Dez discos que definiram o meu gosto – Rui Portulez

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Rui Portulez.

Não há 10 discos que definam o nosso gosto. Haverá pelo menos 100, 1000, e outras tantas canções. Os que proponho hoje vêm sem ordem, tal como surgem na memória e na vida.

The Velvet Underground “VU”

(1985)

Esclarecido o óbvio, lembro-me de que um dos primeiros discos que comprei, em vinil, depois de ter consumido quilos de k7s e rádio foi o disco da banana dos Velvet com Nico. Mas o álbum que mais folheei da banda de Lou Reed, John Cale, Moe Tucker e Sterling Morrison, foi um póstumo chamado Velvet Underground, VU para os amigos. É um manual de canções incríveis, muitas delas associadas a livros e filmes.

Violent Femmes “Violent Femmes” (1983)

Foi a partir dos Velvet que cheguei aos seus seguidores, gente tão diferente como Jonathan Richmond and The Modern Lovers ou aos Jesus & Mary Chain, mas foi o álbum de estreia dos Violent Femmes, um disco imaculado, o que provavelmente mais ouvi nos idos anos 80. Reforçado pelo facto de o poder levar para ouvir durante aulas de Educação Visual, na companhia de outro clássico, “Rum Sodomy and The Lash” dos Pogues. Estava-se no 8º ano, e estava-se muito bem, enquanto o Gordon Gano ia perguntando, “why can’t i get just one fuck?”.

Tom Waits “Swordfishtrombones”

(1983)

Deve ter sido por esta altura que sob influência de boas companhias, graças ao Morrison Hotel ( e ao genérico escolhido por Rui Morrison) e ao Jim Jarmusch que fiquei fã para toda a vida do Tom Waits. Voltar a  “Swordfishtrombones” é sempre um prazer, nocturno, negro, inebriante, delirante e inspirador.

Pixies “Surfer Rosa”

(1988)

Corria o ano de 1988, mais coisa menos coisa, quando vi “just a fat guy with a t-shirt” na MTV a tocar uma canção estranha e incrível chamada “Gigantic”. Vim depois a descobrir a capa incrível com nome a condizer de “Surfer Rosa” que ainda vinha com o bónus de”C’mon Pilgrim”. O disco era alucinante. E ainda é! Veio engrossar a minha colecção da 4AD de Ivo Watts-Russel e confirmá-la como uma das editoras mais importantes e rompedoras da história. Ficou arrumado entre os Cocteau Twins, Throwing Muses e Wolfgang Press. E lado a lado com as Breeders

Pere Ubu “Modern Dance”

(1978)

Descobri “The Modern Dance” na Rádio Universidade de Coimbra. Os Pere Ubu, Alfred Jarry e muitas outras coisas. Experimentalismo, vertigem, desvario, tensão e uma descarga de energia punk logo ábrir num “Non-alignement pact” que podia ser um novo “God Save The Queen”. Percebi mais tarde que David Thomas podia ser o pai de Black Francis e filho de Don Van Vliet.. Os ouvidos escancararam-se quando percebi que era a primeira banda de Cleveland que já tinha ouvido a cantar em francês…

Enapá 2000 “Projecto Enapá 2000 Project”

(1991)

Sempre achei que os Ena Pá 2000 eram o agrupamento mais subavaliado da cena musical portuguesa. Praticantes do deboche sentimental e do vernáculo literal, nunca se coibiram de meter o dedo na ferida ou onde mais lhes apetecesse. Músicos de excelência, arranjadores da alma de um povo, ficarão para os anais da piada fácil, mas certeira e intelectual e politicamente sustentável. Vi-os pela primeira vez na televisão a denunciarem a opressão do playback. e muitas outras depois a anunciarem inúmeras coisas, inclusive o fim do mundo. Cada cavadela, cada minhoca. “Baum” é um tratado pós-doc de sociologia participada.

St. Germain “Boulevard”

(1995)

St. Germain, nome de pista de Ludovic Navarre, faz parte dos anos XFM. Surge aqui como como representante de uma época de descobertas da música electrónica e de dança (do drum’n’bass ao trip-hop, house, acid, tecno, french touch, whatever…). Um disco dançável dos pés à cabeça, com roteiro de pioneiros, influenciadores e sítios para seguir com devoção. Deep, deep, deep…

Beck “Mellow Gold”

(1994)

Outra das vertentes exploradas nos tempos XFM foi a do rock, pop, indie e tudo o resto que se avistava da varanda debruçada sobre a mítica Av. de Ceuta e colinas circundantes. Não foi por acaso que Beck entrou nas nossas vidas de rompante no Verão quente de 1994 em regime “Mellow Gold” a cavalo em “Loser”. Foi toda uma conjuntura de dinâmica e contaminação colectiva, com tráfico de influências e muita discussão à mistura. Anos profícuos, curtos mas seminais.

Burial “Untrue”

(2007)

Seguindo uma lógica de associações directas, em anos de rádio Oxigénio, era a electrónica quem mais ordenava, funcionando como elemento aglutinador de exploração e pesquisa  musical e tradução de todos os estímulos em volta, do rock ao dub, já em ambiente de nuvem e internet sem fronteiras. Resultado, terabytes de informação e música a alimentarem muitas horas de emissão, e uma mão cheia de músicos e editoras definidores. De Fourtet a Dj Rashad, passando por Moodymann, Romare, Flying Lotus, Quantic, James Blake, Stereotyp, Jamie Lidell, Knxwledge. LCD Soundsystem, e editoras como a Hyperdub de Kode9, Sonar Kollektive dos Jazzanova ou Output Records de Trevor Jackson, etc,etc,etc. De tudo isto, “Untrue” de Burial é uma espécie de pedra de toque de todo um espírito de música para respirar.

Bruno Pernadas “How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge?”

(2014)

Nos tempos mais recentes e na secção de música portuguesa, destaca-se na lista de discos mais ouvidos e mais entusiasmantes o álbum de estreia de Bruno Pernadas. È um disco monumental e cheio de mundos dentro que junta como poucos influências de música das mais diversas proveniências sob uma lógica de orquestra diletante de guerrilha. Juntem Fela Kuti, Frank Zappa, Stereolab, Kamasi Washington e Les Baxter, ou juntem, o que vos apetecer, e terão a resposta à pergunta “How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge”

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