Vários “The Rebirth Of Cool” (1991)

Editado em 1991, o primeiro volume da série “The Rebirth of Cool” juntava nomes como os Young Disciples, Galliano, Gang Starr, A Tribe Called Quest ou Dream Warriors para construir um olhar sobre entusiasmos de alma jazz que então animavam várias frentes da criação musical urbana. Texto: Nuno Galopim

A alvorada da década de 90 traduzia as consequências de várias movimentações que os universos da música urbana tinham vivido depois de um ‘boom’ de atenções que universos como os da house ou do hip hop (e suas descendências ou cercanias) tinham começado a receber. Não mais eram manifestações de nicho votadas a espaços e públicos concretos. Tal como ocorrera com o disco dez anos antes, eram agora realidades do mapa mainstream. Naturalmente as linhas da frente da invenção não pararam para fazer a festa e colher louros. O prazer da vertigem e do desafio continuava a cativar a atenção de músicos, de DJs e daqueles que, como eles, queriam continuar a desbravar terrenos inventando novos futuros que, por vezes, podiam implicar redescobertas no passado.

            Como sempre, quem já andava na estrada acabou por definir caminhos de forma mais nítida. Já com anos de vida (estreado na londrina, e então pirata, Kiss FM), o programa The Original Rare Groove Show, de Norman Jay, tinha já criado hábitos de cruzar antigos discos de jazz, R&B, reggae, soul ou de música latina com as formas emergentes na música de dança. Novos DJ e músicos descobriram estímulos semelhantes e, aos poucos, as movimentações mais distantes dos focos das grandes atenções foram alastrando e somando ideias. A emergência de uma cultura de corte e colagem, a abertura do hip hop e da house a novos estímulos, colocaram em cena novas ideias. Surgem novas editoras (como a Talkin’ Loud e a Acid Jazz Records), mais projetos musicais e DJs, assim como espaço de atenção nos media. O jazz voltava a ocupar um espaço nas pistas de dança (e não apenas nos clubes de jazz)… Uma nova “jazz thing” estava claramente a ganhar forma.

            “Os anos 90 vão ser a década da jazz thing”… Assim abria o texto que líamos na contracapa de uma compilação que, editada em 1991, mal imaginava ainda que seria o primeiro de uma série que cruzaria quase toda a década sob um mote comum: o da “fusão do jazz com a música de dança contemporânea”. Com Patrick Forge (da Kiss FM) como principal arquiteto da ideia e Julian Palmer e Trevor Wyatt como parceiros na curadoria, o volume um da série The Rebirth of Cool (e o título era desde logo bem sugestivo) juntavam ali artistas e grupos de várias geografias e origens culturais, mas com uma característica maior em comum: a criação de uma nova forma de integrar o passando no presente da música, quer pela citação, quer pelo sampling ou por meros exercícios e jogos de afinidades. Acid jazz, jazz hip hop e outros sabores começam aqui a fazer um retrato do seu tempo. É certo que nada substitui incursões focadas nos discos das primeiras fornadas da Talkin’ Loud ou em álbuns então recentemente lançados como Step In The Arena (1991) dos Gang Starr ou And Now The Legacy Begins (1990) dos canadianos Dream Warriors. Mas através da série The Rebirth of Cool conseguimos de facto traçar um mapa com alguns dos pontos de referência da “jazz thing” que alimentou os sabores da música urbana dos anos 90.

            Pelo primeiro volume de The Rebith of Cool (com belíssimo grafismo de Swifty e Wrighty, piscando o olho a iconografia clássica do mundo das capas do jazz dos anos 60) junta de facto a música dos Gang Starr e Dream Warriors, assim como inclui nomes do catálogo da Talkin’ Loud (Galliano e Young Disciples). Entre nomes sobretudo encontrados entre o Reino Unido e EUA o alinhamento junta ainda contribuições dos A Tribe Called Quest, Stetsasonic, ou Young MC, entre outros, optando em alguns casos por apresentar remisturas. Ao todo são 14 temas, espantosamente arrumados no espaço das duas faces de um LP.

            Os volumes seguintes surgiriam em formato de LP duplo, salvo o sétimo (de 1998), apresentado como um doze polegadas triplo. Lançada entre 1991 e 1998 esta série conheceu contudo uma progressivamente mais visível expressão das suas edições em CD (apesar de nunca ter prescindido do vinil). The Rebirth of Cool Too (1992) incluía, entre outros, Ronny Jordan, os Chapter and the Verse, a dupla Pete Rock & CL Smooth, Mica Paris, Kid Frost, Manu Dibango (com MC Mell’O) e encontros dos Gang Starr ora com os Dream Warriors ora com Slam Slam. Uma importante abertura a outras geografias é vincada em Rebirth of Cool Three (1993), onde encontramos MC Solaar, United Future Organization, Greg Osby, Dana Bryant, os Stereo MC’s ou Courtney Pine (com Juliet Roberts). Este trio de edições marcou os episódios mais significativos da série. Mas há ainda motivos de interesse para (re)descobrir The Rebirth of Cool 4, de 1994 (Tricky, DJ Krush, Mondo Grosso), The Rebirth of Cool Phive, de 1995 (Coldcut, Bomb The Bass, Beastie Boys, Kruder & Dorfmeister, Massive Attack, Portishead), The Rebirth of Cool Six, de 1996 (Lamb, Nicolette, Smoke City, Nitin Sawhney) ou o episódio final The Rebirth of Cool Seven, de 1998 (Roni Size, Faze Action, The Amalgamation of Soundz).

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