O filme que captou Little Richard quando a música dele fez uma estrela do rock’n’roll

O filme de 1956 “Don’t Knock The Rock”, que entre nós teve estreia como “A Loucura do Rock”, está bem longe de fazer um retrato realista da emergência do rock’n’roll. Mas entre as imagens há uma sequência que mostra Little Richard no tempo em que o mundo o descobre. Texto: Nuno Galopim

O cinema representou, tal como a televisão, um espaço de comunicação essencial quando, em meados dos anos 50, o rock’n’roll conquistou terreno no mapa mundo dos acontecimentos no universo da música e dos discos. Contudo, ao invés dos espaços da rádio, que atribuíam algumas frequências a estações dedicadas às comunidades afro-americanas, os pequenos e grandes ecrãs regiam-se, tal como os principais networks de radiodifusão, por uma política racial que, na melhor das hipóteses, secundarizava artistas que não tivessem a pele branca. Apesar do primeiro single de rock’n’roll ser de um negro (Ike Turner) e de figuras como Fats Domino ou Chuck Berry se contarem entre os principais pioneiros do género, o acesso à televisão valorizou sobretudo figuras como as de Elvis Presley ou Bill Halley e, com eles, surgiram então alguns filmes que fixaram essa visão branca do mundo do rock’n’roll.

                  É claro que não faltam a estes primeiros filmes sinais do choque cultural que então se fazia sentir perante a emergência de uma nova cultura juvenil. As narrativas não são contudo mais do que tramas ligeiras, com tempero mais “rebelde” dado pela música, na verdade mostrando os músicos como jovens até mesmo inofensivos… Na verdade, e se excetuarmos algumas performances de Elvis pré-tropa (sobretudo em Jailhouse Rock ou Kid Creole) há mais traços da real rebeldia da geração baby boomer no James Dean de Rebelde Sem Causa (1955), no Marlon Brando de Há Lodo No Cais (1954) ou até mesmo na versão para cinema de West Side Story (1961) do que em qualquer representação apresentada nos primeiros filmes com artistas e bandas de rock’n’roll que começaram a surgir nos grandes ecrãs a partir de 1956.

                  Os primeiros títulos de uma filmografia rock’n’roll estão num patamar tão irrealista no retrato social e cultural do rock’n’roll como a Cinderella ou A Bela Adormecida poderiam estar para um factual contar da história de um casamento real de outros tempos. Mesmo assim, há momentos que ajudaram a fixar (com bom som e imagem) algumas atuações históricas. Aconteceu com Little Richard, que vemos a cantar Long Tall Sally e Tutti Frutti numa sequência de Don’t Knock The Rock, filme estreado nos EUA em dezembro de 1956 e que chegou aos ecrãs portugueses em inícios de 1957 como A Loucura do Rock… Olhando atentamente para algumas expressões faciais de Little Richard, bem mais discretas do que em outras atuações da época, o filme é um belo exemplo de representação inofensiva (e incompleta) de uma realidade cultural bem mais complexa e potencialmente bem mais interessante.

A trama opõe jovens a uma comunidade que vê a nova música com suspeita (a história irá repetir-se em gerações seguintes, é verdade), e do cancelamento de espetáculos de rock alguns artistas ficam livres para poderem atuar numa festa estrategicamente desenhada para seduzir tudo e todos… E daí a presença não apenas de Little Richard mas também o grupo de R&B The Trainers. São eles os negros que vemos com desataque, mas como meros performers. Toda a ação e os protagonistas evitam potenciais conflitos num tempo em que as luta pelos direitos civis estava ainda longe das conquistas que faria na década seguinte. Bill Halley, que de resto já tinha conhecido visibilidade maior em Rock Around The Clock, também de 1956 (e possivelmente o primeiro filme a querer retratar o universo do rock’n’roll). Em comum ambos os filmes tinham não só a presença em ecrã do DJ Alan Freed (figura com peso na divulgação do rock’n’roll para um público mainstream na América de então) mas a realização – apenas pragmática – de Fred F. Sears, realizador que por aqueles tempos estava sob contrato da Columbia Pictures e que cumpria as tarefas de realização nos que o mandassem fazer. Apesar do peso “pioneiro” (mesmo historicamente discutível) de Rock Around The Clock, o melhor de Fred Sears neste período foi, na verdade, o filme The Earth Vs The Flying Saucers, também de 1956.

                  O tempo levaria Little Richard a outros filmes. Mas mesmo estando longe de ser uma obra maior, coube a Don’t Knock The Rock o papel de o fixar em imagens no ano em que o sucesso o fez uma estrela do rock’n’roll.

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