Dez discos que definiram o meu gosto – Pedro de Freitas Branco

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Pedro de Freitas Branco.

A formação do gosto musical é indissociável da vida propriamente dita. Formação cimentada na memória afetiva, jamais adulterada pela deformação da autocensura em nome do senso comum ou de qualquer projeto de marketing pessoal. Por isso, sempre obedeci à máxima de que devemos confiar no nosso ouvido. Sem vergonha. Sem medo. De coração aberto. Afinal, como escreveu Alex Ross, a melhor música é aquela capaz de nos persuadir de que não existe outra música no mundo.

Dez discos? Impossível! A minha vida tem sido viveiro de gosto pela música. Tia bailarina do Ballet Gulbenkian e avô paterno diretor do Teatro Nacional de São Carlos – Stravinsky e Wagner à lista! Primo pianista de Jazz – Duke e Miles à lista! Pai guitarrista do conjunto Ié-Ié Os Claves – Sheiks e Françoise Hardy à lista! Mãe apaixonada pela Música Popular Brasileira – Chico e Rita Lee à lista! E ainda, dez anos a escrever canções em português (Pedro e os Apóstolos) – Sérgio Godinho, Rui Veloso, UHF, TAXI, e G.N.R. à lista!

Diante da impossibilidade, decidi então para esta empreitada ser honesto comigo mesmo e com os venerandos leitores. Sem vergonha, sem medo, de coração aberto, vou cingir-me ao som que mais fundo me toca e melhor define o meu gosto: a moderna música popular anglo-americana. Texto: Pedro de Freitas Branco

The Beatles, “Rubber Soul”

(Parlophone, 1965)

Os meus pais separaram-se quando eu tinha um ano. E dividiram a pequena coleção de discos. Em casa da minha mãe, onde fiquei, havia o LP Meet the Beatles que eu adorava. No reduto do meu pai, onde passava alguns fins de semana, morava o Rubber Soul que eu amava. Lembro-me de chantagear o meu pai: só vou dormir se puseres o Rubber Soul! Porém, quando voltava para casa não podia levá-lo comigo. O problema só foi resolvido após acesa discussão entre progenitores em que a mãe obrigou o pai a “devolver” o disco em nome da educação musical do filho. Yupie! Um belo exemplar original inglês, stereo, com autógrafos dos Claves e do conjunto francês Les Problemes na contracapa. Álbum perfeito na forma e conteúdo. A estética, senhores! Aprendi a tocar guitarra e a cantar com Rubber Soul. Se os Beatles levaram-me ao rock britânico (Kinks, Searchers, Hollies, Small Faces, Rolling Stones), Rubber Soul, e toda aquela atmosfera folk-rock, abriu-me os ouvidos para Byrds, Blue Things, Tom Petty, e Bob Dylan.

Bob Dylan, “Desire”

(Columbia, 1976)

Aos nove anos de idade, possuía um punhado de singles – A Festa da Vida (Carlos Mendes) era o favorito – e um solitário LP: Crime of the Century, dos Supertramp. Foi comprado a pedido nos Armazéns do Chiado pelo meu avô paterno, o musicólogo João de Freitas Branco. Porém, foi outro o disco que na época transformou a minha vida. A transformação deu-se na quinta da família Froes – perto de São Martinho do Porto, salvo erro – onde eu passava curta temporada. Certa noite, os mais crescidos organizaram grande festa com DJ e tudo. Veio gente de todo o lado. Recordo-me dos faróis dos carros a aproximarem-se. E nós éramos as crianças que deixavam andar por ali a correr… De súbito, o impacto! Hurricane disparou nas colunas de som, fazendo-me voar nas asas do violino de Scarlet Rivera, das harmonias de Emmylou Harris, das cavalgadas vocais de Bob Dylan. A partir daquele momento, Dylan passou a ser herói e modelo. E, confesso, nunca consegui sentir tanto outro disco dele como sinto Desire.

Vários “Grease, Banda Sonora Original”

(RSO Records, 1978)

Todos têm telhados de vidro! Guilty pleasure ou não, o filme Grease e o respectivo duplo álbum foram divisor de águas na formação do meu gosto. Primeiro, eu era fã de John Travolta – imitava-lhe os passos de dança – e adorava disco sound desde Saturday Night Fever. Segundo, Grease expôs-me à magia teen do rock’n’roll dos anos 50, paixão obsessiva que carrego até hoje. Ainda vibro com as frenéticas sequências do concurso de dança Rydell ao som da banda revivalista Sha-Na-Na – Johnny Casino and the Gamblers no filme. Tears On My Pillow! No final desse ano lectivo, na escola Francisco de Arruda, levei o disco para a festa organizada na cantina. Um colega levou o Animals dos Pink Floyd. Inesquecível a expressão de horror dele quando insisti que pusessem o Grease a tocar. E o olhar de desdém que me lançou enquanto eu rodopiava pelo salão. O que queria ele? Que eu dançasse Pink Floyd?

Elvis PresleyThe Sun Sessions”

(RCA, 1976)

Esta é a primeira compilação editada das gravações entre 1954/55 para a Sun Records, em Memphis. Apareceu em casa da minha mãe, tinha eu uns doze anos (1979), e não sei como foi lá parar. Eu já gostava do Elvis, claro. Muito. No entanto, apenas conhecia os clássicos da fase RCA. Heartbreak Hotel, Don’t, Jailhouse Rock, etc. Ou seja, nada me preparou para a revelação da verdade gravada nos sulcos deste vinil. Sim, a verdade. Além do pioneirismo e da transcendente qualidade artística, existe nestas gravações um claro senso de honestidade e originalidade. Afirmo, sem peias, que The Sun Sessions é a minha Pedra de Roseta. Nenhum outro disco fez-me sentir tão vivo. E através dele estava pronto para o punk e a new wave do momento. Baby, Let’s Play House!

