Dez discos que definiram o meu gosto – Alex ‘FX’ Fernandes

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Alex ‘FX’ Fernandes.

The Disposable Heroes of Hiphoprisy “Hypocrisy is the Greatest Luxury”

(1992)

Não são propriamente o tipo de grupo com uma média/vasta discografia. Muito pelo contrário. Contudo, para quem conhece, este disco é uma pedrada no charco, um marco histórico. Mesmo eu não sendo um ávido consumidor de hip-hop, o trabalho dos DHoH é subliminar. Creio mesmo que a par dos The The, terão sido os discos mais “políticos” que consumi. Se por um lado Matt Johnson usava as brilhantes metáforas, aqui Michael Franti era explícito. Dei por mim a memorizar rimas deste disco, a vibrar com toda aquela fusão de beats e samples das mais variadas referências, recurso a percussão em objectos metálicos (influência industrial) pelo Rono Tse e as guitarras jazz/blues de Charlie Hunter. É difícil escolher um tema que seja mais irónico que “Television, The Drug of the Nation”, mas por ex. “Language of Violence” é de uma demanda avassaladora. Trivia: os beats deste tema foram os que Alan Wilder usou para o tema “Walking in my Shoes” dos Depeche Mode 😉

The The “Mind Bomb”

(1988)

Matt Johnson é, para mim, um dos mais brilhantes escritores de letras/canções. Em 1990, o meu serviço militar foi feito inteiramente no Porto e sob a banda sonora de “Violator” dos DM e deste “Mind Bomb” dos The The, ambos em cassetes originais no meu Walkman. Uma das coisas que a audição via bons auscultadores permite é o mais profundo mergulho sonoro numa obra; e nesse aspecto, ambos os discos foram microscopicamente analisados durante as noites no período da recruta. Se por um lado “Violator” se revelava na mais firme certeza que os Depeche tinham atingido a sua plenitude, criando uma obra-prima, foi precisamente “Mind Bomb” que me deu o bofetão de genialidade. Matt Johnson tinha reunido uma equipe fabulosa para realizar a longa metragem que precedia ao sucesso comercial de “Infected”, assumindo pela primeiríssima vez uma banda completa, onde se incluíam dois músicos de mão cheia: Johnny Marr, ex-guitarrista dos Smiths e Dave Palmer, ex-baterista dos ABC. Toda a narrativa lírica e musical era complexa mas viciante. As várias camadas e texturas nas quais todos os temas se perfilam faziam de “Mind Bomb” uma espécie de universo paralelo àquele que estava a ser vivido por mim dentro de um quartel, onde o verde da minha farda contrastava com o quão maduro este disco era.

Japan “Oil on Canvas”

(1983)

Escolher um disco ao vivo tem o seu quê de estranho numa selecção deste género. Neste caso propriamente dito (e antes do disco em si), devo ter gasto no mínimo o visionamento a 3 cassetes VHS importadas de Londres deste concerto. Os Japan estavam algures entre o que de melhor se conhecia e fazia no universo musical inspirado por nomes como Roxy Music, David Bowie ou até mesmo Brian Eno. Arrisco mesmo dizer que os Japan foram mais responsáveis por eu querer conhecer mais profundamente esses três nomes que o inverso. Os seus anteriores álbuns de estúdio (“Gentlemen take Polaroids” e “Tin Drum”) tinham-me dado a conhecer aquela que é ainda hoje para mim a mais perfeita secção rítmica que a pop conheceu: Steve Jansen e Mick Karn, a par com um dos mais inventivos teclastes (Richard Barbieri) e uma das mais belas e emblemáticas vozes masculinas: David Sylvian. Este último viria a tornar-se num dos meus compositores / intérpretes favoritos de sempre. Sei de cor e salteado todos os compassos, transições e harmonias destes temas; de resto, cheguei mesmo a passar horas a praticar bateria e baixo ao som deste disco. Já fiz muitas horas ao vivo em palco, mas o meu nirvana seria atingir este nível.

Depeche Mode “Black Celebration”

(1986)

Não obstante serem a banda com a qual sou mais rapidamente associado, “Black Celebration” surgiu numa altura (1986) em que a banda iniciou a viragem sonora que os iria demarcar definitivamente da aura mais pop. Coincidiu também com o período mais negro da minha vida, porque a par com a rebeldia na adolescência dos meus 16 anos tinha acabado de perder para um cancro a mulher que me incutiu mais música na minha vida: a minha jovem mãe com menos de 40 anos de idade. Sendo filho único e ficando sem Norte, todas as portas para um rumo à auto-destruição se abriam escancaradas perante mim ou até mesmo o meu pai. E foi aí que me decidi focar e dedicar o máximo possível à música, de qualquer forma possível. “To celebrate the fact that we’ve seen the back of another black day”

David Sylvian “Gone to Earth”

(1986)

Sylvian funcionou sempre como um bálsamo para mim. Daqueles raros e exímios. “Gone to Earth” situa-se ao centro da sua trilogia inicial, a qual começou no sublime “Brilliant Trees” e concluiu na obra-prima “Secrets of the Beehive” – e se tal é assim, porque não ter escolhido eu o 3º? – tão simplesmente porque “Gone to Earth” (a par com “Black Celebration” dos DM) fez parte do meu manual de sobrevivência à maioridade antecipada nesse ano (1986). Aquele duplo álbum, dividido entre entre canções e peças instrumentais foi a mais perfeita banda sonora para simultaneamente me apaziguar e permitir descobrir cada recanto da obra nos seus mais ínfimos detalhes. Aquele leque de músicos que se estende desde o Jazz até à vanguarda experimentalista, aquela capa do Russell Mills… e aquele tema… AQUELE TEMA… “Before the Bullfight” é ainda hoje, para mim, a mais bela, intensa e arrebatadora canção do David Sylvian. Tudo aquilo é pura filigrana que se estende desde os pormenores rítmicos do seu irmão Steve Jansen e do feliscorne de Kenny Wheeler aos solos cruzados de guitarra acústica e eléctrica entre Bill Nelson e Robert Fripp. Sylvian será muito provavelmente o autor que sentirei mais a falta no momento em que nos deixar.

