da casa de jantar ouvimo-lo de uma ponta à outra e no fim admitiu que eu era capaz de ter razão. Foi também o meu primeiro contacto com a música concreta. Punha as colunas do gira-discos a fazer de headphones e adorava ouvir o som da mota e dos cavalos a passar de uma coluna para a outra, o som dos ovos a estrelar na última faixa.

José Afonso “Cantigas do Maio”

(1971)

O Cantigas de Maio foi gravado no Chateau d’Herouville em 1971. No mesmo ano foram lá gravados discos dos Gong, dos Grateful Dead, os primeiros LP do José Mario Branco e do Sérgio Godinho. Um dos estúdios mais requisitados dessa época. Toda a gente famosa gravava lá, do Bowie ao Elton John, dos Pink Floyd aos T. Rex. O Zeca Afonso tinha ido gravar o disco anterior, Traz Outro Amigo Também, a Londres. Era excelente, cheio de clássicos, mas tinha um som pesado, demasiado reverberado. No Cantigas do Maio tudo se conjugou para fazer o disco perfeito. Os arranjos e produção geniais de José Mario Branco, os músicos de estúdio franceses habituados a gravar com as estrelas da altura, as reverberações e delays tudo no espaço certo.

Mahavishnu Orchestra “Birds of Fire”

(1973)

Enquanto esperava o comboio para o liceu, costumava entrar numa papelaria próxima da estação para ver revistas. Um dia entrei e estava na prateleira um livro de capa roxa chamado Rock-Trip de um tal Jorge Lima Barreto. Achei que o assunto me podia interessar. O livro acaba com uns pequenos capítulos, alguns em escrita automática, onde destaca as figuras que achava mais importantes à época. Estão lá os Beatles os Rolling Stones o Bob Dylan o Frank Zappa o Jimi Hendrix os Pink Floyd o Zappa os Roxy Music e fechava com os únicos de quem eu nunca tinha ouvido falar, Mahavishnu Orchestra. Estávamos em 1975, os Velvet Underground ainda não eram o cânone que se tornaram com a chegada dos 80s. Juntei dinheiro e fui à Discoteca Melodia na Rua do Carmo. Pedi para o ouvir. Encaminharam-me para um compartimento em vidro com duas cadeiras e um altifalante junto ao tecto. Quando acabou o lado A estava confuso. Que sons saiam dali que não conseguia identificar? E assim comprei o Birds of Fire. Ouvi-o sem parar nos meses seguintes.

Keith Jarrett “Facing You”

(1972)

O meu gosto pela improvisação deve vir daqui. Houve uma fase em que o ouvia todos os dias e por vezes não me era fácil. Ficava à espera que passassem as partes duras para chegar às passagens de que gostava. Como dar uma martelada num dedo para ter prazer no alívio.

Can “Ege Bamyasi”

(1972)

Na época em que ouvíamos Genesis, Yes, Emerson Lake and Palmer, Led Zeppelin e por ai fora, foi-me parar às mãos um disco de uma banda alemã de que nunca tinha ouvido falar. Era a antítese de tudo o que estava na moda. Os ritmos eram repetitivos a voz gritada. Soava diferente do que eu até então conhecia. Mais tarde soube que tinham como método gravar improvisações que depois editavam. Um som intemporal. Se tivesse saído ontem ninguém acharia estranho. Uma inspiração para os Micro Audio Waves.

Patti Smith “Horses”

(1975)

Para quem tocava, como eu, em bandas de garagem nos anos 70, grande parte da música editada na época estava para além das nossas capacidades tanto musicais como de meios. O Horses veio confirmar aquilo que suspeitávamos. Não era preciso ser virtuoso nem usar equipamento sofisticado para se fazer grandes discos.

Steve Reich “Music for 18 Musicians”

(1978)

O meu primeiro contacto com a música minimalista deu-se na Juke-box do café onde parávamos com o single I Wanna Be Your Dog dos Stooges. Chamou-me a atenção o piano martelado na mesma nota que atravessa a música toda. Numa época de grandes solos gostava daquele contraste. Mais tarde, descobri que foi produzido pelo John Cale que já a tinha levado este som aos Velvet Underground. Steve Reich é o meu compositor minimalista preferido e conhecer este disco foi importante tanto para mim como para várias gerações de bandas e compositores.

David Bowie “Low”

(1977)

Low é um disco único. Com um lado A espontâneo, por vezes mal acabado, e um lado B instrumental gravado com Brian Eno. Deu início à fase de que mais gosto do Bowie. Durou até Scary Monsters que também podia estar aqui. Teve uma influência maior nas décadas seguintes. Mais um disco gravado no Chateau d’Herouville.

Fred Frith “Gravity”

(1980)

O rock progressivo dos anos setenta teve uma vertente mais experimental em bandas como Henry Cow ou Art Bears, mais influenciados pelo free-jazz e pelas vanguardas do século XX do que pelos compositores românticos do século XIX. Gravity, é o segundo disco a solo de Fred Frith, guitarrista dos Henry Cow. Mistura músicas do mundo de uma forma ao mesmo tempo acessível e avant-garde. Uma grande influência. 

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