The Rolling Stones, “Aftermath”

(Decca, 1966)

Ainda em 1979, este LP foi um marco da pré-adolescência. Já conhecia os singles sessentistas da banda através da compilação Rolled Gold – que o meu primo Luís e eu roubámos da discoteca no último andar dos Armazéns Eduardo Martins (vergonha!) -, porém, no instante em que escutei Aftermath tornei-me fã e colecionador dos Stones do grau-camisa-de-forças. Caí de queixo no feitiço das canções, da malícia vocal de Jagger, da instrumentação eclética de Brian Jones, dos arranjos inventivos de Jack Nitzche. O mesmo feitiço que me deu coragem para engatar uma linda rapariga. Helena, a “gata”. O meu primeiro beijo na boca, com língua, aconteceu sob as vibrações de Under My Thumb. Misógino, eu? Não sabia o que era isso.

Lene Lovich, “Stateless”

(Versão US Epic/Stiff, 1979)

Sempre fui pouco punk e muito new wave – eufemismo para uma pop comercialmente orientada, porém, preservando conceitos punk. Por isso, no lugar deste álbum demolidor poderiam estar os primeiros álbuns de Devo e B-52’s, New Boots and Panties (Ian Dury), Cheap Trick at Budokan, ou Parallel Lines (Blondie). No entanto, era a Lene Lovich quem dividia as paredes do meu quarto com Rolling Stones e Beatles. O meu gosto começava a definir-se. Gostava do formalismo de canções concisas, diretas, e reais. Como Lucky Number. A New Wave fez com que me identificasse com o meu tempo. Já não estava refém da música de tempos que nunca vivi. Mesmo assim, reparem, uma das canções do LP foi hino garage nos anos 60: I Think We’re Alone Now.

RamonesEnd of the Century”

(Sire Records, 1980)

Não é o melhor disco dos Ramones. Longe disso. Todavia, contém a versão definitiva de Baby, I Love You. Canção “irmã” de Be My Baby (Ronettes) que, por sua vez, é para mim uma das grandes criações do século XX, obra-prima com influência mamute naquilo que sou. Por culpa deste álbum absorvi a noção de que o rock’n’roll pode ter dimensão sonora dramática, wagneriana, e que o conceito tem nome: Phil Spector. Se não fosse End of the Century, dificilmente eu teria tão cedo procurado e devorado discos de Ronettes, Crystals, Beach Boys, Jan & Dean, Righteous Brothers, e, posteriormente, Bruce Springsteen. Já não se fazem discos assim!

Bryan FerryThese Foolish Things”

(Island, 1973)

1980. Ano de rastilho do boom do rock português – Chico Fininho e Cavalos de Corrida -, e da minha emancipação como vinyl Junkie. Eu já levava a música muito a sério. No sentido romântico. Alimentava o sonho de formar uma banda e carregava discos para todo o lado. Objetos de primeira necessidade. Certa noite, os meus primos levaram-me a uma festa em casa de uns amigos na rua Buenos Aires, em Lisboa. Flesh and Blood, dos Roxy Music, tinha acabado de sair e tocou horas a fio. O impacto! A paixão à primeira audição guiou-me em direção a These Foolish Things, exercício brilhante de remodelagem de clássicos dos anos 50 e 60. A peça do puzzle que faltava. O artifício também podia ser verdadeiro e fulminante. E ainda incluía uma canção do Rubber Soul! Bryan Ferry e os Roxy foram a porta de entrada para David Bowie, Ian Hunter, e G.N.R.

Lloyd Cole and the CommotionsRattlesnakes”

(Polydor, 1984)

Comprei-o no dia em que saiu em Portugal, atraído pela misteriosa capa. Nem imaginei o que me esperava. Durante meses e meses não consegui ouvir outra coisa. Aprendi acordes, tirei letras, mergulhei a fundo na melancolia de Charlotte Street. A namorada da época, Catarina, não aguentava mais tanta “tristeza”. Fui com ela e outro casal ver o primeiro concerto dos Commotions em Cascais. A outra rapariga, namorada do meu amigo, viria a ser a minha primeira mulher. Ato contínuo, na segunda visita da banda a Cascais, promovendo Mainstream, eu já era casado e ela carregava na barriga o nosso filho Luís. Em 1991, conheci Lloyd Cole enquanto repórter do TOP +. E anos depois, o meu filho Luís, jornalista, entrevistou-o. Rattlesnakes é o mapa da minha vida.

The Beach BoysPet Sounds”

(Capitol, 1966)

Estava eu convencido de que o meu gosto estava definido quando Pet Sounds entrou-me pela vida dentro. Comprei-o no início dos anos 90, influenciado pelos instigantes elogios das revistas inglesas. Era fã dos Beach Boys, mas apenas da fase surf. Pet Sounds era um trauma. Por volta de 1980 um primo emprestou-me o álbum e eu estranhei a complexidade da obra. Não estava preparado para tanto. Devolvi-o sem conceder-lhe segunda chance – há discos que merecem a insistência. À segunda foi de vez. Fui enfim sequestrado por aquelas “sad songs about happiness”, como descreveu Nik Cohn. E o grande bónus é que o disco despertou-me definitivamente para certo West Coast Sound. Saggitarius, Love, Buffalo Springfield, Mamas and the Papas, Association… Hoje, eu sei que ninguém está musicalmente formado antes de absorver Pet Sounds.

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