Kraftwerk “The Man Machine”

(1978)

Foi, a par de “Close to the Edge” dos Yes, o disco que mais atenção me cativou desde criança, com menos de 10 anos de idade. Os arpeggios e vocoders de “We are the Robots” ou “The Model” foram mais fáceis de memorizar que o “Fungagá da Bicharada” do José Barata Moura, então entoado na televisão e nas escolas. Olhando para trás, eu deveria ter sido uma criança com uma socialização algo estranha perante os meus colegas do Grande Colégio Universal do Porto – lembro-me bem que eu seria o que estava mais versado para as artes (musicais, neste caso). Não tenho o impacto na minha vida que os Beatles habitualmente deixam na maioria, muito provavelmente porque o meu “Sargent Pepper’s” foi “The Man Machine” e Ralf, Florian, Wolfgang e Karl foram os meus McCartney, Lennon, Harrison e Ringo. Ficamos recentemente sem um dos seus arquitectos originais, o Florian.

Photek “Modus Operandi”

(1997)

Sim, Goldie pode ter trazido -e muito bem- o Jungle/Drum’n’Bass às massas, mas foi Rupert Parkes quem lhe deu um cunho único ao adicionar a abstracção e os beats mais complexos. Se Goldie fosse o traço de Picasso, Photek seria o de Dali, por assim dizer. Tanto o EP anterior “The Hidden Camera” como o álbum são obras-primas. “KJZ” ou até o tema título “Modus Operandi” são perfeitos exemplos da sua espécie de Escala de Richter em termos de um alcance sonoro para lá das pistas de dança. Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente e lhe agradecer o imenso impacto que causou toda a sua música na minha vida. Tivemos a mais interessante conversa possível durante um jantar e uma noite memorável a passar música no Gare, onde fez questão de ouvir o meu set, coisa que podia perfeitamente evitado para ir descansar da viagem.

Recoil “Liquid”

(2000)

“Unsound Methods” já tinha começado a pavimentar o caminho, mas este foi o disco que virou a minha vida em 180º e que permitiu alguns anos mais tarde vir a tornar-me amigo pessoal do seu autor, Alan Wilder. É o “álbum conceptual” por excelência, criado a partir de uma experiência quase fatal na sua vida. É um génio no domínio total e absoluto das suas capacidades e potencial. É uma lição de texturas e camadas que até à presente data ainda me faz descobrir novos detalhes a cada nova audição e, depois de ele me ter oferecido a raríssima versão instrumental do álbum, abriu-se todo um novo mapa de descobrimentos a este sextante sonoro. Nicole Blackman pode ter sido escolhida pelo brilhante trabalho com os Golden Palominos, mas neste álbum toma as rédeas de uma das melhores performers “spoken word” que se poderiam desejar. Sublime será o mais simples dos adjectivos que posso usar para definir este disco.

Apparat “The Devil’s Walk”

(2011)

Sou um fã do Sascha Ring há muitos anos. Mesmo do trabalho paralelo com os Modeselektor, os Moderat. É dotado de uma sensibilidade impar e de uma voz fragilmente eficaz. Tem o dom de escrever, interpretar e criar discos singulares. “The Devil’s Walk” é de uma maturidade estonteante. Adoraria poder trabalhar com ele. Quem sabe o que poderá aí vir adiante?

Jóhann Jóhannsson “IBM 1401, A User’s Manual”

(2006)

Cheguei tarde ao Jóhann; ou melhor, cheguei mais tarde do que teria desejado, porém com ele ainda entre nós. Foi em 2011 e por mero acaso, ao visionar o trailer de um filme (“Battle Los Angeles”) e ficar assombrado com a música que lá estava de fundo, ao ponto de fechar os olhos e desligar-me das imagens. O tema em questão chama-se “The Sun’s Gone Dim and the Sky’s Turned Black” e eu mergulhei naquilo como nas obras de Arvo Pärt ou Max Richter, por ex.. Ao procurar o disco, verifiquei de era editado pela 4AD e que já existiam anteriores. Este propriamente dito baseia-se em composições criadas à volta de gravações de sons originados a partir de um dos primeiros computadores, o IBM 1401, que havia sido operado pelo seu pai. Uma das peças, “Processing Unit” é belíssima. Nunca mais tirei a vista e os ouvidos do seu percurso. Chegou à prestigiada Deutsche Grammophon e compôs bandas sonoras fabulosas (“Theory of Everything” ou “The Arrival”, por ex.). Foi uma perda enorme para a música a sua recente morte em 2018. Nascemos no mesmo ano (1969), com diferença de 2 meses, o que me tornou de certa forma mais próximo dele, o que quer que isso possa dizer. 

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